Capítulo 4 Coelho na armadilha

Alex:

Estou me sentindo um completo idiota.

A Rachelle estava falando comigo, então, sinceramente, eu nem percebi que alguém tinha se sentado na mesa ao lado da minha.

De tanto tempo que a Rachelle trabalha aqui, eu virei cliente de sempre.

É por três motivos. Eu posso ficar com a Rachelle, evitar a minha casa e os meus pais, e ter um lugar seguro para trabalhar.

Então quase todo dia ela atende mesas, e eu bebo quantidades absurdas de café enquanto escrevo programas.

Como eu disse, eu não sabia que ele estava ali. Aí a Rachelle se virou para sair e, pá, lá estava ele.

Puta merda, ele era de tirar o fôlego.

Ele era enorme, nem cabia direito naquela mesinha menor, de dois lugares, em que estava. Como ele estava sentado, eu não tinha como avaliar exatamente a altura, mas eu tinha certeza de que era altíssimo, só pelo jeito de adulto enfiado numa cadeirinha de criança.

E ele também era parrudo, tipo músculos sobre músculos, parrudo. Eu me peguei pensando se a qualquer momento aquele terno não ia arrebentar nas costuras.

Ele era obviamente um alfa. Quero dizer, a energia de alfa escorria pelos poros daquele cara.

E ele também exalava dinheiro. Não daquele jeito comum — eu sou de classe média e ganho bem, então gosto de gastar como meus pais, que sempre tentaram parecer mais importantes do que realmente eram.

Não. Só o fato de o terno dele ser feito sob medida já gritava: “Eu valho mais do que os carros no estacionamento.”

A próxima coisa que me chamou atenção foi o cabelo dele. Era branco.

E olha que eu estou o mais longe possível de ser ligada em moda e beleza. Para eterno desgosto da minha mãe. Eu uso jeans e camiseta. Só passo maquiagem sob extrema coação, e vestidos são a ruína da minha existência.

Dito isso, não é normal eu reparar no cabelo de alguém — exceto nesse caso.

Cabelo branco. Ele tinha cabelo branco.

Agora deixa eu explicar a minha fixação. Eu sempre tive um cabelo incomum. Ele é ruivo escuro, grosso, bem ondulado e com as pontas num branco sólido. Sinceramente, sempre pareceu que eu tinha um baita cabeleireiro. Se fosse o caso, sem dúvida eu teria me pavoneado com toda a atenção que ele atraía. Mas não era. Era 100% natural. Ainda esquisito, mas natural — pelo menos para mim.

Eu nem sei dizer quantas vezes me encheram o saco por causa do meu cabelo. Primeiro vinha a admiração, depois as perguntas, depois a descrença e, possivelmente, a zombaria.

Tinha: “Ah, oi, eu amei seu cabelo.” “Você pintou sozinha ou mandou fazer?” “Foi caro fazer isso no seu cabelo?” “Por que você fez isso no seu cabelo?” E por aí vai, e por aí vai.

Aí, quando eu digo que não, que é natural, vem a incredulidade, a descrença e, por fim, a zombaria e a crueldade — como se eu não pudesse admitir que meu cabelo não era natural.

Uma puta dor no meu saco.

Então ver esse Alfa gigantesco com o cabelo totalmente branco… dá para entender a minha surpresa.

Depois, como a Rachelle tinha perguntado o pedido dele, eu me obriguei a voltar a atenção para a tela do meu computador.

Eu tinha uma vaga noção de que a Rachelle tinha saído, provavelmente para pegar o que ele tivesse pedido.

De repente, senti olhos em mim e, sem pensar muito, levantei a cabeça para descobrir quem estava encarando.

No instante em que fiz isso, me vi presa nos olhos mais azuis que eu já tinha visto. Não um azul qualquer, mas o que parecia um redemoinho de vários azuis misturados. A borda externa era o tom mais claro, escurecendo aos poucos até um azul profundo que parecia arroxeado. Eram hipnotizantes.

Então reconheci o rosto dele. Meu Deus do céu, ele era lindo. Dá para chamar um alfa de lindo? Foda-se, estou pensando isso comigo mesma, então posso achar ele lindo se eu muito bem quiser.

Sinceramente, eu não tinha certeza de quais adjetivos funcionavam melhor. Gostoso, sarado, másculo, deslumbrante, fazendo minha calcinha pegar fogo. Caramba, havia tantos para escolher. Ele tinha maçãs do rosto esculpidas e um nariz reto, perfeitamente proporcional. Aquela barba por fazer sexy no queixo era meio que uma barba, mas mais como alguém que saiu da cama e não se deu ao trabalho de se barbear. A pele dele tinha aquele tom bronzeado iluminado, beijado pelo sol. O cabelo era comprido, pelo menos passava dos ombros. Ele tinha prendido a parte de cima para trás, e o resto se enrolava em volta do rosto.

Não sei por quanto tempo ficamos nos encarando, mas de repente me lembrei de que eu tinha bons modos e me senti extremamente idiota.

Então, antes que eu pudesse mudar de ideia, perguntei sobre o cabelo dele.

