Capítulo 3 3
A lembrança me ataca do nada. Tento me afastar dela na minha cabeça, mas os olhos furiosos do Tom continuam ficando maiores e maiores, e o som de vidro se estilhaçando vai ficando mais alto e mais alto.
Eu me forço a ficar de pé, determinada a não ficar deitada na terra para sempre. Isso só confirmaria o que suspeito que sempre fui: uma coisa quebrada. Mas, quando tento me levantar, eu tropeço.
— Cuidado.
O homem se move mais rápido do que eu julgava possível, segura meu braço e, assim, eu paro de tropeçar.
Assim, ele está me segurando.
Assim, eu estou condenada.
Ele me puxa para cima. Não existe distância entre nós agora. Nem um palmo de espaço para me deixar confortável. Só existe o meu corpo contra o dele e os olhos dele nos meus.
Quando foi a última vez que um homem me segurou assim? O Tom segurou, quando a gente começou a namorar. Mas o corpo dele era diferente. Meio sem substância, de um jeito estranho. Este homem é feito de músculo. De presença. Ele irradia força.
O jeito como ele me segura também é diferente. O Tom parecia procurar alguma coisa toda vez que tocava em mim. Este homem não pede nada.
Em vez disso, ele está me dando tudo o que eu nunca soube que precisava.
— Eu sou a Kinsley — eu digo.
— O prazer é todo meu, Kinsley.
— Você tem um nome?
— Todo mundo tem um nome.
Eu franzo a testa.
— Isso não é uma resposta.
Ele não sorri. E eu consigo entender por quê. Os traços dele são perfeitamente talhados para a melancolia. O nariz é tão reto que eu tenho vontade de encostar o dedo na ponta e descer pela ponte.
— Você está machucada — ele observa.
Ele levanta a mão de novo. Desta vez, roça o dorso dos dedos na minha bochecha direita. Tudo o que eu sinto é um calorzinho formigante se espalhando pelo meu rosto.
— Alguém te bateu — ele diz de novo, naquela voz que soa como pedra raspando em aço. — Ficou uma marca.
Seja lá qual for o feitiço em que ele tinha me colocado, ele se desfaz com essas palavras. Eu me afasto num sobressalto, e ele baixa as mãos na mesma hora. Como se quisesse provar que só estava me tocando porque eu precisava de apoio, não porque ele realmente quisesse.
Meu coração pula para a garganta. Eu me sinto encurralada e arisca, como se só agora tivesse me ocorrido que nada do que aconteceu hoje parece real e que eu preciso dar o fora daqui o mais rápido possível, pra conseguir acordar desse pesadelo.
— Ninguém me bateu — eu digo automaticamente.
Eu não faço ideia do porquê de estar negando. Mas eu sei que não é pra proteger o Tom. Talvez seja pra me proteger.
As pessoas olhavam pra minha mãe do jeito que este homem está olhando pra mim, e eu sempre detestei aquilo. Eu jurei que seria diferente e, mesmo que o destino tenha me arrastado de volta exatamente para o mesmo lugar onde ela sofreu, eu ainda continuo teimosamente desafiadora. Não eu! Eu estou gritando para o universo. Você não vai fazer comigo o que fez com ela!
— Ninguém me bateu.
— Você já disse isso. — E, assim, o tom dele muda. Fica sombrio, feroz. Se estilhaça em uma dúzia de pedaços diferentes, e cada um desses cacos aponta direto para a velha eu vulnerável.
— E-eu… eu caí — eu gaguejo, estupidamente.
A expressão dele não muda. Eu nem sei por que sinto essa necessidade de explicar qualquer coisa pra esse homem. Ele é um estranho. Um estranho que saiu do meio da mata como se fosse uma aparição de sonho. Mas os olhos dele exigem uma explicação e, que Deus me ajude, eu estou dando.
— Eu estava... descendo a escada — continuo. — Aí eu tropecei. Eu caí.
Eu abaixo o olhar, com o rosto queimando de vergonha, vermelho vivo. Pelo canto do olho, ainda vejo ele me encarando, impassível.
— Enfim — eu acrescento. — Eu tenho que ir.
— Atrasada pra um casamento? — ele pergunta, com a maior cara de pau.
Demora um bom tempo até eu perceber que ele está fazendo uma piada. E então me ocorre — tarde demais, tarde demais — que essa interação toda é estranha num nível indescritível.
— De onde você saiu? Você estava... acampando, sei lá?
Ele balança a cabeça, mas não me dá mais nada além disso.
— Você nunca me disse seu nome — eu lembro.
— Não disse mesmo. — Ele olha na direção da ponte. — Vou dar uma olhada no seu carro. Ver se dá pra consertar.
Ele começa a subir a curva inclinada e pedregosa que leva até a ponte. Eu hesito só um segundo antes de ir atrás. Meu vestido é tão pesado que eu gasto toda a energia só pra continuar andando, e o chão enlameado não ajuda em nada. Quando eu chego no carro, ele já está fechando o capô.
— Dá pra rodar. Sem dano permanente. — Ele escolhe as palavras com cuidado, como se tivesse um estoque limitado e não quisesse gastar tudo de uma vez.
— Então... eu posso entrar e ir?
Ele lança um olhar pra mim.
— Você está pedindo permissão?
Eu solto uma risada amarga.
— Não. É que... às vezes eu acho que minha vida seria mais fácil se alguém simplesmente me dissesse o que fazer e como fazer.
Eu espero que ele me olhe como se eu fosse louca — mais provável que eu esteja com uma concussão, mas louca também serviria como explicação plausível —, só que a expressão dele não muda.
— Isso... isso foi uma coisa estranha de dizer... não foi? — eu murmuro, sem jeito.
— Se é assim que você se sente, não é estranho.
— Ninguém nunca fala o que realmente sente. Não pra um completo estranho.
— Talvez devesse começar.
Eu tento olhar pra ele do jeito que ele olha pra mim. Sem piscar. Sem pedir desculpas. O contato visual fica mais intenso, mas eu ainda me recuso a desviar.
As sirenes fazem isso por mim.
Eu suspiro, assustada, quando o primeiro uivo corta o ar. Viro o olhar pra estrada vazia atrás de nós.
— Ambulância — eu arrisco.
Ele balança a cabeça.
— Não. Polícia.
Ele faz um único aceno, seco, como quem toma uma decisão, e então abre a porta do passageiro e faz um gesto pra eu entrar.
— Hora de ir — ele diz, casualmente.
Eu olho pro banco do passageiro e depois pra ele.
— Você vai dirigir?
— Vou. Você não está em condições de dirigir, e eu não tenho nenhum interesse em dar outro mergulho no próximo rio que a gente encontrar. Mas, se você quiser ficar, fique à vontade.
Tinha muita coisa ali que eu poderia contestar. Muita coisa que eu deveria contestar. Mas eu cometo o erro de encarar aqueles olhos azul-cobalto, e é isso que fecha a questão.
Eu entro no carro, e nós vamos embora.
