Capítulo 10 9

Agnes Venâncio

Só deu tempo de apertar o power e desligar o computador, ainda bem que havia guardado o dinheiro no meu quarto. Quem adentrava o quintal com a maior cara de pau, era o cretino do Renan. Já fiz minha cara de zero paciência, acreditando que ele estava ali para me pedir para voltar. Entretanto, fui surpreendida, o meu ex-noivo entrou na minha casa com o dedo apontado para minha face e gritando feito um marido traído.

Enquanto ele berrava, eu varria os cacos de vidro do copo quebrado, não dando a mínima para a presença dele.

— Sua safada! Há quanto tempo tu me trai ganhando dinheiro?

— Oi? — fiquei meio boiando com a pergunta do imbecil à minha frente.

— Não finge que não sabe do que estou falando. — Fingir para ele? Era muita petulância mesmo. — Sua cara tá estampada em tudo que é canal de TV.

Foi aí que me dei conta que alguém vazou para a imprensa o último desastre na minha vida. Eu só tinha uma preocupação: minha mãe.

Renan continuava a representar o show de namorado traído, tudo o que esse falso falava, estava sendo abafado pelo tamanho da minha preocupação. Até uma frase me chamar a atenção.

— Você já tem um cafetão, né? Por isso nunca vi a cor desse dinheiro.

Há pessoas que a gente para, olha e pensa: “Um preservativo ou uma punheta no chuveiro, teria evitado muita coisa.”

— Traste! A sua preocupação é porque não comeu o dinheiro que acha que ganhei?

Antes que o verme pudesse responder, fomos surpreendidos com uma mulher parada à porta, nos observando.

Só a tinha visto uma vez, mas jamais esqueceria aquela mona elegante. Era a mulher que estava na delegacia com os policiais, a que o investigador disse ser a pica das galáxias da segurança nacional.

Poderia me perguntar o que fez essa mulher vir até um bairro do subúrbio do Rio, mas após ver o conteúdo do microchip, certamente ela veio atrás dele.

Não sei se jogava o Renan em cima dela e corria, ou se chorava. Me mantive firme e banquei a adulta.

— A senhora deseja alguma coisa?

A mulher entrou na minha casa, escaneando com os olhos e fazendo cara de nojo. Já o Renan, a olhou com cobiça.

Patético!

— Manda ele sair. — ela ordenou com toda a sua superintendência.

— Vou falar para ele ir embora, porque não tenho mais nada a conversar com esse ebó. Aqui na minha casa, mando eu. — respondi afrontosa.

Só podia ser louca, estava desafiando a bam bam bam da segurança não sei de quê.

— Não vou a lugar algum, sacô? A coroa gostosa aí que espere. Cheguei aqui primeiro, não vai fugir de mim. Tu me deve muita explicação…

Renan apontava o dedo para nós duas enquanto falava. Antes de ele concluir as merdas que cagava pela boca, a loira Belzebu pegou o dedo dele impulsionando em sentido contrário. Pude escutar o crack junto ao grito de dor que ele deu.

Com a força de um homem, ela virou o Renan com o braço para trás e, de costas para ela, encostou sua boca no pescoço do indivíduo. Por um instante, achei que Renan iria se borrar ali mesmo.

Eu até que gostei.

— Escuta bem, bonitinho. Você sai daqui agora e vai para o posto de saúde consertar suas falanges, pois desloquei as três de uma só vez. Agora, se eu continuar a ver sua cara de pobre, ou ouvir a sua voz de gente mal-educada, farei o mesmo que fiz com seu dedo, com seu saco escrotal. E esqueça se tiver em mente algum dia ter um Júnior.

Naquele momento, percebi que o Renan não se deu bem na vida, pois estava no esporte errado. Deveria ter tentado o atletismo. Com o dedo pendurado, ele correu feito o Usain Bolt e pulou meu muro feito o João do Pulo.

Sair pelo portão? Nada disso. Se pulava o muro mesmo, quando se estava perto de perder os ovos.

Assim que Renan saiu, a mulher voltou seus olhos para mim.

