Capítulo 1 Prólogo
Agnes Venâncio
O barulho irritante do meu salto gasto no piso chique fazia todo o pedido de discrição, feito pelo cliente, ir por “água abaixo.”
Cliente! A que ponto cheguei?!
Tive que entrar neste hotel de magnatas pela área de serviço. Enquanto passava pelo corredor onde ficava a lavanderia, copa e cozinha, via os olhares dos funcionários do hotel direcionados ao meu corpo; os homens com cobiça e as mulheres com desdém. O senhor ministro da economia, que me esperava na cobertura, não podia ter sua imagem manchada por causa de uma garota de programa.
Mas espera aí! Eu não sou prostituta!
Entretanto, eu estou prostituta. As circunstâncias da minha vida de merda me trouxeram até aqui.
Logo após ter saído do elevador de serviço, pude constatar o quão lindo era o lugar. O assoalho parecia um espelho. De tão nítido, dava para ver minha imagem refletida nele. Do teto rebaixado em gesso e sancas decorativas, desciam lustres enormes e dourados, feitos de cristais, que caíam em cascata, refletindo no chão. Imaginava a fortuna do valor da diária para se hospedar no Copacabana Pallace.
Dei um giro 360°, me sentindo deslumbrada com a riqueza daquele lugar. Aí me veio a frase clichê na cabeça: Poucos com tanto. Muitos com nada!
Cheguei até a porta do apartamento, já de frente para a enorme porta branca e de fechadura dourada, toquei de leve a campainha. Todos os fatores estavam a meu favor. O lugar era lindo e o apartamento era na cobertura. — Todo mundo aqui já assistiu o filme Uma Linda Mulher! — Estava vivendo um dia de Julia Roberts em Pretty Woman. Era assim que eu tentava me imaginar para não pirar com o que iria fazer naquele hotel.
Só faltava um pequeno detalhe...
Ao abrir a porta, quem deveria sorrir para mim era um homem de meia-idade, vestindo um belo terno. Lindo, de olhar sedutor e rasgado, cabelos grisalhos, que o deixava extremamente charmoso, junto a um sorriso branco, perfeito e estonteante.
Acho que defini bem o Richard Gere.
Contudo, quando a porta se abriu, fui tirada dos meus delírios com a verdade nua e crua jogada na minha face. Meu sonho de Pretty Woman se desfez com a primeira olhada na pessoa à minha frente.
O tal ministro era careca, daqueles que, para ficar ainda mais ridículo, deixava alguns fios resistentes nas laterais da cabeça.
Para quê? Para uma merda que já estava ruim, ficar ainda pior!
O sujeito ainda tinha um bigode do tipo que engoliu um pardal e deixou o rabo para o lado de fora. Para fechar a personificação do capiroto, veio me atender de meias até a canela, cueca de seda samba-canção e por cima da cueca, uma pochete.
Pochete? Não.
Definitivamente, aquela pança não era uma pochete. Era uma mochila lotada de bacon.
Que nojo!
Mas, segundo a vaca da Yasmin, minha pseudo-amiga que me pôs nessa roubada, eu tinha que ser simpática e agradável. Foi aí que dei o meu melhor sorriso forçado ao bigode de escova à minha frente.
O ministro-escova, me olhou de cima a baixo como se eu fosse um bife de picanha. Tentando me desvencilhar daquele olhar constrangedor, ergui minha mão para um cumprimento.
— Me chamo Agnes da Sil… Não, eu não me chamo isso. — me recordei da Yasmin dizer para que eu não falasse meu nome verdadeiro. — Me chamo Dalla.
Dalla Mendes.
— Ao seu dispor. — ele falou enquanto fazia cara de sexy, babando a minha mão em um beijo nojento. — Maurício Farias.
Naquele pedaço de palácio tinha uma mesa farta de comidas maravilhosas. O homem era generoso, me permitiu comer o que quisesse. Mas eu não poderia degustar nada. Caso fizesse isso, com certeza vomitaria; tamanho era meu ranço daquela situação.
Eu não nasci para aquela vida!
Teve momentos que pensei em sair correndo, entretanto, me lembrei dos motivos que me levaram até ali e sosseguei minha periquita e minha odara¹ gigante onde estavam.
A situação era bem incômoda, mas precisava me livrar daquilo o quanto antes. O escova estava em outro cômodo ao celular, discutindo com alguém. Foi aí que pensei que, quando ele voltasse, acabaria de uma vez com aquela situação.
Decidida a me livrar, enchi um cálice de Control. Ou ficaria desinibida, ou entraria em coma alcoólico.
