Capítulo 4 Interrupções inconvenientes

Morena narrando

De uma coisa eu tinha certeza: KS ainda ia conhecer uma versão minha que jamais imaginou existir.

O homem estava muito enganado se pensava que eu voltaria para o morro e, na primeira oportunidade, cairia nos braços dele. Só porque havíamos sido amigos e eu já tinha me apaixonado por ele no passado, não significava que continuaria esperando por uma chance.

Aquela Morena tinha ficado para trás.

Eu gostava muito do Lucas. Ele era meu namorado, meu amigo, meu parceiro e alguém com quem eu conseguia ser eu mesma, sem precisar fingir ou implorar por atenção.

Não trocaria o certo pelo duvidoso.

Além disso, Lucas voltaria para São Paulo no dia seguinte, pois precisava trabalhar na segunda-feira. Eu não sabia quando teríamos outra oportunidade de ficar juntos por tanto tempo, então pretendia aproveitar cada minuto daquela noite.

E ninguém, muito menos KS, estragaria meus planos.

— Por que está me olhando desse jeito? — perguntei a Lucas, assim que percebi que ele me observava havia alguns minutos.

Ele sorriu e passou o braço pela minha cintura.

— Porque estou olhando para a mulher da minha vida.

Meu coração derreteu na mesma hora.

— Ah, Lucas...

— O que foi, meu amor? Não posso admirar minha namorada?

— Pode, mas desse jeito você me deixa sem graça.

— Você? Sem graça? Essa eu quero ver!

Dei um tapinha no braço dele, e nós dois começamos a rir.

Lucas tinha esse poder sobre mim. Conseguia transformar momentos simples em lembranças especiais, e era justamente isso que eu mais valorizava no nosso relacionamento.

Ele não precisava fazer promessas grandiosas nem tentar provar que era melhor do que qualquer outro homem. Demonstrava o que sentia nas pequenas coisas, na atenção, no cuidado e na maneira como me fazia sentir importante.

— Eu te amo — falei, acariciando seu rosto.

O sorriso dele ficou mais suave.

— Eu também te amo, Morena. Muito.

Então me beijou.

Começou com um beijo delicado, cheio de carinho, mas logo nos esquecemos da conversa e nos concentramos um no outro. Passei os braços ao redor do pescoço dele, aproximando nossos corpos, enquanto Lucas acariciava minhas costas.

A saudade que sentíramos durante os últimos dias parecia diminuir a cada beijo.

Quando nos afastamos por um instante, ele encostou a testa na minha.

— Você não imagina o quanto eu queria ficar mais tempo aqui com você.

— Então fica.

— Se eu pudesse, ficaria. Mas você sabe como está o trabalho.

Fiz um biquinho.

— Sei. Mesmo assim, posso reclamar um pouquinho?

— Pode reclamar o quanto quiser, desde que depois me dê outro beijo.

Sorri e atendi ao pedido.

Lucas me puxou delicadamente para mais perto, e eu me aconcheguei em seus braços. Não tínhamos pressa. Queríamos aproveitar a companhia um do outro, sem pensar no dia seguinte ou na distância que logo voltaria a nos separar.

Aos poucos, os beijos ficaram mais intensos, e eu me vi completamente envolvida naquele momento.

Era tão bom estar com alguém que me desejava e, ao mesmo tempo, me tratava com carinho. Com Lucas, eu não precisava adivinhar o que ele sentia. Ele fazia questão de demonstrar.

— Sou louco por você, Morena — murmurou junto ao meu ouvido.

Sorri, puxando-o para mais um beijo.

— E eu sou louca por você.

Ele me beijou novamente, e acabei esquecendo completamente o horário, a festa e qualquer outra preocupação.

Até que alguém começou a bater insistentemente na porta.

Fechei os olhos.

Não.

Não era possível.

Quem quer que fosse, tinha escolhido o pior momento do mundo para aparecer.

As batidas continuaram.

— Não acredito nisso! — resmunguei, afastando-me de Lucas.

Ele soltou uma risada, tentando esconder a própria frustração.

— Deve ser alguma coisa importante.

Olhei para ele com uma expressão indignada.

— Se não for, eu juro que...

— Vai lá, meu amor. Depois você volta.

Peguei a blusa que estava sobre a cama, vesti-a rapidamente e caminhei até a porta. Quando abri, encontrei justamente a última pessoa que gostaria de ver naquele momento.

KS.

Claro.

Porque o universo, aparentemente, havia decidido testar minha paciência desde a minha chegada.

— O que você quer, KS?

Ele me olhou por um instante antes de responder.

— O jantar está pronto. Sua mãe está chamando vocês.

Respirei fundo.

— Está bem. Já vou.

KS continuou parado, com uma expressão que não consegui interpretar completamente. Então seus olhos se desviaram por um segundo para o interior do quarto.