— Agora podemos conversar em paz.

— Torcendo para que seja somente uma conversa. — respondi, mas, na verdade, gostaria de ter saído igualmente ao Renan.

— Tudo depende de você. — podia sentir o ataque no tom das palavras dela. — Agnes, eu só preciso de um objeto, um microchip, que faz parte da segurança do país e nos foi roubado.

— Queria muito lhe ajudar, senhora, mas não tenho ideia do que está falando. Provavelmente, está com aquele homem que matou o ministro e depois se jogou do prédio.

— Não. — ela negou com segurança. — Se o tal homem tivesse encontrado, já estaria nas minhas mãos.

— Comigo não está. — Senti minha voz vacilar. Estava com meu edí que não passava a metade de uma agulha de miçangas.

A mulher balançou a cabeça em positivo.

— É, não tem jeito, Agnes. Terá que vir comigo.

— Não irei com a senhora a lugar algum.

— Será só para te proteger. Pessoas virão atrás de você e não serão tão amáveis quanto eu.

— Porque viriam atrás de mim? Não fiz, nem vi nada. Mas que droga! Sou só uma azarada que estava no local errado e na hora errada!

— Não se exalte, querida. Lá fora, no carro, estão os três policiais que você viu comigo na delegacia. Vai vir por bem, andando com suas pernas? Ou os mando entrar?

— O que vocês querem de mim?

— Além de te proteger? Queremos o microchip. Você não pode ficar solta por aí obtendo esse poder.

— Não tenho poder nenhum. Não vi vídeo algum!

— Hum… — ela disse. — Nunca te disse que tinha um vídeo no microchip.

Como sou burra! Eu mesma dei um coice na minha cara.

Fui dando passos para trás, enquanto a mulher inclinava a cabeça para o lado, segurando na gola do paletó e encostou a boca no tecido, dizendo:

— Entrem.

Como se precisasse de reforços! Depois do que ela fez com o Renan, comigo seria molezinha.

Com a porta escancarada, vi os três homens adentrarem meu quintal. E logo atrás deles, outro grupo de homens, todos mascarados. Menos um.

Aquele, eu já conhecia, o coroa que foi procurar o ministro no dia em que ele morreu.

Quando cada grupo puxou suas armas, a frente da minha casa parecia guerra entre gangues.

— Esse abutre do Carmurati veio atrás do micro. — a ouvi vociferar.

— Mas também, já disse a ele que não tenho nada comigo.

— Se prepara para se proteger, porque não sei será uma guerra fria.

Pensa agora como seria lindo, uma chacina no meu quintal.

Tinha em mente que a situação não poderia piorar, até ouvir o primeiro tiro ser disparado. Todos olharam para o meu terraço.

Dona Fodona e eu estávamos em alerta; em uma fração de segundos, outro tiro foi disparado. Vi o coroa, o tal do Carmurati, cair com a mão no braço.

— Se agacha e põe as mãos na cabeça!

A mulher gritou, se jogando ao chão, e começou tiro para tudo o que era lado. E meu desespero se tornou realidade. A frente da minha casa ficou parecendo guerra de facção rival.

A superintendente das picas nacional tentava negociação para cessar fogo, enquanto eu me arrastava pelo chão querendo chegar ao quarto da minha mãe, sair pela janela e me desvencilhar de todo aquele bafucá.

Mesmo no chão, a mulher percebeu minha tentativa de fuga e me puxou pelos cabelos, trazendo-me de volta para o seu lado.

Isso doeu!

— Não tente gracinhas, mocinha, você só sai daqui comigo. Viva ou mor…

Foi só uma pesada na cara, na verdade, no queixo. Vi um coturno acabar com toda a superintendência da loira, aplicando uma bicuda forte, fazendo a cabeça da perua tombar que nem gelatina.

Não sabia se ficava feliz ou triste.

Porém, a mesma pessoa que desmaiou a fodástica, me pegou do chão, me jogando no ombro feito um saco de batatas e me tirou dali pela parte de trás da minha casa.

Justamente por onde eu queria sair.

Ai, Deus! Quando isso iria acabar?

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