Capítulo 1 O Mundão Girou
Morena narrando
Engana-se quem olha para mim e pensa que sou uma santa. Talvez eu já tenha sido um dia, mas essa versão ficou perdida em algum lugar do meu passado.
Quando era criança e adolescente, eu tinha apenas um amigo de verdade: KS, o filho do antigo dono do morro. Crescemos juntos, compartilhamos segredos, brincadeiras e momentos que, para mim, significavam muito mais do que ele poderia imaginar.
Não sei dizer exatamente em que momento me apaixonei. Só sei que, quando percebi, já era tarde demais. Eu sonhava acordada, imaginando como seria me casar com ele, construir uma família e ter filhos com aquele que, na minha cabeça, era o homem da minha vida.
Olha a inocência da criatura!
Eu realmente acreditava que o amor era suficiente para fazer duas pessoas ficarem juntas. Mal sabia que, às vezes, o coração escolhe justamente quem não está disposto a nos escolher.
Quando finalmente criei coragem para me declarar, eu tinha quinze anos, e ele, dezessete.
Lembro daquele dia como se tivesse acontecido ontem. Eu estava nervosa, com as mãos geladas e o coração batendo tão forte que parecia querer escapar do peito. Ensaiara aquelas palavras tantas vezes diante do espelho que, quando chegou a hora, quase não consegui pronunciá-las.
KS me ouviu em silêncio.
E então acabou com todos os meus sonhos usando poucas palavras.
Disse que não poderíamos ficar juntos porque me enxergava como uma irmã.
Uma irmã!
Vocês conseguem imaginar a humilhação que senti? Eu queria desaparecer. Queria voltar no tempo e fingir que nunca tinha aberto a boca. Queria, principalmente, arrancar aquele sentimento de dentro de mim.
Passei uma semana trancada no quarto, quase não comia e não tinha vontade de conversar com ninguém. Minha mãe começou a ficar preocupada, sem entender o motivo daquela tristeza repentina.
Eu não tive coragem de contar a verdade. Como poderia explicar que estava sofrendo por um garoto que nunca havia me prometido nada?
Então inventei uma desculpa.
Disse que sentia saudades do meu pai e que gostaria de passar um tempo com ele, em São Paulo.
Minha mãe não gostou da ideia no início. Afinal, eu nunca havia demonstrado tanta vontade de ficar longe dela. Porém, depois de conversarmos bastante, acabou aceitando.
Meu pai morava em São Paulo e era dono de uma rede de concessionárias de automóveis. Quando cheguei, fui recebida com tanto carinho que, pela primeira vez em dias, consegui sorrir sem precisar fingir.
Ele me tratava como uma princesa, mas também sabia me incentivar a correr atrás dos meus próprios sonhos.
E foi assim que comecei a mudar.
Fiz cursos, estudei inglês, entrei em aulas de dança e até me aventurei na culinária. Também comecei a frequentar a academia. Aos poucos, descobri que existia um mundo enorme além daquele amor adolescente que eu acreditava ser o centro de tudo.
Estudei, me formei e concluí um curso técnico em Administração.
Durante o estágio, conheci um rapaz que acabou conquistando meu coração de um jeito completamente diferente. Ele era atencioso, carinhoso e, acima de tudo, fazia questão de demonstrar que gostava de mim.
Hoje, estamos namorando.
Só existe um pequeno detalhe nessa história: a distância.
Porque, depois de tantos anos em São Paulo, chegou o momento de voltar ao Rio de Janeiro.
E, sinceramente, eu não sei se estou preparada para reencontrar determinadas pessoas.
Principalmente uma.
Soube que o garoto que um dia me rejeitou, alegando que me considerava uma irmãzinha, agora é o temido dono do morro.
KS.
Só de pensar naquele nome, sinto uma mistura de irritação e vontade de rir.
Quem diria, hein?
O menino que não me queria agora é um homem poderoso, acostumado a ter todo mundo respeitando suas ordens. Aposto que continua com aquele jeito convencido de quem acredita que o mundo gira ao redor do próprio umbigo.
Pois que continue acreditando.
