Capítulo 1 Alice

Acordo com um ânimo incrível. Hoje tem uma feira medieval na Quinta da Boa Vista, e há muito tempo não me sinto tão animada com algo. Ouço minha mãe reclamar do outro lado da porta, mas ignoro e vou direto para o banheiro do meu quarto. Depois do banho, escuto uma discussão vindo de fora. Pelo tom, tenho certeza de que são meus irmãos.

Saio do quarto e vou para a cozinha, onde confirmo minhas suspeitas: Maicon e Marcela estão brigando de novo, e desta vez, minha mãe decidiu não intervir. Sento-me à mesa e começo a preparar meu café, enquanto a discussão continua. Provavelmente é por alguma bobagem, como sempre. Enquanto dou uma mordida em uma maçã, ouço a voz da minha mãe vindo do corredor. Agora a briga vai ficar séria ou acabar de vez. Ela entra na sala, diz algo que não entendo, e os dois finalmente param o show. Que pena, estava começando a gostar.

Finjo que não percebi nada e continuo comendo. Sou a mais velha, então já estou acostumada a esses dramas entre os gêmeos. Termino meu café e, nesse momento, minha mãe entra na cozinha.

—Bom dia, querida, acordou cedo hoje. E logo num domingo! Podia ter dormido mais. — Ela comenta.

Nem parece que foi ela que tentou me acordar mais cedo reclamando no meu quarto.

—Bom dia, mãe. Vou sair daqui a pouco, quero aproveitar bem o dia na Quinta. — Respondo enquanto limpo a mesa.

—O que vai ter lá dessa vez? — Ela pergunta.

—Uma feira medieval. — Digo com um sorriso.

—Que legal. Mas como você está hoje, filha? — A preocupação é visível em seus olhos. Ela sabe de tudo o que passei nos últimos anos e como foi difícil superar. Foram muitas lágrimas derramadas no colo dela.

—Estou bem, mãe. — Respondo com o meu melhor sorriso.

—Você parece bem animada hoje. Mas não se esqueça de arrumar seu quarto antes de sair. — Ela acrescenta, saindo da cozinha.

Ela tem razão, estou realmente animada hoje. Parece até que algo de bom vai acontecer. Decido ir direto para o meu quarto arrumá-lo. Não sei como ainda vivo no meio de tanta bagunça; realmente preciso ser mais organizada. Se minha mãe visse isso aqui, teria um ataque.

Deixe-me apresentar: meu nome é Alice Monteiro, tenho 20 anos e moro no Rio de Janeiro, num prédio na Tijuca com meus pais e meus irmãos.

Os últimos anos foram um turbilhão de acontecimentos: término de namoro, escolha da faculdade, vestibular, a morte do vovô, vida além do meu quarto, o nascimento do meu príncipe, uma família se desintegrando... Perder pessoas para a vida é a sacanagem do destino, pior até que perder para a morte. Mas cada passo foi dado no seu tempo, sem pressa. Vovô sempre me dizia que meu forte era ser calma em meio ao furacão, porque, mesmo que o mundo estivesse desabando sobre minha cabeça, eu conseguia lidar com tudo, mesmo que devagar, sem atropelar nada.

Paciência não é meu forte 100% do tempo, mas nos momentos caóticos, é essencial. Só nos piores momentos consigo organizar tudo que preciso. Tia Lana sempre diz que a vida é uma constante mudança, com coisas boas e ruins, e que as cicatrizes que ganhamos são para nos fortalecer para o que virá.

Estou tão distraída com a música que sai pelo meu fone que não ouço minha mãe entrar no quarto. Só percebo quando ela puxa um dos fones.

—Acho que você vai para outro planeta quando põe esses fones. Estou te chamando há um tempão. Que bagunça está esse quarto! — Dona Márcia exclama, olhando ao redor.

—Sabe como sou durante a semana, quase não tenho tempo para arrumar o quarto com a faculdade e o trabalho. — Tento me defender.

