Capítulo 1 O homem que manda

Lobão narrando

A correria no morro nunca para. Estou no comando há quase dez anos. Comecei ainda moleque, quando mal tinha noção do peso das escolhas que estava fazendo, e nunca mais consegui sair dessa vida. Conheço os riscos, sei qual pode ser o meu destino final e, de certa forma, já me conformei com a possibilidade de não ter uma velhice tranquila.

Não tenho fiel. Existem algumas mulheres com quem me envolvo de vez em quando, mas nada sério, nada que me faça perder o sono. O problema é que algumas gostam de aparecer mais do que deveriam, como se ficar comigo lhes desse algum tipo de direito sobre a minha vida.

Não dá.

Gosto da minha liberdade, faço o que quero e não costumo dar satisfação a ninguém. Até hoje, nunca apareceu uma mulher capaz de mudar isso.

E, sinceramente, duvido que apareça.

Minha vida é uma correria sem fim. Sempre existe alguma coisa para resolver, alguém querendo uma resposta ou algum problema surgindo na pior hora possível. Quando não estou cuidando dos assuntos do morro, estou tentando impedir que as coisas saiam do controle.

Mas, naquela noite, tinha um motivo a mais para me preocupar.

Era dia de baile.

E também era o dia em que as novas médicas começariam a trabalhar no posto de saúde da comunidade.

Fazia meses que eu estava cuidando da reforma daquele lugar. Mandei trocar os equipamentos, reformar as salas, melhorar a recepção e organizar os espaços de atendimento. Queria deixar tudo parecido com uma UPA, dentro das possibilidades que tínhamos.

O povo daqui precisava de assistência médica de verdade. Tinha criança que passava mal durante a madrugada, idoso que precisava de acompanhamento e gente que deixava uma doença piorar porque não tinha dinheiro ou condições de atravessar a cidade em busca de atendimento.

Aquilo me incomodava.

Podiam falar o que quisessem de mim, mas eu sabia das necessidades de quem vivia ali. E, se tinha uma coisa que eu não aceitava, era ver o povo abandonado quando precisava de ajuda.

O problema era conseguir profissionais dispostos a trabalhar no posto.

Ofereci salários acima da média, melhores condições e uma estrutura completamente renovada. Mesmo assim, a maioria recusava assim que descobria onde seria o trabalho.

Alguns nem se davam ao trabalho de esconder o preconceito.

Depois de muita insistência, consegui contratar duas médicas recém-formadas. Jovens, com conhecimento atualizado e disposição para começar a carreira.

Pelo menos, era o que eu esperava.

Só faltava torcer para que não desistissem nos primeiros dias.

Naquela manhã, eu já tinha resolvido uma porção de problemas. Paguei os seguranças, acertei as contas dos rapazes que trabalhavam para mim e organizei os últimos detalhes do baile. Todo mundo teria dinheiro no bolso para aproveitar a noite.

O pessoal gostava quando o pagamento saía em dia. E eu gostava de manter as coisas funcionando sem precisar ouvir reclamações.

Por volta das sete e pouco da noite, resolvi descer até a barreira para conferir a movimentação e dar algumas ordens. O som já começava a se espalhar pelas ruas, os comerciantes se preparavam para a noite e os primeiros moradores seguiam em direção ao baile.

Foi quando vi uma mulher saindo do posto de saúde.

Não sei explicar o que me fez reparar nela tão depressa. Talvez tenha sido o jeito como caminhava, tranquila, sem demonstrar preocupação com o movimento ao redor. Talvez tenha sido a aparência.

A verdade é que ela chamava atenção.

Tinha um corpo bonito, cabelos castanhos claros e uma postura que transmitia segurança. Vestia uma roupa discreta, mas que valorizava suas curvas. Não parecia estar tentando impressionar ninguém.

E foi justamente isso que me intrigou.

Um carro de luxo estava estacionado em frente ao posto. A mulher caminhou até ele, abriu a porta e entrou sem sequer olhar na minha direção.

Fiquei acompanhando cada movimento, esperando que ela notasse minha presença.

Nada.

A bonita simplesmente entrou no carro e foi embora.

Franzi a testa.

Aquilo era novidade.

Normalmente, bastava eu aparecer para que as pessoas soubessem quem estava por perto. Algumas me cumprimentavam imediatamente, outras desviavam o olhar, e sempre existia quem tentasse chamar minha atenção de alguma maneira.

Ela não fez coisa alguma.

Nem um olhar curioso.

Nem um cumprimento.

Nada.

Soltei uma risada curta, mais surpreso do que irritado.

— Olha só essa daí — murmurei, acompanhando o carro desaparecer na rua.

Talvez não soubesse quem eu era. Talvez tivesse acabado de chegar e ainda não conhecesse as pessoas que comandavam aquele lugar.

Ou talvez simplesmente não estivesse interessada.

A última possibilidade me incomodou mais do que deveria.

Eu estava acostumado a despertar curiosidade. Não precisava fazer esforço para isso. Minha posição, meu dinheiro e a influência que exercia sobre aquela região eram suficientes para que muita gente tentasse se aproximar.

Mas aquela mulher tinha passado por mim como se eu fosse apenas mais um homem parado na rua.

Aquilo mexeu com meu orgulho.

— Quero saber quem é aquela mulher — pedi a um dos rapazes que estava próximo.

— A que saiu do posto, chefe?

— Essa mesma.

— Vou descobrir.

Fiz um gesto para que ele fosse cuidar do assunto, mas logo me arrependi de ter demonstrado interesse. Eu tinha problemas muito mais importantes do que uma desconhecida que não me dera atenção.

Pelo menos, era isso que eu dizia a mim mesmo.

Voltei para a boca e passei as horas seguintes resolvendo pendências. O movimento não diminuía, as responsabilidades continuavam chegando e, quando percebi, já eram quase dez da noite.

O baile estava a todo vapor.

Antes de aparecer por lá, subi para casa, tomei um banho demorado e troquei de roupa. Escolhi uma camisa preta, uma calça escura e meu relógio de sempre. Conferi o celular, respondi a algumas mensagens e desci.

A música podia ser ouvida de longe. As luzes coloridas iluminavam a rua, os comerciantes trabalhavam sem parar e os moradores chegavam em grupos, prontos para aproveitar a noite.

Era o tipo de movimentação que eu conhecia bem.

Cumprimentei alguns conhecidos, conferi a segurança e segui em direção à área reservada. Os rapazes me receberam com o respeito habitual, enquanto eu observava tudo ao redor.

Era minha responsabilidade garantir que a noite transcorresse sem problemas.

Ainda assim, em algum momento, minha cabeça voltou à mulher do posto.

Lembrei do jeito tranquilo com que ela caminhara até o carro. Do rosto que mal consegui observar direito. Da indiferença com que me tratara.

Balancei a cabeça, tentando afastar aquela lembrança.

Eu nem sabia o nome dela.

E não fazia sentido ficar pensando em uma desconhecida.

Só que, pela primeira vez em muito tempo, uma coisa simples tinha conseguido despertar minha curiosidade.

Eu ainda não sabia, mas aquela mulher estava prestes a entrar na minha vida de uma maneira que eu jamais poderia prever.

E, quando isso acontecesse, talvez eu descobrisse que nem tudo neste mundo podia ser controlado.

Nem mesmo por mim.

📚💕

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