Porque o mundo girou, meu querido.
E girou bonito!
Hoje, sou uma mulher adulta, tenho meus próprios planos, um namorado e uma vida que construí com esforço. Não sou mais aquela adolescente que chorava escondida no quarto porque recebeu um fora.
Agora, se ele não gostar de me ver, problema dele.
E, se gostar, problema maior ainda.
Porque não estou voltando para correr atrás de ninguém. Estou voltando porque sinto falta da minha mãe e quero ficar perto dela.
O resto é consequência.
Peguei o celular, abri minhas redes sociais e resolvi anunciar minha chegada.
@Morena
Gosto das voltas que o mundo dá. Alô, Rio de Janeiro, estou chegando!
Publiquei uma foto na qual aparecia arrumada, com os cabelos impecáveis e um sorriso cheio de confiança.
Não demorou para as curtidas começarem a subir.
2.332 curtidas. 1.456 comentários.
Nem perdi tempo lendo tudo. Bloqueei a tela, guardei o celular na bolsa e entrei no avião.
Agora era oficial.
Eu estava voltando para casa.
Quase duas horas depois, desembarquei no aeroporto do Rio de Janeiro. Fiz todos os procedimentos necessários, peguei minhas malas e comecei a procurar o rosto que mais queria ver naquele momento.
Minha mãe estava me esperando.
Assim que me avistou, abriu um sorriso enorme e veio na minha direção.
— Filha! Meu Deus, como você está linda! Você virou uma mulher!
Abri os braços e a abracei com força. O perfume dela trouxe uma onda de lembranças, e precisei respirar fundo para não me emocionar demais.
— Que saudade, mãe! Você não imagina o quanto eu estava louca para chegar.
Ela segurou meu rosto entre as mãos, examinando cada detalhe como se precisasse ter certeza de que eu estava mesmo ali.
— Você está ainda mais bonita do que nas fotos. Seu pai deve estar todo orgulhoso.
— Ele está. Mas agora eu quero aproveitar você. Cansei de sentir saudade por telefone.
Minha mãe sorriu, acariciando meu cabelo.
— Então, filha, preciso contar uma coisa antes de irmos embora.
Franzi a testa.
— Lá vem. O que aconteceu?
— Nós não moramos mais naquela casa.
Pisquei algumas vezes.
— Como assim, mãe?
— Eu me casei, meu amor. Nós nos mudamos.
Fiquei olhando para ela, tentando assimilar a informação.
— Você se casou e só me conta agora?
— Eu contei, menina! Você é que estava sempre ocupada com seus estudos, seus cursos e seu namorado.
— Está bem, não precisa jogar na minha cara. — Fiz uma careta. — E onde vocês estão morando?
Ela abriu um sorriso que me deixou desconfiada.
— No alto do morro. Meu marido é o Morte, antigo dono de lá. Quem comanda agora é o filho dele.
O sorriso desapareceu do meu rosto por um segundo.
Depois voltou, só que por um motivo completamente diferente.
Ah, não.
Não podia ser!
— Espera aí, mãe. Você está me dizendo que se casou com o Morte e agora eu vou morar na mesma casa que o filho dele?
— Exatamente.
Segurei uma risada.
Aquilo só podia ser uma brincadeira do destino.
Eu passara anos tentando esquecer o garoto que me rejeitou e, quando finalmente voltava ao Rio, descobria que ele fazia parte da minha nova família.
Que maravilha!
O universo realmente tinha um senso de humor duvidoso.
— Está tudo bem, mãe — respondi, tentando parecer tranquila. — O importante é que você esteja feliz.
— E eu estou muito feliz, filha. Você vai gostar de ficar conosco.
— Tenho certeza. Vai ser uma experiência inesquecível.
Minha mãe estreitou os olhos.
— Por que você falou isso desse jeito?
— Desse jeito como?
— Com essa carinha de quem está planejando alguma coisa.
Levei a mão ao peito, fingindo indignação.
— Eu? Jamais! Sou uma moça de família.
Ela caiu na gargalhada.
— Sei muito bem a filha que tenho.
— Então pronto. Vamos embora antes que eu mude de ideia.