—Sei disso, mas não precisa deixar nesta zona. — Ela responde, visivelmente irritada. — Mas não foi só por isso que vim aqui. Queria pedir para você chamar sua prima Luana e o Rodrigo para irem com você. Eles dois precisam conversar, mas estão se evitando. Você é a única que, mesmo sem fazer nada, consegue fazer esses dois se entenderem.

Já sabia que havia algo mais. Mereço ter que ser cupido deles mais uma vez.

—Mãe, já te falei para deixar esses dois se resolverem sozinhos. — Digo.

—Eu deixo, mas eles vivem me ligando para reclamar. E só vão parar quando se resolverem. — Ela insiste.

—Está bem, mãe, vou ligar para eles. — Concordo, resignada.

—Obrigada, meu amor. Você vai me salvar. E arruma esse quarto antes de sair. — Diz, saindo do quarto.

Pego meu celular e mando uma mensagem conjunta para os dois:

"13 horas na minha casa. Vamos em uma feira medieval na Quinta. Não aceito um 'não' como resposta. Sei que vocês não têm nada para fazer hoje. Estou esperando vocês. — Lice."

Mensagem enviada. Espero que eles decidam ir. Afinal, não posso obrigar ninguém a fazer nada. Larguei o celular na escrivaninha e terminei de arrumar o quarto. Depois de finalmente conseguir enxergar o chão, procuro uma roupa para ir à feira. Luana e Rodrigo respondem dizendo que vão. Já sabia que não me diriam,não. Minha mãe também sabia, por isso me pediu para chamá-los.

Pego minha roupa e vou para o banheiro. Privilégio de ser a mais velha e ter um banheiro no quarto, assim não preciso esperar horas quando os gêmeos entram no banho. Termino o banho e volto para o quarto de toalha.

Começo a me vestir: escolhi um macacão curto preto, já que o dia está fresco para muita roupa. Como não sou fã de muita maquiagem, passo apenas rímel, lápis e delineador, e um batom nude para realçar meus olhos claros.

Sento-me na cama e pego minha câmera no criado-mudo. Mando mais uma mensagem para Luana e Rodrigo:

"Estou pronta. Onde estão? — Lice."

Logo recebo uma resposta de Rodrigo:

"Acabei de pegar a Luana. Estamos te esperando na porta do prédio. — Rodrigo."

Levanto-me, pego minha bolsa e coloco a câmera, o celular, as chaves e uma canga (na Quinta não tem muitos lugares para se sentar, a não ser no chão). Perto da porta, calço meu tênis preto. Antes de sair, dou uma última olhada no espelho e gosto do que vejo. Meu celular vibra com uma nova mensagem:

"Estamos aqui embaixo. Desce logo, o clima está estranho. Ela não está falando comigo. — Rodrigo."

Rio ao ler a mensagem e respondo:

"Conversem, uai. Estou descendo. — Lice."

Apago as luzes e fecho a porta do quarto. Sigo pelo corredor e, quando chego perto da porta, vejo que minha mãe está na sala, vendo TV com os gêmeos.

—Mãe, estou indo. Luana e Rodrigo estão lá embaixo. Não sei que horas volto. — Aviso, saindo sem esperar resposta.

Moro no quarto andar e nem morta desço de escadas. No elevador, encontro uma senhora do quinto andar com o neto, que me olha e sorri. Finjo que não percebi. Chegando ao térreo, cumprimentei o porteiro e logo vejo o carro de Rodrigo. Poderíamos muito bem ir andando, já que é pertinho. Se ele veio de carro, é porque pretende sair daqui e ir para outro lugar. Isso significa que não vou precisar me preocupar em fazer os dois reatarem. Ótimo, porque não mexeria uma unha sequer. Entro no carro e Rodrigo já começa com as gracinhas.

—Não pensa em usar nada que não seja preto? — Ele pergunta, rindo.

—Me deixa. Gosto de preto. — Respondo, olhando para a janela enquanto ele dá partida no carro.

Próximo Capítulo