Capítulo 3 Capítulo 3
A vida de Heloá vai mudar em menos de cinco dias, e ela ainda não se conforma com o destino que sua mãe escolheu para ela. Nadyle só teve Heloá porque, devido a um erro médico grave, tiraram suas trompas, as duas.
O erro só foi descoberto três meses depois. Sua mãe optou pela cesárea, já que não havia mais outra saída, não era a primeira opção dela, mas... E graças a esse erro, Heloá é a filha única de Nadyle e Constantin Miller. Eles fizeram dela sua princesinha e a trancaram na "torre" desde os cinco anos.
Nadyle e a madrinha de Heloá, Francine Mattews, traçaram a vida dela e a de Gael Mattews. Elas estão brincando de Deus, unindo as vidas dos dois sem o consentimento de nenhum. A diferença é que Deus une casais fazendo com que se apaixonem; elas os estão obrigando a se casar sem sentimento algum, sem sequer terem conversado uma vez.
Heloá não sabe quem é Gael, nem como ele é. Sua mãe disse mais de trinta vezes que o levaria até o internato para que os dois pudessem se conhecer, mas até agora nada aconteceu.
Como eu disse antes, Nadyle e Francine são melhores amigas de infância, e assim decidiram que o filho e a filha de cada uma deveriam se casar para unir a família e os negócios. Heloá vive nesse internato justamente para não se apaixonar por ninguém e guardar sua virgindade para um homem que não conhece e que não nutre sentimento algum por ela.
Enquanto ele vive solto, à sua maneira, ela duvida que tenha se guardado como a obrigaram a fazer. No internato, ela tem a senhora Amélie Angelle, mas gosta de ser chamada de vovó por Heloá, pois nutre por ela um amor imenso. A verdade é que Heloá quase não viu os pais, apenas em aniversários e no fim de ano, por dois dias. A senhora Angelle é sua referência familiar mais próxima, já que sua própria família de sangue a aprisionou no internato.
Heloá está escrevendo em seu diário, tem tantos que precisará de duas malas só para eles. Ela escreve para não pensar, e em vários desses cadernos há frases do tipo:
— "Será que ele vai gostar de mim?"
— "Será que eu vou gostar dele?"
— "Vou tentar ser uma boa esposa, para que ele se apaixone por mim."
— "Será que ele é mais alto que eu?"
Algumas frases ela escreveu quando tinha apenas quinze anos, ainda acreditando em conto de fadas. Sua mãe havia prometido que, no Natal de quatro anos atrás, ela conheceria seu "noivo". Heloá se arrumou toda, usou o batom que a vó Amélie lhe deu, que combinava, segundo ela, com os cabelos negros e os olhos castanho-esverdeados da menina, e que seus lábios carnudos precisavam daquele vermelho carmim para deixar tudo em harmonia. Ela se arrumou até demais, e no fim sua mãe disse que Gael havia decidido viajar para passar o Natal na casa de um amigo. Heloá se sentiu a maior idiota do mundo.
Ela está escrevendo em seu diário, distraída, até sentir uma mão suave em seu ombro e ouvir a doce voz da vó Amélie:
— Vou sentir tanto a sua falta, minha netinha... Quis Deus que eu não tivesse filhos, mas me deu uma linda netinha de presente. Mon ange.
Vó Amélie chama Heloá de "meu anjo" desde que ela chegou ao internato. Como a menina chorava muito de saudade dos pais, Amélie se comovia e a levava para dormir com ela.
— Eu também não quero ir, vó! Não conheço meu futuro marido... E se ele for mau comigo?
— Você volta, e eu vou te proteger! Ninguém vai lhe fazer mal enquanto estiver ao meu lado!
— Vou sentir tanto a sua falta!
Heloá está abraçada com a avó quando Catherine entra sem bater, como sempre. Catherine LeBlanc tem a mesma idade de Heloá e chegou ao internato duas semanas depois dela. Era solitária, assim como Heloá, e as duas acabaram virando melhores amigas, uma não vai a lugar nenhum sem a outra.
— Vocês poderiam me chamar! Quero abraço também!
Cat se joga e abraça Heloá, e a vó Amélie puxa as duas para seu peito acolhedor.
— Tenho que ir agora, meus amores... As tias da cozinha gostam quando as ajudo. Até mais tarde, minhas netinhas!
Passam-se alguns minutos, e Cat não tira os olhos azuis de cima de Heloá, que pergunta:
— O que foi, Cat?
— Me diz: você usou? Eu te dei aquilo para você saber, ao menos um pouco, como é sentir prazer, para não passar aperto na sua noite de núpcias com seu marido!
— Cat! Eu... não usei! Me falta coragem! Mal me toco para me lavar! Não vou fazer isso! E sua mãe vai te matar quando descobrir que você se entregou para o rapaz que entrega frutas na mansão de vocês!
— Já te falei que, quando sair daqui, vamos nos casar! Ele me manda cinco cartas por dia dizendo que está com saudade e que não vê a hora de nos casarmos e termos nossos filhos!
— E se seus pais te deserdarem? Você ainda vai querer casar com ele assim mesmo?
— Trabalharei na feira ao lado dele, dando o melhor sorriso do mundo a cada cliente, desejando "bom dia" ou "boa tarde" sempre com bom humor! Não importa se vou estar na mansão ou na casa simples de quatro cômodos dele — eu quero estar com ele!
— Foi na casa dele que vocês... você sabe.
— Sim! Disse à minha mãe que passaria o dia na biblioteca principal, estudando para uma prova importante... mas passei o dia inteiro com ele. Primeiro fizemos um buquê no pequeno jardim, e acabei me sujando de terra. Ele me deixou usar o banheiro do quarto dele, e saí enrolada numa toalha, já que minha roupa estava secando depois que ele mesmo lavou. Achei tão fofa a reação dele quando se virou e tapou os olhos... Fui até ele, o puxei para um beijo e disse que queria ser dele.
— Doeu? Ouvi dizer que dói um pouco, na primeira vez...
— Senti um desconforto no começo, mas ele foi tão cuidadoso comigo, perguntando o tempo todo se eu estava bem... Depois foi só entrega, e uma sensação que eu nunca tinha sentido antes.
— Você é doida, mas pelo menos vocês se amam... o que não é o meu caso.
— Usa o presente que te dei, e no momento em que estiver com seu marido, você vai reconhecer a sensação quando ela chegar!
Elas ficam ali conversando mais um pouco, e depois Heloá vai para o quarto se preparar para o jantar; Cat também vai para o dela. Heloá entra no banheiro para tomar seu banho e pensa:
— "Cat tem razão. Eu nem conheço meu próprio corpo, porque minha mãe sempre dizia que eu não podia fazer isso ou aquilo, porque perderia minha virgindade. E mal me toco no banho para me limpar. Hoje será diferente."
Heloá dá início ao banho — mas hoje não será no chuveiro. Assim que a pequena banheira está pronta, ela entra e se acomoda ali, nervosa, e olha para o pequeno presente que Cat lhe deu.
Ela não o pega de imediato; antes, decide simplesmente se conhecer, entender o próprio corpo pela primeira vez. A sensação é tão boa que o medo desaparece, e ela se permite explorar aquilo com calma, mais de uma vez, até parar exausta, as pernas ainda trêmulas. Pela primeira vez, ela pensa de verdade na sua noite de núpcias com Gae
l.
— Será que ele vai ser romântico e cuidadoso como o namorado de Cat?
