Capítulo 2 Quem perdeu fui eu ?
KS narrando
— Mano, do céu! Tu não vai acreditar em quem voltou para o morro. E tem mais: a mina vai morar na tua casa!
Olhei para o Vaguinho, que entrou na sala falando tão alto que parecia ter acabado de ganhar na loteria.
— Que afobação é essa, cara? Quem vai morar na minha casa que eu não estou sabendo?
O infeliz começou a rir.
E eu já estava perdendo a paciência.
— Fala logo, desgraça! Não tenho o dia inteiro para ficar ouvindo tua risada.
— Calma, patrão! Lembra da Morena? A filha da tua madrasta? Aquela que vivia grudada contigo e que tu dispensou quando ela se declarou?
Meu corpo ficou imóvel por um instante.
Morena.
Fazia anos que eu não ouvia aquele nome em uma conversa. Na verdade, fazia anos que eu não pensava nela por mais de alguns segundos.
Pelo menos era isso que eu dizia a mim mesmo.
— Lembro. E daí?
— A garota sumiu durante anos e agora voltou. Vai morar na tua casa com a mãe dela e com o teu pai.
Passei a mão pelo rosto, tentando entender aquela informação.
— Está falando sério?
— Claro, pô! E vou te dizer uma coisa: a menina está bonita demais. Tu precisa ver!
Soltei uma risada debochada.
— Deve continuar magrela, igual era naquela época. Não mudou grande coisa.
— Ah, não mudou? Irmão, tu está completamente por fora! A mulher está toda definida, bonita pra caramba. Se eu fosse tu, ficava preparado.
Revirei os olhos.
— Tu fala de mulher como se nunca tivesse visto uma na vida.
— E tu fala assim porque ainda não viu a Morena de hoje.
Vaguinho pegou as chaves do carro e apontou para a porta.
— Bora para tua casa. Teu pai está fazendo churrasco, e eu quero apreciar de perto essa belezura.
Levantei do sofá e dei um empurrão no ombro dele.
— Tu é muito sem vergonha, cara.
— Sou mesmo. E daí?
Balancei a cabeça, rindo contra a minha vontade.
— Bora, seu idiota.
Saímos e seguimos para minha casa. O som já estava tocando alto quando chegamos, e o cheiro do churrasco se espalhava pelo quintal.
Meu pai gostava de reunir os amigos, colocar música e transformar qualquer ocasião em uma festa. Desde que se casara novamente, minha casa estava sempre movimentada.
Só que eu não fazia ideia de que aquela tarde reservaria uma surpresa capaz de bagunçar minha cabeça.
Assim que entrei na área da piscina, ouvi Vaguinho assobiar baixinho.
— Olha lá, irmão!
Segui a direção do olhar dele.
E foi naquele instante que esqueci completamente o que pretendia dizer.
Caramba!
A mulher que estava perto da piscina não tinha absolutamente nada a ver com a menina que eu lembrava.
Morena estava de costas, conversando com a mãe. Os cabelos caíam sobre os ombros, e ela vestia uma roupa que valorizava sua silhueta. Quando se virou para pegar um copo sobre a mesa, reconheci o rosto.
Era ela.
A mesma Morena que corria atrás de mim quando éramos crianças. A garota que passava horas conversando comigo, que conhecia meus segredos e que, durante muito tempo, eu considerara minha melhor amiga.
Só que aquela mulher diante de mim parecia pertencer a outro mundo.
Não era apenas a aparência. Havia alguma coisa diferente no jeito como se movimentava, na postura, na segurança com que conversava e na maneira como sorria sem procurar a aprovação de ninguém.
Ela havia crescido.
E eu, aparentemente, tinha sido o último a perceber.
— E aí, KS? — Vaguinho murmurou ao meu lado. — Ainda acha que ela continua magrela?
Dei uma cotovelada nele.
— Cala a boca.
— Ficou até sem palavras!
— Quer perder os dentes?
O desgraçado começou a rir.
Eu deveria ter ignorado a provocação, mas meus olhos insistiam em procurar Morena. Quando finalmente percebi que estava encarando demais, desviei o olhar e fui cumprimentar meu pai.
— E aí, coroa!
Ele me abraçou, satisfeito.
— Até que enfim apareceu, rapaz! Pensei que fosse passar o dia inteiro trancado naquele escritório.
— Tinha umas coisas para resolver.
— Agora está resolvido. Vai aproveitar o churrasco e cumprimentar sua família.
Minha família.
A frase fez meus olhos voltarem automaticamente para a piscina.
Morena estava rindo de alguma coisa que a mãe havia dito.
E eu precisava admitir: o sorriso dela continuava sendo o mesmo.
