Capítulo 2 Ela não sabe com quem está brincando

Lobão narrando

— Cole, mano! Tu viu as novas médicas do postinho? — Caveira perguntou, chegando perto da mesa onde eu estava com os caras. — Estou até passando mal. Duas gatas daquelas e eu aqui, sem saber por onde começar!

Revirei os olhos, segurando as cartas entre os dedos.

Caveira era um sujeito que não podia ver uma mulher bonita que já começava a fazer planos para o futuro. Bastava um sorriso para o homem imaginar casamento, lua de mel e até nome dos filhos.

— Já estão de olho, né? — Milla comentou, aparecendo ao lado do marido. — Vocês dois não valem nada! As meninas são uns amores. A gente se deu muito bem, e vou trabalhar com elas. Inclusive, convidei as duas para o baile de hoje.

Tubarão, que estava sentado ao lado dela, passou o braço pelos seus ombros e deu um beijo em seu rosto.

— Se minha mulher disse que elas são gente boa, então é porque são. Quem sabe vocês dois não tomam vergonha na cara e arrumam uma fiel de uma vez?

Caveira e eu trocamos um olhar.

Depois, começamos a rir.

— Olha as conversas fiadas! — respondi, jogando uma carta sobre a mesa. — Estou muito bem do jeito que estou.

— Do jeito que está? — Milla questionou, colocando as mãos na cintura. — Só bancando os conquistadores, saindo com uma mulher hoje e outra amanhã. Deus me livre!

Olhei para aquela abusada, tentando manter a expressão séria.

— Irmão, se tu não fosse casado com essa mulher, eu já teria mandado ela tomar conta da própria vida.

Tubarão começou a rir, enquanto Caveira quase derrubava as cartas.

— Está vendo? — Milla respondeu, toda satisfeita. — Eu trabalho com fatos reais!

— Fatos reais coisa nenhuma. Tu gosta é de provocar.

— E tu gosta de reclamar porque sabe que estou certa.

Balancei a cabeça, soltando uma risada. Milla tinha uma língua afiada, mas era impossível ficar realmente irritado com ela. Além de ser uma das poucas mulheres que falavam comigo sem medo, tratava todo mundo com carinho e tinha conquistado o respeito dos moradores.

— Vai lá cuidar do teu marido, mulher — falei, apontando para Tubarão. — Deixa a gente jogar em paz.

— Vou mesmo. E, quando as meninas chegarem, quero ver vocês dois comportados!

— Pode deixar, patroa! — Caveira respondeu, fazendo uma continência debochada.

Milla mostrou a língua para ele antes de se afastar.

Ri daquela abusada e voltei minha atenção para o jogo de truco. As provocações continuaram por alguns minutos, acompanhadas de apostas, risadas e acusações de que um estava tentando enganar o outro.

Eu estava tranquilo, aproveitando a noite como qualquer outra.

Até perceber uma movimentação diferente perto da escadaria que levava ao camarote.

Primeiro, foram alguns olhares curiosos. Depois, as conversas começaram a diminuir ao redor da mesa. Quando ergui a cabeça, encontrei praticamente todo mundo olhando na mesma direção.

Segui os olhares e parei com as cartas na mão.

Eram elas.

As duas médicas tinham acabado de chegar.

Milla foi a primeira a se levantar, abrindo os braços para recebê-las. As três se abraçaram com tanta intimidade que pareciam amigas havia anos.

A primeira era Júlia, uma mulher bonita, sorridente e cheia de energia. A segunda era Rafaela.

A mesma mulher que tinha saído do posto sem sequer olhar para mim.

Dessa vez, tive a oportunidade de observá-la melhor.

Rafaela estava deslumbrante. Os cabelos castanhos claros caíam sobre os ombros, e a roupa escolhida para aquela noite valorizava sua silhueta sem exageros. Ela caminhava com a cabeça erguida, um sorriso discreto nos lábios e uma tranquilidade que parecia não combinar com o ambiente agitado ao redor.

Havia alguma coisa naquele jeito dela que prendia a atenção.

Talvez fosse a segurança.

Talvez fosse o olhar.

Ou talvez fosse simplesmente o fato de que, desde a primeira vez que nos cruzamos, ela parecia completamente indiferente à minha presença.

E eu ainda não tinha decidido se aquilo me irritava ou me intrigava.

— Rapaz... — Caveira murmurou ao meu lado.

Olhei para ele.

— Que foi agora?

— Já imaginei umas mil possibilidades com essa Júlia. Se a noite continuar desse jeito, vou terminar o baile apaixonado.

Soltei uma gargalhada.

— Tu não tem jeito, irmão.

— Eu tenho é visão de futuro.

— Teu futuro muda toda vez que aparece uma mulher bonita.

Ele apontou um dedo para mim, fingindo indignação.

— Não fala assim porque tu está olhando para a outra desde que ela apareceu.

A risada morreu lentamente no meu rosto.

— Estou olhando porque ela acabou de chegar. Qual é o problema?

— Nenhum, chefe. Só estou observando os fatos, como diria a Milla.

Revirei os olhos e voltei a prestar atenção nas cartas.

Não ia dar assunto para aquele maluco.

As duas médicas se acomodaram com Milla, e logo o camarote voltou a ficar animado. A música aumentou, os convidados começaram a dançar e a noite seguiu seu curso.

Tentei me concentrar no jogo, mas, de vez em quando, meus olhos procuravam Rafaela sem que eu percebesse.

Ela conversava, ria e parecia genuinamente à vontade. Não demonstrava receio de ninguém, tampouco ficava tentando chamar atenção. Era como se estivesse ali apenas para se divertir, sem se importar com quem comandava o lugar.

Aquilo era diferente.

