Capítulo 4 Nunca negocie com pessoas justas
Cian
Dor. Depois, calor. Terra e luz do sol. Eu pisco. Não é uma alucinação. É real. Tão real. Tão doce, tão macia, tão frágil. Tão minha. Minha. Minha, minha, minha, minha, minha. Como isso está acontecendo? Como, neste lugar, com toda essa tortura e morte, depois de todos esses anos, eu a trouxe até aqui, até mim? Minha mente não consegue se agarrar a nada além disso. Minha alma gêmea é humana… e eu não consigo protegê-la aqui. O pensamento corta a névoa. Eu sou inútil para ela. Um fracasso não só para minha corte e meu povo, mas também para ela. Minha companheira. Minha fêmea. Trazida para este inferno pela minha própria mão e exibida diante de mim enquanto eu fico aqui, acorrentado, sem ter nada a oferecer além de ruína.
Eiran diz alguma coisa para ela. Depois, Saoirse. Eu a ouço responder aos dois, e o som da voz dela quase me desfaz. É tão suave, quente e luminosa num lugar que conhece apenas ferro e dor há tempo demais. O que posso dizer a ela? O que eu poderia oferecer? Olhe para mim. Um animal acorrentado. Um príncipe quebrado. Uma vergonha. Então minha pequena humana me choca até o fundo.
Ela me oferece comida. Meus olhos se erguem até os dela, vasculhando-os, precisando saber se ela fala sério. Se entende o que está oferecendo. Um macho melhor perguntaria. Um macho melhor a avisaria. Eu não sou um macho melhor. Neste momento, sou completamente egoísta. Eu quero o que ela está me dando. Eu preciso disso. Devagar, eu assinto. Desejando a oferta dela e aceitando-a sem as palavras adequadas para implorar por isso.
Os dedos delicados dela se erguem em direção à minha boca, cuidadosos e um pouco incertos, e eu me movo o quanto as correntes permitem para recebê-la. A fruta passa entre meus lábios entreabertos e estoura contra minha língua. O gosto mal importa. É a sensação que me dilacera. Quando uma fêmea oferece comida ao seu macho, isso significa algo. É a aceitação do nosso vínculo. Uma promessa. Quer ela saiba disso ou não, quer ela compreenda o peso do que colocou na minha boca ou não, eu sinto do mesmo jeito. E eu aceito. Eu aceito a oferta. Eu aceito a doçura dela. Eu aceito o vínculo que ela não sabe que me deu. Minha. A fruta explode doce sobre minha língua e, por um batimento suspenso do coração, a cela desaparece. Tudo o que vejo são os olhos azuis arregalados dela fixos em mim, como se ela não conseguisse decidir se eu sou algo a temer ou a ter pena. Minha.
Ela puxa a mão de volta devagar, ainda agarrando o cesto com a outra, e pigarreia. “Então… ah… eu não deveria estar aqui.” O olhar dela passa pelas celas. “Isso tudo foi meio que um engano, na verdade. Eu achava que minha Nanna era supersticiosa e um pouco doidinha, e aí eu meio que, sei lá, entrei casualmente num círculo de fadas e...” Ela dá uma risada fraca. “Bom. Aqui estamos.” Círculo de fadas. Então foi esse o limiar que respondeu. “Enfim. Existe algum tipo de… sei lá, bruxaria, voodoo, alguma coisa, em que um de vocês possa simplesmente… me mandar de volta?” De volta. Para casa. Não. Não, ela não pode voltar. Ainda não. Não para longe de mim. Não enquanto Bright Thorn respirar e meu povo apodrecer atrás das grades e as estradas permanecerem silenciosas sob pedra roubada. Ela é minha. E se eu tiver de usar até o último centímetro permitido pela verdade feérica para mantê-la, eu vou usar.