A diferença era que, antigamente, aquele sorriso quase sempre aparecia quando ela estava comigo.
Hoje, eu não tinha a menor ideia do que se passava naquela cabeça.
Respirei fundo e caminhei na direção dela.
Se havia uma coisa que eu não suportava era me sentir deslocado dentro da minha própria casa. E não seria a volta de uma antiga amiga que mudaria isso.
Pelo menos era o que eu tentava convencer a mim mesmo.
Parei a poucos passos dela.
— E aí, Morena! Resolveu voltar para a quebrada?
Ela virou o rosto devagar.
Seus olhos encontraram os meus, e, por uma fração de segundo, enxerguei a menina que eu conhecera. Mas aquela impressão desapareceu tão rápido quanto surgiu.
Morena ergueu uma sobrancelha e me lançou um sorriso debochado.
— Pois é, KS. A boa filha à casa torna.
A resposta veio tão tranquila que fiquei sem saber se ela estava apenas brincando ou se havia uma provocação escondida naquelas palavras.
— E aí, o que fez da vida durante esse tempo todo?
Ela tomou um gole da bebida antes de responder.
— Muitas coisas.
Esperei que continuasse.
Ela não continuou.
Olhei para Vaguinho, que estava se divertindo com a situação, e depois voltei minha atenção para ela.
— Só isso?
— Você fez uma pergunta, eu respondi. Quer que eu escreva um relatório?
Vaguinho soltou uma gargalhada atrás de mim.
Olhei para ele com vontade de mandá-lo embora, mas Morena parecia estar se divertindo com a situação.
Aquela mulher tinha coragem.
Ou estava fazendo questão de me tirar do sério.
Talvez as duas coisas.
— Está cheia de graça, hein? — comentei.
— Aprendi algumas coisas enquanto estive fora.
— Percebi.
Deixei meus olhos percorrerem rapidamente sua aparência antes de fazer a primeira besteira que me veio à cabeça.
— Está bonita, hein? Toda arrumadinha. Nem parece aquela magrela que vivia andando comigo.
O sorriso dela mudou.
Não desapareceu, mas ganhou um ar de desafio que me fez desconfiar de que eu acabara de pisar em terreno perigoso.
— Eu sei que estou bonita. Meu namorado me diz isso todos os dias.
Namorado?
A palavra bateu em meus ouvidos como uma notícia que eu não havia solicitado.
— Namorado? — perguntei antes de conseguir me controlar.
Morena inclinou a cabeça.
— Sim. Algum problema?
— Nenhum.
— Ótimo.
Ela sorriu, colocou o copo sobre a mesa e passou por mim como se aquela conversa não tivesse significado absolutamente nada.
Antes de se afastar, ainda acrescentou:
— Com licença, KS. Preciso encontrar minha mãe.
E foi embora.
Simples assim.
Fiquei parado, olhando para o lugar onde ela estivera, enquanto Vaguinho se dobrava de tanto rir.
— Não acredito nisso! — ele exclamou. — A mulher te deixou falando sozinho dentro da tua própria casa!
— Tu não tem nada melhor para fazer, não?
— Tenho, mas isso aqui está muito mais interessante.
Apontei um dedo para ele.
— Se continuar, vai embora sem comer.
— Está nervoso por quê, irmão? Foi só uma conversa.
— Não estou nervoso.
— Claro que não. E eu sou o presidente da República.
Peguei uma garrafa de água sobre a mesa e bebi alguns goles, tentando recuperar a tranquilidade.
Não estava nervoso.
Não tinha motivo para isso.
Morena era uma antiga amiga. Uma garota que havia se declarado para mim anos atrás e que, depois de ouvir minha resposta, decidira ir embora.
Eu não lhe prometera amor. Não a enganara. Não fizera nada além de ser sincero sobre meus sentimentos naquela época.
Então por que a ideia de ela ter um namorado me incomodava tanto?
Não fazia sentido.
Absolutamente nenhum.
Enquanto meu amigo continuava fazendo piadas, minhas lembranças me levaram de volta ao passado.
Eu e Morena crescemos juntos. Ela aparecia na minha casa praticamente todos os dias, reclamava quando eu demorava a responder às suas perguntas e ficava emburrada quando eu preferia sair com os meus amigos.
Eu achava graça.
Para mim, ela era como uma irmã mais nova, alguém que eu queria proteger e manter por perto.
Até o dia em que tudo mudou.
Lembro de quando ela apareceu diante de mim, nervosa, mexendo nas mãos e evitando olhar diretamente para o meu rosto.
Eu perguntei o que havia acontecido.
Ela respirou fundo e disse que gostava de mim.
Não como amigo.
Não como alguém da família.
Ela estava apaixonada.