Eu conhecia bem os olhares curiosos, as tentativas de aproximação e as pessoas que buscavam uma oportunidade de conversar comigo. Rafaela não parecia interessada em nada disso.

E o pior era que, quanto menos atenção ela me dava, mais eu queria entender o que se passava naquela cabeça.

A música mudou depois de algum tempo, e algumas pessoas se dirigiram para a pista.

Foi quando Rafaela começou a dançar.

Precisei interromper o que estava fazendo.

A mulher tinha ritmo, confiança e uma leveza que chamava a atenção sem que precisasse fazer esforço. Ela dançava com Júlia, ria das brincadeiras da amiga e parecia esquecer completamente o restante do mundo.

Fiquei olhando por alguns segundos, impressionado com a desenvoltura dela.

— Fecha a boca, Lobão — Caveira provocou. — Daqui a pouco entra uma mosca.

Virei o rosto na direção dele.

— Está procurando problema, desgraçado?

Ele levantou as mãos, rindo.

— Estou quietinho, chefe. Não posso fazer nada se a médica resolveu acabar com a tua paz.

— Vai cuidar da tua vida.

— Estou tentando, mas tu não ajuda. Olha a tua cara!

Peguei uma carta e joguei na mesa com mais força do que precisava.

Os caras começaram a rir, e eu resolvi ignorar todos eles.

Aquela mulher estava conseguindo uma coisa que poucas pessoas conseguiam: fazer com que eu perdesse a concentração sem sequer dirigir uma palavra a mim.

A madrugada avançou. O baile continuava movimentado, mas alguns convidados já começavam a ir embora. Eu tinha passado boa parte da noite entre o camarote, os seguranças e os rapazes, conferindo se estava tudo bem.

Quando voltei a olhar para a escadaria, encontrei Rafaela descendo.

Ela estava acompanhada de Júlia, mas as duas se separaram perto da saída. Júlia voltou para junto de Milla, enquanto Rafaela seguiu sozinha.

Não pensei muito.

Deixei o copo sobre uma mesa e fui ao encontro dela.

Afinal, eu era o responsável pelo baile. Cumprimentar uma convidada não tinha nada de extraordinário.

Pelo menos, foi essa a desculpa que encontrei para mim mesmo.

— Está curtindo o meu baile? — perguntei, parando diante dela.

Rafaela ergueu o rosto.

De perto, seus olhos eram ainda mais bonitos. Havia uma expressão serena neles, quase inocente, mas o sorriso discreto que surgiu em seus lábios me fez desconfiar de que aquela mulher era bem mais esperta do que aparentava.

— Estou de boa. É legal aqui.

Cruzei os braços, deixando aparecer meu melhor sorriso.

— Mas pode ficar melhor ainda, não acha?

Ela me encarou por alguns segundos.

Esperei encontrar algum sinal de interesse, uma risada tímida ou qualquer reação que me desse espaço para continuar a conversa.

Rafaela, porém, apenas ajeitou a bolsa no ombro.

— Sei que sim. Por isso estou indo embora. Vai ficar muito melhor lá na minha cama.

Fiquei imóvel.

Ela passou por mim com a maior naturalidade do mundo, como se tivesse acabado de comentar sobre o clima.

Ainda consegui acompanhar seus passos por alguns segundos, completamente sem reação.

Depois, virei a cabeça, observando-a seguir em direção à saída.

Que situação era aquela?

Eu, Lobão, acostumado a comandar conversas, resolver problemas e conseguir a atenção de quem quisesse, tinha acabado de levar uma resposta tão tranquila que nem sequer encontrei o que dizer.

Ela não tinha sido grosseira.

Não tinha demonstrado medo.

Muito menos parecia impressionada com quem eu era.

Simplesmente decidiu ir embora.

— Não acredito nisso... — murmurei.

— Aconteceu alguma coisa, chefe? — um dos seguranças perguntou ao perceber minha expressão.

Olhei para ele.

— Não. Está tudo certo.

Mas não estava.

Pelo menos, não dentro da minha cabeça.

Voltei para o camarote e encontrei Caveira esperando por mim com um sorriso que me fez desconfiar imediatamente.

— E aí, patrão? Conversou com a doutora?

Sentei-me e peguei meu copo.

— Conversei.

— E como foi?

— Normal.

Ele estreitou os olhos.

— Normal? Pela tua cara, parece que ela te deu um fora daqueles.

Os outros começaram a prestar atenção na conversa.

— Vocês não têm nada para fazer, não? — perguntei, irritado com a curiosidade deles.

Caveira soltou uma gargalhada.

— Pronto! Acertei!

Peguei uma almofada e joguei na direção dele, arrancando mais risadas dos presentes.

Eu deveria ter deixado aquilo para lá. Rafaela era uma médica que trabalharia no posto, e nosso contato poderia se limitar a encontros ocasionais.

Era simples.

Pelo menos, deveria ser.

Só que havia um detalhe que não saía da minha cabeça: ela não sabia quem eu era de verdade ou simplesmente não se importava?

A pergunta ficou martelando enquanto eu observava o movimento do baile.

Eu queria saber mais sobre aquela mulher. Queria entender por que ela parecia tão segura e de onde vinha aquela tranquilidade capaz de desmontar minha confiança com meia dúzia de palavras.

E, pela primeira vez naquela noite, tive certeza de uma coisa.

Eu precisava tomar cuidado.

Não porque Rafaela tivesse feito alguma ameaça ou demonstrado qualquer intenção contra mim.

Mas porque, sem fazer absolutamente nada, ela tinha despertado minha curiosidade de um jeito que eu não conseguia ignorar.

E eu ainda não fazia ideia de que aquele era apenas o começo.

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