“As estradas só respondem aos da minha espécie”, digo, a voz áspera de sede e dor. É como se eu arrancasse as palavras através do sangue. Os olhos dela voltam num estalo para os meus, e eu puxo o ar para dentro. “Você não pode voltar sozinha. Uma passagem se abriu para você, mas não vai se abrir de novo apenas com desejo mortal.”
Ela pisca. “Isso é… profundamente inútil.”
“É a verdade”, diz Saoirse, baixinho, das sombras. O olhar dela se desloca na direção do som, depois volta para mim. “Tá. Beleza. Legal. Odeio isso.” Ela engole em seco. “Então como é que eu volto pra casa?” Minha. Eu sinto a palavra atrás dos dentes e a mordo, engolindo-a. Cuidado agora. Cuidado. Só a verdade… mas eu posso entortá-la. “O meu povo pode chamar as estradas”, digo. “Nós podemos abri-las, mas não daqui de dentro destas celas.”
As sobrancelhas dela se franzem. “Certo. E é aqui que alguém tenta me convencer a fazer um acordo, não é?” Espertinha. “Vovó disse pra nunca fazer barganha com o povo das fadas”, ela murmura, quase para si mesma. Vejo uma risada quase escapar da garganta de Eiran do outro lado do corredor, mas ele tem a sabedoria de segurá-la.
Mantenho os olhos nela. “Um conselho sábio.”
A sala começa a inclinar de novo. A dor puxa as bordas da minha visão. Eu não tenho tempo para delicadezas, e não tenho o luxo de ser honesto em tudo. Só tenho o que consigo fazer com a verdade.
“Eu vou te levar pra casa”, digo a ela. As palavras são verdade. Só não são verdade do jeito que ela pensa.
O olhar dela se estreita. “Se eu ajudar você a fugir, certo?”
“Sim.” Ela me estuda com desconfiança e medo, um depois do outro atravessando aquele rosto luminoso. “Então é verdade? Você não consegue mentir?”
“Não”, digo, e sinto a armadilha se fechar ao redor de nós dois. “Nós não podemos mentir.” Só que nem sempre dizemos o que os humanos acham que estão ouvindo. Ela mastiga a parte de dentro da bochecha. Pensando. Pesando. Corajosa o bastante para fazer as duas coisas diante de predadores acorrentados. Eu quero ela fora daqui. Eu quero ela mais perto. Eu quero demais.
“Daqui a mais ou menos uma hora, eles vão vir atrás de mim. Vão me tirar dessas correntes e me afastar da pedra-guardião. É aí que você começa”, digo, forçando o plano para fora antes que meu corpo volte a me trair.
Os olhos dela se arregalam. “Começo como?”
“Você vai se encolher”, digo. “Você vai tremer. Vai dizer a eles que tem medo de nós. Que tropeçou por uma passagem e encontrou monstros no escuro.” Ouço um bufar baixo de divertimento vindo de Saoirse.
Minha humana parece inquieta. “Eu não sei se consigo encenar uma fuga da prisão. Eu já vi os filmes; eles são terrivelmente longos e muito complicados.”
“Você só precisa agir como se Bright Thorn, o povo que nos trancou aqui, fossem seus salvadores. Faça amizade com eles. Deixe que pensem que você é pequena, inofensiva e grata. Descubra onde guardam as chaves. Abra estas celas. Ajude-nos a alcançar as estradas.”
“E depois?”, ela pergunta, baixinho.
Sustento o olhar dela.
“Depois eu te levo pra casa.”
Ela morde o lábio, mudando o peso de um pé para o outro. Pensando, pensando, pensando. Ela olha em volta da cela de novo, em busca de outra saída, onde não existe nenhuma. “Porra.” Ela xinga. “Tá. Eu vou fazer.” Minha. Eu sustento o olhar dela. “Então temos um acordo?”
A mão livre dela se emaranha no cabelo. Ela solta o ar. “Sim. Temos um acordo.”
Um sorriso lento e torto puxa minha boca. “Então temos que selar com um aperto de mãos.”