Na época, eu tinha dezessete anos e acreditava que estava fazendo a coisa certa ao dizer que não sentia o mesmo. Não queria alimentar esperanças, muito menos fingir um sentimento que não existia.
Então fui sincero.
Disse que a considerava uma irmã e que não conseguiria enxergá-la de outra maneira.
Morena ficou em silêncio.
Depois, foi embora.
Nos dias seguintes, tentei conversar com ela, mas começou a se afastar. Quando soube que iria morar com o pai em São Paulo, senti uma tristeza estranha, embora não tivesse compreendido o motivo.
Eu me acostumara tanto com a presença dela que não percebi o espaço que deixaria quando partisse.
Nos primeiros meses, ainda pensei em procurá-la. Depois, a vida seguiu seu curso. Minhas responsabilidades aumentaram, meu pai começou a me preparar para assumir o comando e eu precisei aprender a tomar decisões que nem sempre agradavam a todos.
O tempo passou.
E Morena se tornou uma lembrança distante.
Ou assim eu acreditava.
Porque, naquele momento, vê-la novamente fez alguma coisa se movimentar dentro de mim.
Talvez fosse apenas surpresa.
Talvez curiosidade.
Ou talvez meu orgulho estivesse incomodado porque a garota que costumava me olhar como se eu fosse o centro do universo agora me tratava como qualquer outro homem.
E eu não estava acostumado a isso.
Muito menos dentro da minha própria casa.
— Irmão, vou te fazer uma pergunta — Vaguinho disse, interrompendo meus pensamentos.
— Lá vem.
— Tu nunca sentiu nada por ela?
Olhei para ele imediatamente.
— Que pergunta é essa?
— Uma pergunta normal. Vocês eram grudados. Ela gostava de ti. Tu dispensou a menina e depois ficou estranho quando ela foi embora.
— Eu nunca fiquei estranho.
— Ficou, sim.
— Tu estava comigo por acaso?
— Estava. E lembro muito bem de tu perguntando por ela durante semanas.
Fiquei em silêncio.
Aquela conversa estava tomando um rumo que eu não queria.
— Eu sentia falta da minha amiga. Só isso.
Vaguinho ergueu as mãos, fingindo rendição.
— Está bom, patrão. Não precisa se explicar.
— Ótimo.
— Só acho engraçado que tu tenha passado anos dizendo que ela era uma irmãzinha e agora não consegue parar de olhar para ela.
Apertei a mandíbula.
— Vai procurar o que fazer, Vaguinho.
Ele saiu rindo, satisfeito por ter conseguido me irritar.
Fiquei sozinho perto da mesa, observando o movimento ao redor da piscina.
Morena conversava com algumas pessoas e parecia perfeitamente à vontade. De vez em quando, sorria para o celular, provavelmente trocando mensagens com o tal namorado.
Aquilo me incomodou outra vez.
Desviei o olhar imediatamente.
Não tinha o direito de me incomodar. Ela estava solteira quando partira, era livre para viver a própria vida e não me devia explicação alguma.
Eu não a quisera.
Agora precisava aceitar que outra pessoa poderia ocupar o lugar que, durante tantos anos, eu nem sequer imaginara desejar.
Mas havia uma coisa que eu ainda não conseguia entender.
Se Morena realmente havia superado o passado, por que eu sentia tanta vontade de descobrir quem ela se tornara?
E, principalmente, por que aquela história de namorado estava me tirando do sério?
Soltei o ar lentamente e peguei outra garrafa de água.
Era melhor esquecer aquilo.
Morena estava de volta, minha família estava feliz e eu tinha responsabilidades demais para me preocupar com a vida amorosa de uma mulher adulta.
Ainda assim, quando ela passou novamente pelo quintal, acompanhada da mãe, meus olhos a seguiram sem que eu pudesse evitar.
Ela percebeu.
Olhou diretamente para mim e sorriu.
Um sorriso pequeno, provocador, como se soubesse exatamente o efeito que estava causando.
Depois, virou o rosto e continuou andando.
Foi nesse instante que compreendi uma coisa.
A menina que eu conhecera havia ficado no passado.
A mulher que voltara não parecia interessada em conquistar minha atenção, muito menos em recuperar o que havíamos perdido.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia como agir diante de alguém.
Talvez fosse apenas uma questão de tempo até me acostumar com a presença dela.
Ou talvez o problema fosse justamente esse.
Eu estava acostumado a ter o controle de tudo.
Mas Morena acabara de chegar e, sem fazer absolutamente nada além de sorrir e mencionar o namorado, já havia conseguido bagunçar meus pensamentos.
E isso era algo que eu não pretendia admitir para ninguém.
Muito menos para ela.