No começo, ele só continuou me encarando, e isso me deixou nervosa.

Quando ele sorriu e respondeu à minha pergunta, não consegui evitar sorrir de volta. Fiquei meio eufórica; o cabelo dele também era natural, então eu não era uma aberração total.

Então Rachelle pousou a xícara de café dele na mesa, e ele desviou o olhar. Ela me perguntou se eu queria café e, quando eu disse que não, foi embora.

Assim que voltei a olhar para a tela do computador, ouvi: "Então, seu nome é Alex?"

Virei de novo para olhá-lo e respondi: "Ah, não exatamente. É que meu nome é comprido e complicado, então eu uso Alex."

Ele assentiu de leve e olhou para a mesa. Então, depois de dar um gole rápido no café, tornou a olhar para mim e perguntou: "Então, qual é?"

Hesitei por um segundo, já que eu geralmente não dizia meu nome completo para as pessoas. Não era como se fosse segredo, porém. Eu só odiava. Então falei: "Alesandrianna."

Ele riu de leve, balançou a cabeça e disse: "Entendo por que você encurta. Isso é um trava-língua. Acho bonito, mas é, realmente é demais."

— É, eu odeio, mas minha mãe é meio pretensiosa, e eu não tive muita voz nisso. — Dei de ombros e voltei a olhar para o computador.

— No que você está trabalhando? — Ele voltou a concentrar a atenção em mim e a olhar para o meu computador.

Eu sabia que ele não conseguia ver a tela porque eu sempre fazia questão de que ninguém conseguisse. Na verdade, eu era bem obcecada com isso.

A maioria das pessoas torcia o nariz para o meu amor por computadores, então eu não costumava falar sobre isso com ninguém além de Dean ou Rachelle.

Com tanto foco na reprodução entre nós, fêmeas, a maioria das pessoas acreditava que era isso que deveria ser o centro das nossas vidas. Não precisávamos de empregos nem de buscar nossa independência. Deveríamos estar totalmente focadas em criar vínculos com alfas e engravidar. Eu odeio isso.

Só hesitei um pouco antes de dizer: "Na verdade, estou escrevendo um programa novo."

Ele pareceu momentaneamente atônito antes de dizer: "Uau, sério? Não conheço muitas, ou na verdade nenhuma, mulheres interessadas nesse tipo de coisa."

Por um segundo, fiquei um pouco incomodada com a resposta dele, mas então ele disse: "Na verdade, eu acho isso incrivelmente fascinante."

Então foi a minha vez de parar por um instante, enquanto eu sentia meu rosto corar levemente antes de sorrir.

"Ok, então você sabe meu nome, e até no que eu estou trabalhando. E você? Qual é o seu nome e o que você faz?", perguntei, torcendo para não soar tão socialmente desajeitada quanto eu me sentia.

Ele riu de leve e disse:

— Meu nome é Xander e sou o CEO da empresa da minha família.

Tenho certeza de que fiquei boquiaberta.

— Certo… então, se você é um CEO, o que está fazendo aqui?

Droga. Isso soou antipático? Espero que não tenha soado antipático. Mas CEOs, principalmente um tão obviamente rico quanto esse, não costumavam passar os dias numa cafeteria de esquina.

— Bom, na verdade eu decidi que precisava de um dia de folga. Deu vontade de andar por aí e acabei vindo parar aqui. Simples assim. — disse ele, com um sorrisinho secreto no rosto.

Foi aí que pensei em olhar a hora e vi que já era quase duas. Suspirei de leve e devo ter ficado meio abatida, porque ele perguntou:

— Por que essa cara? Você pareceu triste de repente. — Havia uma expectativa no olhar dele.

Não sei o que me fez responder, mas me peguei dizendo:

— Eu só me dei conta do horário e vou ter que pegar o ônibus pra casa bem em breve.

Ele inclinou a cabeça para o lado.

— Ir pra casa te deixa triste?

De novo, respondi sem pensar direito:

— Infelizmente, sim. Mas também… meus pais vão dar uma festa hoje à noite. — Eu me ouvi suspirar, pesado.

— Seus pais dão festas com frequência? E qual é o problema com isso? — ele perguntou, bem atrevido.

— Meus pais são muito sociáveis e gostam de dar festas. Eu odeio festas em geral, mas especialmente as dos meus pais, porque geralmente ficam cheias de esnobes pretensiosos. Provavelmente vou passar a noite num vestido que eu odeio, com um sorriso de plástico no rosto.

Ele fez uma pausa de um minuto.

— Como CEO, há festas a que eu sou obrigado a ir com associados de negócios, então eu até entendo um pouco. Será que eu conheço seus pais ou já fui a alguma festa com eles?

— Bom, eu obviamente nunca conheci você antes, então você não foi a nenhuma que eles deram. Quanto a conhecer… não sei. Eles são Richard e Celeste Knight, se isso ajudar. — Dei de ombros.

Ele hesitou um instante antes de dizer:

— Na verdade… sim, eu os conheço de vista. Nós já fomos a várias festas com associados de negócios em comum.

