Capítulo 3 Visita inesperada

KS narrando

Fiquei observando Morena se afastar para cumprimentar algumas pessoas que conhecia. Pelo jeito, mesmo depois de tantos anos fora, ela ainda tinha bastante gente com quem conversar.

A festa continuava animada, o som estava alto e meu pai parecia mais feliz do que nunca com aquela reunião de família.

Até que olhei novamente para a piscina e encontrei Morena dançando com algumas amigas.

Caramba!

A menina que costumava andar atrás de mim para todo lado havia se transformado em uma mulher cheia de atitude. Dançava, ria e conversava sem demonstrar a menor preocupação com quem estava olhando.

— É, mano... — Vaguinho comentou ao meu lado. — A Morena não é mais aquela guria que vivia atrás de ti para cima e para baixo.

— Já percebi, cara.

— E vou te falar: ela está bonita demais!

Dei uma risada curta.

— Tu não consegue ficar cinco minutos sem comentar a aparência de uma mulher?

— Consigo. Só não estou vendo motivo para fazer isso agora.

Balancei a cabeça, ignorando a provocação.

Vaguinho era o tipo de sujeito que não perdia uma oportunidade de me tirar do sério. E, naquele dia, parecia ter encontrado sua diversão favorita.

Antes que eu pudesse responder, um carro parou diante da casa.

Não dei muita atenção até perceber Morena interrompendo a conversa com as amigas e caminhando apressadamente em direção à entrada.

— Ih, olha lá! — Vaguinho chamou minha atenção. — Aposto que é o namorado.

Cruzei os braços.

— E eu com isso?

— Nada, patrão. Só estou comentando.

Um rapaz desceu do carro. Era bem-arrumado, tinha um jeito tranquilo e carregava uma pequena bolsa de viagem.

Assim que o viu, Morena abriu um sorriso enorme.

Ela praticamente correu até ele e pulou em seus braços, envolvendo-lhe o pescoço. O rapaz a segurou pela cintura, girou com ela e a beijou sem se importar com os olhares curiosos ao redor.

Os dois pareciam estar comemorando um reencontro depois de muito tempo separados.

— Esse deve ser o famoso Lucas — Vaguinho comentou.

— Deve.

— Parece ser um cara tranquilo.

— Tu conhece o sujeito por acaso?

— Não. Mas também não preciso conhecer alguém para perceber quando está feliz.

Olhei para ele de lado.

— Desde quando tu virou especialista em relacionamentos?

— Desde que comecei a observar o teu, que não existe.

Dei um empurrão no ombro dele.

— Vai procurar o que fazer, Vaguinho.

Meu amigo caiu na gargalhada.

Enquanto isso, Morena continuava abraçada ao namorado. Os dois conversavam, trocavam beijos e riam como se estivessem sozinhos.

Não havia nada de errado naquilo. Era a vida dela, e eu não tinha qualquer direito de interferir.

Mesmo assim, a demonstração de carinho acabou chamando minha atenção por mais tempo do que deveria.

Não pela presença do rapaz em si, mas porque Morena parecia ter encontrado alguém com quem se sentia completamente à vontade.

E eu não fazia ideia de quem ela havia se tornado durante todos aqueles anos.

— Vou pegar uma bebida — anunciei, levantando-me.

— Vai fugir da concorrência? — Vaguinho perguntou.

— Vou fugir de ti, que está insuportável hoje.

Saí antes que ele inventasse outra provocação.

Algum tempo depois, vi Morena entrar em casa. Aproveitei para ir até a cozinha pegar água e a encontrei perto da bancada, mexendo no celular.

Ela percebeu minha presença, mas continuou digitando.

— Preciso falar contigo — anunciei.

Morena levantou os olhos.

— Pois fale.

— Quem é aquele cara?

Ela guardou o celular e cruzou os braços.

— Meu namorado. Você já sabe disso.

— Qual é o nome dele?

— Lucas. E, se continuar fazendo perguntas, daqui a pouco vou achar que você está preenchendo uma ficha cadastral.

Revirei os olhos.

— Não precisa ser debochada.

— E você não precisa agir como se eu tivesse que prestar contas da minha vida.

A resposta veio rápida e direta.

Fiquei alguns segundos em silêncio antes de continuar.

— Só quero saber quem vai ficar hospedado aqui em casa.

— Ah, agora chegamos ao ponto! — Ela sorriu. — Lucas vai passar alguns dias conosco.

— Aqui?

— Não, KS. Na casa do vizinho. Claro que é aqui!

Respirei fundo.

Morena estava se divertindo com aquilo, e eu começava a perceber que discutir com ela era uma péssima ideia.

— E ele vai dormir onde?

— No meu quarto.

Olhei para ela, surpreso.

— Como assim, no teu quarto?

— Exatamente como você ouviu. Nós namoramos, somos adultos e minha mãe está de acordo com a nossa estadia.

— Vocês vão dormir juntos?

Morena ergueu uma sobrancelha.

— Sim. E, antes que pergunte mais alguma coisa, a resposta para a próxima pergunta também é sim: somos um casal e temos intimidade. Não preciso explicar isso para você.

Abri a boca, mas não encontrei uma resposta que não me fizesse parecer ainda mais inconveniente.

Ela pegou o celular novamente.

— Se não tiver mais nada para perguntar, vou voltar para a festa. Meu namorado acabou de chegar e quero aproveitar o tempo com ele.

— Morena...

Ela parou junto à porta e olhou para trás.