Foi o suficiente para entender que ele sabia que havia interrompido alguma coisa.

Um sorriso provocador apareceu no meu rosto.

— Mais alguma coisa?

Ele apertou a mandíbula.

— Desculpa aí por atrapalhar vocês.

Cruzei os braços.

— Eu não estava fazendo nada de errado, caso seja essa a sua preocupação.

— Não disse que estava.

— Ótimo.

Ele começou a se afastar, mas resolvi aproveitar a oportunidade.

— E, só para esclarecer, eu não preciso que você fique preocupado com a minha vida amorosa. Eu e Lucas estamos muito bem.

KS parou e me lançou um olhar atravessado.

— Não estou preocupado com isso.

— Então estamos entendidos.

Ele soltou um suspiro impaciente.

— Desce logo antes que o jantar esfrie.

— Pode deixar, querido.

Fechei a porta antes que ele encontrasse outra coisa para dizer.

Quando voltei para perto de Lucas, encontrei-o sentado na cama, tentando não rir.

— O que foi? — perguntei.

— Nada.

— Lucas!

Ele não aguentou e caiu na gargalhada.

— A cara daquele sujeito quando você respondeu! Meu Deus, Morena, você não tem jeito!

Peguei uma almofada e joguei nele.

— A culpa é toda dele. Quem manda aparecer na porta dos outros sem avisar?

— Tecnicamente, ele veio chamar você para jantar.

— Não estrague minha indignação com detalhes desnecessários.

Lucas me puxou para perto e beijou minha testa.

— Está bem, mandona.

Sorri, abraçando-o.

Ainda teríamos algum tempo juntos depois do jantar, e eu pretendia aproveitar cada minuto.

Quanto a KS, poderia ficar com sua cara fechada à vontade.

Eu tinha coisas muito melhores para fazer do que me preocupar com o humor dele.

Depois de me trocar rapidamente, desci com Lucas para a área de jantar.

Minha mãe já estava sentada à mesa, conversando animadamente com meu padrasto. Morte contava uma história sobre um conhecido, e os dois pareciam se divertir bastante.

KS estava sentado do outro lado.

Assim que entrei, ele levantou os olhos.

Percebi imediatamente que sua expressão não era das melhores, mas decidi não dar importância.

Puxei uma cadeira e me sentei ao lado de Lucas, ficando exatamente de frente para KS.

Ah, destino, você realmente sabe fazer as coisas!

Lucas cumprimentou os demais e começou a conversar com meu padrasto sobre o churrasco. Minha mãe perguntou como havíamos passado a tarde, e respondi que estava tudo ótimo.

Tudo ótimo mesmo.

Principalmente antes de alguém resolver interromper nosso momento.

KS continuava calado, mexendo no prato e participando pouco da conversa.

Em determinado momento, nossos olhares se encontraram.

Ele parecia querer dizer alguma coisa, mas eu apenas ergui as sobrancelhas, como quem pergunta se havia algum problema.

KS desviou o olhar.

Segurei o sorriso e voltei minha atenção para Lucas.

— Está tudo bem, meu amor? — ele perguntou baixinho.

— Tudo perfeito.

Ele apertou minha mão por baixo da mesa.

— Que bom.

Sorri para ele e continuei jantando tranquilamente.

Não precisava discutir com KS, provocá-lo ou transformar aquela noite em uma competição. Minha felicidade não dependia da aprovação dele, e eu não tinha qualquer intenção de permitir que velhas lembranças interferissem no presente.

Eu havia voltado para ficar perto da minha mãe, reencontrar pessoas queridas e começar uma nova fase da minha vida.

Se KS não gostasse disso, teria que aprender a conviver com a situação.

Afinal, ele tivera sua oportunidade de me enxergar de outra maneira anos atrás e fizera sua escolha.

Agora, eu também tinha as minhas.

E Lucas era uma delas.

Uma escolha que me fazia bem, me respeitava e me amava sem me deixar na dúvida.

Enquanto meu namorado conversava com Morte, peguei meu celular e encontrei uma mensagem de uma amiga perguntando como estava sendo o meu retorno ao Rio.

Respondi rapidamente:

Está tudo ótimo. Reencontrei minha mãe, conheci algumas novidades e descobri que certas pessoas continuam precisando aprender a cuidar da própria vida.

Guardei o aparelho e voltei a sorrir.

KS ainda poderia fazer muitas perguntas, lançar olhares atravessados ou inventar motivos para implicar comigo.

Mas uma coisa ele precisaria entender.

Eu não era mais a adolescente que confundia amizade com promessa de amor.

E, dessa vez, não seria o comportamento dele que decidiria o rumo da minha vida.

A noite estava apenas começando, Lucas ainda estava comigo e eu pretendia aproveitar cada segundo.

O resto?

O resto era problema de KS.

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