Capítulo 2 2
Um segundo depois, sinto o abraço gelado do rio.
Quando abro a boca para gritar, a água entra de uma vez. As correntes que eu suspeitei lá de cima estão aqui agora, e são reais, e são fortes. Elas agarram meu vestido e me arrastam para baixo.
Não pode ser assim que termina, penso comigo mesma, miserável. Eu devia ter tido uma vida melhor do que a dela.
Chuto as pernas debaixo de mim, mas elas só se enroscam no tecido grosso e impiedoso da minha saia. O vestido está me puxando para baixo. Está me afundando. Que ironia macabra — morta pelo meu próprio vestido de noiva. Que jeito de morrer.
Vejo minha mãe tomando forma no submundo turvo da água, ou talvez seja só meu cérebro sem oxigênio pregando peças em mim. No fim, não importa se é real ou uma alucinação, porque minha reação seria a mesma de qualquer jeito.
Não. Que se foda, não.
Dou um chute para cima com toda a força que tenho e, porra, eu rompo a superfície. Puxo uma única lufada enorme de ar, ofegante. É o ar mais doce que já provei.
Então os dedos gélidos do rio se fecham em volta do meu tornozelo e me puxam de volta para o fundo.
Meu vestido está pesado demais agora que está encharcado, e o rio é fundo demais e rápido demais. Está ficando mais difícil chutar, me mover, lutar.
Acima de tudo, está ficando mais difícil me importar.
Vejo outra miragem tomando forma diante de mim. Agora, tenho certeza de que estou alucinando, porque é um homem bonito demais para ser real. Cabelos escuros flutuam ao redor dos traços marcantes do rosto dele. Ele estende a mão para mim e meus olhos se fecham. A dor aguda ainda está ali, mas não estou mais preocupada. Ele me pegou.
Então estamos subindo juntos a chutes, e há ar outra vez, e estou vomitando água, e meus olhos ardem com lágrimas.
2
KINSLEY
Morrer, até onde sei, é uma bela merda. Não que eu esperasse desaparecer com graça sobre uma cama de rosas ou qualquer coisa tão digna de conto de fadas. Mas não deveria haver pelo menos um pouco mais de dignidade envolvida? Vomitar até as tripas, com terra grudada debaixo das unhas, dificilmente parece o jeito ideal de partir.
“Põe tudo para fora.”
Consigo sentir algo nas minhas costas. Uma mão forte me mantendo erguida enquanto mais água turva do rio jorra para fora de mim. Quando paro de expelir líquido, olho de relance para o lado.
O homem está agachado ao meu lado, com os olhos franzidos num ar sombrio permanente. Há algo no olhar dele que me mantém imóvel, e não é só o azul-cobalto intenso das íris, brilhando como se fossem iluminadas por dentro.
É uma confiança sem vacilo, beirando a arrogância. É um olhar que diz: Fique aí. Eu obedeço sem pensar.
“Você está bem?” ele pergunta com uma voz grave, áspera, rude. É como se ele não falasse há semanas e detestasse o som das próprias palavras.
“O carro...” sussurro, olhando para a ponte lá em cima. Consigo ver os faróis cortando as sombras e, quando o vento sopra, ouço o tilintar e o farfalhar das latas que minha melhor amiga, Emma, amarrou na traseira, bem embaixo da faixa pintada à mão onde se lê Recém-casados.
“O carro está bem. Você, nem tanto.”
“Eu estou bem”, digo, sem fôlego. Mas é força do hábito. Repita uma mentira para si mesma por tempo suficiente e ela começa a parecer verdade. Ou isso, ou você simplesmente fica entorpecida demais para continuar enxergando a diferença.
“Está mesmo?”
“Eu... eu não sei como estou”, gaguejo.
Eu pareço fraca. Pareço exatamente aquilo que jurei que nunca me tornaria: uma vítima.
Os olhos do homem percorrem meu corpo. Ainda não cheguei à parte em que pergunto de onde diabos ele saiu e o que, pelo amor de Deus, está fazendo no meio de um trecho insignificante de mata nos arredores de Hartford, Connecticut. Ele pode ser um assassino cruel com um machado, um alienígena, uma miragem. Talvez os três.
Mas não há nada naqueles olhos azuis além de curiosidade. Só que é um tipo distante de curiosidade. O olhar dele não me deixa desconfortável. Pelo menos não do jeito que eu me senti quando outros homens olhavam para mim. Como se eu fosse um prêmio a ser conquistado. Uma refeição a ser devorada. Como se eu não passasse de um meio para um fim.
“Você precisa respirar”, ele observa de repente.
Ou talvez não seja de repente coisa nenhuma. Mas parece que tudo nas últimas horas vinha acontecendo em uma horrível câmera lenta, e só agora está voltando à velocidade normal. A sensação é como levar um tapa na cara sem aviso.
Eu pisco. “O quê?”
Ele se inclina um pouco mais para perto. Os olhos dele realmente são extraordinários. É um azul tão puro. Nada o turva. Apenas céu aberto, oceano profundo, o coração de uma safira.
“Você precisa respirar”, ele repete.
Há um estalo em sua voz que carrega uma autoridade natural. Mas não é cruel. Embora eu suspeite que bastaria pouco esforço da parte dele para mudar isso.
“Você está em choque. Abra a boca.”
Franzo a testa. “O quê?”
Ele repete de novo. Observo seus lábios se moverem em uma espécie de distanciamento assombrado. Estou flutuando acima de tudo isso, vendo acontecer de longe.
“Abra”, ele diz, erguendo o dedo até meus lábios, “a sua. Boca.”
No instante em que a ponta do dedo dele toca meu lábio inferior, minha boca se abre. Parece que ele lançou um feitiço sobre mim. Não me lembro de ter decidido obedecer. Eu simplesmente obedeço.
“Boa menina. Agora, respire”, ele murmura.
O ar enche meus pulmões. Sinto meu peito se expandir e o mundo entrar junto com ele. Consigo sentir o cheiro amadeirado de terra, almíscar, asfalto e animal.
Ah, doce, doce menino Jesus, eu consigo respirar.
Ele baixa o dedo para o lado do corpo. Sinto uma centelha de decepção pela ausência do toque dele, o que não faz o menor sentido.
“Quem é você?”, pergunto baixinho.
“Acho que a mulher ensanguentada no vestido de noiva encharcado é quem deveria responder essa pergunta primeiro.”
Franzo a testa, me perguntando por um instante insano do que diabos ele está falando. Então abaixo o olhar e vejo as cascatas de seda branca esvoaçante. Agora com uma generosa camada de lama do rio impregnada na barra.
Vidro se estilhaçando.
Fúria selvagem nos olhos dele.