Pegamos as malas e seguimos até o estacionamento. Morte estava esperando perto do carro e veio nos ajudar assim que nos viu.
— Bem-vinda, Morena!
Sorri ao cumprimentá-lo.
— Obrigada, Morte.
Ele pegou uma das malas e a colocou no porta-malas.
— Espero que não tenha problema ficar lá em casa com a gente.
— Nenhum. Só quero ficar perto da minha mãe. Já passei tempo demais longe dela.
— Imagino, pô. Ela fala de você quase todos os dias.
Minha mãe lançou um olhar divertido para ele.
— Não exagera, Morte.
— Estou mentindo?
— Um pouquinho.
Os dois começaram a brincar um com o outro, e eu os observei com um sorriso sincero. Era bom ver minha mãe feliz, leve e apaixonada. Depois de tudo o que ela havia enfrentado, merecia aquela tranquilidade.
Durante o caminho, Morte contou algumas histórias engraçadas, e minha mãe completou outras tantas, fazendo comentários que me arrancaram gargalhadas.
Por alguns minutos, esqueci completamente quem me esperava naquela casa.
Até o carro começar a subir.
O caminho era familiar, mas, ao mesmo tempo, parecia diferente. Algumas construções haviam mudado, outras continuavam exatamente como eu me lembrava. As pessoas conversavam nas portas, crianças brincavam e comerciantes organizavam suas mercadorias.
Tudo parecia igual.
E, ainda assim, eu não era mais a mesma.
A menina que partira anos antes carregava um coração partido e a esperança infantil de que um dia seria amada pelo garoto dos seus sonhos.
A mulher que voltava tinha aprendido a cuidar de si mesma.
Pelo menos, era o que eu repetia mentalmente.
Quando entramos na parte mais movimentada do morro, percebi os olhares curiosos acompanhando o carro. Alguns rostos me pareciam familiares. Outros eram completamente desconhecidos.
Talvez estivessem tentando descobrir quem era a mulher que voltava para a casa do Morte.
Ou talvez minha mãe já tivesse anunciado minha chegada para metade do lugar.
Conhecendo-a, aquela segunda opção era bastante provável.
— Está nervosa? — ela perguntou, percebendo meu silêncio.
— Eu? Claro que não.
— Morena.
— Mãe.
— Você está apertando a alça da bolsa desde que entramos aqui.
Olhei para minha mão e soltei a bolsa imediatamente.
— Mania.
Morte soltou uma risadinha pelo retrovisor, mas teve a inteligência de não comentar.
Eu estava nervosa, sim. Não por causa do lugar, nem pelos olhares curiosos. Era por saber que, a qualquer momento, poderia encontrar KS.
E eu não fazia ideia de como reagiria.
Talvez ignorasse aquele convencido.
Talvez sorrisse e mostrasse que estava muito bem sem ele.
Ou talvez sentisse alguma coisa que preferia manter enterrada.
Mas uma coisa era certa: eu não voltaria a ser aquela garota de quinze anos.
Se KS acreditava que encontraria a mesma menina de antes, teria uma surpresa.
Uma enorme surpresa.
O carro finalmente parou diante da casa, e Morte desligou o motor.
Minha mãe saiu primeiro, animada para me mostrar tudo. Eu desci logo depois, ajeitei os cabelos e respirei fundo.
Estava oficialmente de volta.
O passado que eu tanto tentara esquecer agora estava a poucos metros de distância.
E, embora eu ainda não soubesse o que o futuro me reservava, tinha uma certeza: minha volta não seria tão tranquila quanto eu imaginava.
Porque o mundão gira.
E, às vezes, ele faz questão de colocar bem na nossa frente justamente aquilo que juramos nunca mais querer.
No meu caso, esse alguém tinha nome, sobrenome e um ego gigantesco.
KS, meu antigo melhor amigo.
O garoto que não me quis.
O homem que agora comandava tudo.
E o último sujeito que eu gostaria de encontrar logo na minha chegada.
Que ele se preparasse.
Porque Morena estava de volta.
E dessa vez, quem não perderia a cabeça por amor seria eu.