Posso dizer com toda a honestidade que eu não esperava nem um pouco por isso. Pra falar a verdade, não sei se eu gostei. Os associados de negócios dos meus pais tendiam a ser pessoas com quem eu não queria ter nada a ver.

Nesse momento, Rachelle surgiu entre as nossas mesas.

— Você precisa de mais alguma coisa? Quer um refil? — ela perguntou a ele.

A resposta dele foi um simples:

— Não, obrigado.

Ela assentiu e colocou a conta dele sobre a mesa. Então se virou para mim.

— Aqui está a sua conta. Eu te atendo no caixa quando você estiver pronta — disse ela, deslizando uma comanda virada para baixo para a mesa, perto da minha mão.

Eu parei e tentei ler a expressão dela. Ela parecia aborrecida, quase assustada. Então eu soube que tinha algo errado.

Primeiro: ela nunca me trazia conta. De vez em quando, se eu ficava aqui tempo suficiente, eu podia comer um sanduíche ou alguma coisa, mas na maioria das vezes era só café. Eu nunca, nenhuma vez, paguei por uma xícara de café aqui. Nunca. Nas vezes em que eu pagava por comida, mesmo assim ela nunca me trazia a conta. Ela só me cobrava no caixa quando eu saía.

Então ela fazer isso agora era como acenar bandeiras vermelhas enormes na minha cara. Ela estava claramente tentando me dizer alguma coisa. Com muito cuidado, mantive minha expressão sob controle.

— Obrigada, Rachelle. Me dá um minuto e eu já levanto. — Sorri, torcendo para parecer natural.

Quando ela se afastou, virei o papel com o máximo de cuidado. O que li fez meu sangue gelar e, para manter a expressão neutra, precisei puxar todos os anos que eu tinha passado fazendo isso na frente dos meus pais. Meu coração parecia que ia saltar do peito.

Ela tinha escrito: Ele é Xander Vandicoff. Que porra um Vandicoff estava fazendo aqui?

A família Vandicoff era famosa — ou infame, dependendo da sua relação com eles. Eram uma notória família do crime, com as mãos metidas em todo tipo de empreendimento ilegal e escuso que existisse. Eram podres de ricos e se escondiam atrás da fachada corporativa, a Vandicoff Corporation. Havia três irmãos, e todos eram alfas intocáveis. A mãe deles era famosa porque, de algum jeito, tinha conseguido de fato dar à luz quatro filhos, um deles uma menina. Ela era, sem exagero, nível superestrela.

Eu nunca tinha ouvido nada sobre a irmã, mas só de imaginar dava para supor que ela fosse extremamente bem protegida.

Tinha havido uma explosão enorme anos atrás, quando os então líderes da família Vandicoff, Tallon e Andris, tinham sido mortos numa explosão de carro fora do comum. Falou-se muito em espionagem corporativa, assassinato e uma tentativa de golpe. Tudo foi abafado com uma rapidez assustadora, e nenhuma explicação definitiva foi dada.

Eu sempre tive certeza de que quem quer que tivesse feito aquilo, obviamente, tinha sido “resolvido” internamente pelo resto da família. Eles eram intocáveis, então por que não iriam atrás de quem tivesse se mexido contra eles?

Eu sabia que o novo CEO era Xander Vandicoff, mas minha mente não tinha feito a ligação. Eu nunca, em um milhão de anos, imaginaria que ia encontrá-lo num lugar como aquele. Eu não acompanhava a alta sociedade, então nunca tinha visto uma foto dele. Graças a Deus, Rachelle tinha. Mesmo quando ele disse “Xander”, por mais incomum que esse nome seja, minha cabeça não conectou.

Caralho, que merda era essa. Como alguém que trabalhava com segurança de computadores, eu conhecia bem o meio. Eu jamais, em um milhão de anos, trabalharia com eles. Eu era meticulosa com que empresas eu deixava usar o meu software. Então, obviamente, eu tinha uma lista do tipo “só por cima do meu cadáver”. E a família Vandicoff estava no topo dessa lista.

Bem devagar e com todo cuidado, comecei a juntar minhas coisas e guardar o computador, tentando garantir que não parecesse que havia algo errado.

— Vai embora tão cedo? — ele perguntou, e eu encarei seu olhar e tentei oferecer um sorriso normal.

— Sim, preciso pegar o ônibus e chegar em casa a tempo de me arrumar para a festa temida.

Ele estudou meu rosto e lançou um olhar rápido para o papel na minha mão. Então abriu um sorriso.

— Bem, obrigado por conversar comigo. Gostei muito da sua companhia. Talvez a gente se esbarre de novo algum dia. — ele sugeriu.

Tentei não demonstrar o horror que eu estava sentindo e, em vez disso, sorri de leve, dei de ombros e respondi:

— Talvez.

Quando juntei tudo, fui até o caixa, onde Rachelle me encontrou.

Tentando agir de um jeito absurdamente normal, entreguei meu cartão de despesas para ela passar. Ela se atrapalhou tentando fingir que aquilo era normal.

Depois eu saí dali e fui para o ponto. O caminho inteiro torcendo para que aquilo tivesse sido algo isolado e para eu nunca mais ver Xander Vandicoff.

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