Depois de mais dois cálices do destilado fortíssimo, o pochetudo veio até mim e quando percebi que ainda o via de um jeito bizarro, me dei conta de que o embelezador não havia feito efeito.
Eu não estava bêbada! Teria mesmo que encará-lo de careta.
A versão tupiniquim do Senhor Barriga, assim que voltou do seu telefonema misterioso, começou a me olhar estranho quando comecei a me despir sozinha feito louca; eu tinha pressa.
— Dalla, eu vou logo te pagar, porque assim que você me der o que comprei, preciso que saia de imediato, pois uma pessoa importante está vindo para cá.
— Claro, tudo bem. — respondi sorrindo, aquela tinha sido a melhor notícia da noite. E sim, sairia de imediato e correndo.
Cinco mil. Aquele escova era mais um desses políticos que roubavam o dinheiro do povo e pagavam cinco mil por um edí² virgem. Eu tinha guardado essa parte do meu corpo intacta para o Renan, para o nosso casamento. Mas o tremendo filho da puta não merecia.
Ganharia bem mais vendendo ao senhor ministro.
Teve um momento que pensei que o seu Maurício Farias estava querendo um romance, pedindo para eu fazer isso ou aquilo, tentando guiar minha cabeça e minha mãos para lugares onde o sol não batia. Foi aí que decidi “pôr os pingos nos is”.
— Olha aqui, senhor ministro…
— Só Maurício. — ele me interrompeu fazendo voz sexy. Aquela famosa voz de arroto.
— Maurício, me desculpe se irei ser direta. O senhor pagou para enfiar o seu ocani³ — apontei para a coisa que estava rígida, agradecendo por ele não ser abastado. — No meu brioquinho virgem. Então, encape ele e faça logo isso. — Fui bastante direta. — Primeiro, não irei gravar nada. Segundo, o senhor não vai tocar na minha mapoa⁴ ou em qualquer outra parte íntima minha. E terceiro, seja prático e objetivo, estamos combinados?
— Não, queridinha. Eu paguei pelo serviço completo! — Exclamou indignado. — Mas tudo bem, não tenho tempo para discussões agora. Como te falei, quando terminarmos quero que saia rápido.
Ele me empurrou para cima do colchão, fazendo com que o meu corpo quicasse algumas vezes, a cama parecia coisa de rei; macia, felpuda, com uma cabeceira clara toda acolchoada e em cada ponta um adereço dourado. Pensei que poderia estar ali com o cretino do Renan.
Cabeça burra essa que eu tinha. Depois de tudo, ainda pensava no infeliz.
De forma bruta, o pochetudo me mandou ficar de quatro na beira da cama e se posicionou em pé atrás de mim. Acho que ele levou ao pé da letra a história de praticidade. Quando o ouvi abrir o preservativo, percebi que estava em um caminho sem volta.
Eu iria perder minhas pregas!
Ele cuspiu no meio da minha odara, e ficou batendo com o ocani D⁵ nas minhas bandas.
— Gostosa! Que bundão lindo e macio! Agora vou comer esse cuzinho apertado.
Meu Deus, que horror! Uma garota de programa tinha que ouvir essas coisas e fingir que estava gostando? Me autoquestionei.
Era só o que eu pensava. Não nasci para isso. Apertei meus olhos, ciente que dali não poderia sair. O homem me ajeitou, puxando meus quadris como se eu fosse uma égua. E para ser sincera, adoraria dar um coice bem nos ovos murchos dele.
Ainda de olhos fechados, senti quando ele encaixou o membro rígido no meio da minha odara. Foi nesse momento que comecei a rezar.
O túnel seria escavado.
Fazia súplicas, que sabia que jamais seriam atendidas. Estava a ponto de mandar tudo pelos ares. Talvez morrer de tiro fosse mais indolor do que aquela situação.
Quando percebi que o escova finalmente iria destruir minhas pregas, ouvi um estampido diferente. Senti o peso do homem caindo em minhas costas e um líquido quente escorrer sobre o meu corpo. O forte odor de ferro denotava.
Sangue?!
Abri os olhos e tinha sangue espirrado na cabeceira, me virei empurrando o corpo do ministro no chão.
Olhei para tudo à minha volta espantada, tentando decifrar a cena.
Sangue no meu corpo, na cabeceira e no chão.
O ministro morto com um buraco na cabeça.
E um homem mascarado todo de preto apontando uma arma em riste para minha testa.
Foi aí que me perguntei:
Como foi que minha vida virou essa loucura?