— O quê?

Eu poderia ter dito que não conhecia Lucas o suficiente para confiar nele dentro da minha casa. Poderia ter mencionado a necessidade de estabelecer algumas regras para os hóspedes.

Mas, sinceramente, nada disso explicava por que eu estava fazendo tantas perguntas.

— Nada. Pode ir.

— Ótimo.

Ela saiu, deixando-me sozinho na cozinha.

Fiquei olhando para a porta por alguns instantes e depois soltei uma risada sem humor.

Aquela mulher tinha uma resposta para tudo.

E o pior era que eu não conseguia encontrar um argumento que a fizesse recuar.

Quando voltei à área da piscina, encontrei Morena sentada à mesa com Lucas, minha mãe e meu pai.

Os quatro conversavam animadamente. Lucas parecia bastante à vontade, contando alguma história que fazia meu pai rir enquanto minha madrasta acompanhava tudo com interesse.

Aproximei-me e puxei uma cadeira.

— Chegou, filhote? — meu pai perguntou. — Vem cá, quero te apresentar oficialmente ao namorado da Morena.

Olhei para o rapaz.

— Já sei quem ele é, coroa.

— Então faça as apresentações direito — meu pai respondeu, divertido.

Lucas se levantou e estendeu a mão.

— Lucas. Prazer em conhecer você.

Apertei sua mão.

— KS.

— Já ouvi bastante sobre você.

Olhei para Morena, que bebia um suco com a maior tranquilidade do mundo.

— Espero que tenham contado apenas as coisas boas.

Ela soltou uma risadinha.

— Não prometo nada.

Lucas sorriu, sem parecer incomodado.

— Ela me contou que vocês cresceram juntos. Disse que você era o melhor amigo dela.

A informação me fez olhar novamente para Morena.

Ela não demonstrou qualquer constrangimento. Pelo contrário, parecia achar aquela conversa perfeitamente normal.

— Éramos muito próximos — respondi.

— Ela tem boas lembranças dessa época — Lucas acrescentou.

Morena finalmente levantou os olhos do copo.

— Algumas boas. Outras nem tanto.

A frase foi acompanhada por um sorriso discreto, mas não consegui identificar se havia uma provocação escondida ali.

Meu pai, felizmente, mudou de assunto antes que a conversa tomasse outro rumo.

Lucas trabalhava com administração e participava dos negócios da família. Logo, os dois começaram a conversar sobre empresas, investimentos e planos de expansão.

Para minha surpresa, meu pai parecia bastante interessado no que ele tinha a dizer.

— Rapaz, você entende mesmo desse assunto — comentou o coroa. — Depois quero conversar contigo com mais calma.

— Será um prazer. Tenho algumas ideias que talvez interessem ao senhor.

Morena observava os dois com orgulho.

Era evidente que gostava do namorado e admirava o que ele fazia. Lucas, por sua vez, parecia respeitá-la e incluí-la naturalmente nas conversas.

Não havia arrogância nem necessidade de chamar a atenção. Ele simplesmente se comportava como alguém acostumado a conversar com pessoas diferentes.

Eu ainda não o conhecia o suficiente para formar uma opinião definitiva, mas, pelo menos naquele primeiro contato, não tinha encontrado motivo concreto para implicar com ele.

O problema era que Vaguinho continuava sentado perto de mim, atento a cada detalhe.

— Gostou do rapaz? — perguntou baixinho.

— Acabei de conhecer o cara.

— Não foi isso que perguntei.

Lancei-lhe um olhar de advertência.

— Começou de novo?

Ele levantou as mãos, segurando o riso.

— Está bem, está bem.

Voltei minha atenção para a mesa.

Meu pai anunciou que Lucas seria bem-vindo para ficar alguns dias conosco, e minha madrasta concordou imediatamente.

— A casa é grande, e espaço não falta — ela disse. — Quero que vocês fiquem à vontade.

— Muito obrigado — Lucas respondeu. — Não quero atrapalhar a rotina de ninguém.

— Não vai atrapalhar coisa nenhuma — meu pai garantiu.

Morena segurou a mão do namorado por baixo da mesa e lhe deu um sorriso carinhoso.

Pouco depois, os dois se levantaram para buscar mais bebidas.

Acompanhei-os com o olhar por alguns segundos, até meu pai chamar minha atenção.

— E você, KS? Está tão calado hoje. Aconteceu alguma coisa?

— Nada, coroa. Só estou cansado.

Ele me observou como se não acreditasse inteiramente na resposta, mas não insistiu.

A conversa seguiu, e a música voltou a dominar o ambiente.

Eu deveria ter relaxado e aproveitado a festa.

Em vez disso, fiquei pensando no quanto minha casa havia mudado em poucas horas. Morena estava de volta, Lucas agora fazia parte da reunião de família e meu pai já parecia disposto a recebê-lo como um velho conhecido.

Aquilo exigiria alguma adaptação, principalmente porque eu estava acostumado a ter minha rotina organizada de um jeito específico.

Mas eu sobreviveria.

Afinal, eram apenas alguns dias.

Pelo menos era o que eu imaginava.

Porque, naquela mesma noite, uma conversa inesperada com meu pai me faria perceber que a presença de Lucas talvez tivesse consequências muito maiores do que uma simples visita.

E, dessa vez, o problema não teria nada a ver com a piscina, com a festa ou com as brincadeiras de Vaguinho.

Teria a ver com negócios.

E com uma proposta que ninguém naquela mesa parecia esperar.

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