Capítulo 2 1

Agnes Venâncio

DUAS SEMANAS ANTES...

Acredito que todo mundo, em algum momento da vida, já teve uma fase ruim, um dia ruim, uma semana ruim, a porra de um mês ruim. Mas eu, estava vivendo um período cagado.

— Demitida, senhor Arthur?! — perguntei, ainda não acreditando no papel que estava nas minhas mãos.

— Sim, Agnes. Corte de despesas. — O velho safado à minha frente encolheu os ombros e olhou para o chão, enquanto mentia para mim com a cara mais deslavada.

— Corte de despesas? Sei… O problema é que o senhor ficou arrastando sua asa caída e depenada para cima de mim, e a vaca da Cínthia pediu a minha cabeça. — o velho arregalou os olhos com a minha declaração. — Pode avisar a ela que não tenho intenção nenhuma de virar mona de aqué, mas se um dia acontecer, não será com um caquético pão-duro feito o senhor.

Tirei meu avental e taquei em cima dele. Puta da vida, cheia de raiva.

Vim andando pelas ruas, indignada com aquela situação e preocupada com meus próximos dias. Ao menos o senhor Arthur iria pagar minha rescisão na semana que vem. Com o dinheiro, poderia me livrar do agiota.

O emprego de auxiliar de cozinha na Pensão Comidinha estava bem longe de ser o trabalho de chef de cozinha que almejava em algum bistrô carioca. Mas era com ele que eu levava o sustento para casa.

Realmente as coisas não estavam boas para mim; desempregada, com minha mãe no hospital, colégio do Lucas atrasado e devendo a “Deus e o mundo.”

Por falar em mãe, até eu arrumar outro trampo, poderia passar mais tempo com ela. Quem sabe fazer uma pressão naquele maldito hospital para que a operasse logo.

Essa era a parte boa.

Cheguei em casa e tomei banho para me livrar da inhaca de gordura. Depois de me arrumar, separei o material da aula. Do hospital, iria direto para a faculdade.

Já estava de saída, quando ouvi o barulho da porta se abrindo. Quem entrava na minha sala era o pecado em forma de homem.

Renan, meu noivo, era um tipo de bofe odara. A pele morena jambo, o corpo perfeito, os dentes brancos alinhados. Aquela barriga trincada...

— O que você está fazendo em casa a essa hora? — sem reservas, ele me questionou.

— Fui dispensada da Comidinha. — afirmei com desânimo.

— Que isso, bebê! E agora, como a gente fica? — Ele disse “a gente?” Que eu saiba, era eu a desempregada.

— Renan, você precisa arrumar um emprego. Você quer casar comigo, mas não adquire responsabilidade. — Não perdi tempo em chamá-lo para a realidade.

— Relaxa, bebê! Semana que vem vai um olheiro lá na base da várzea. Eu estou sentindo que dessa vez vão me descobrir.

— Amor, você já tem 23 anos, está velho para ser a revelação do futebol. Está na hora de arrumar um emprego de verdade. Aliás, já passou da hora. — Mais sincera que isso só se eu o chamasse de iludido.

Meu noivo deslizou mão dele pelo meu corpo e depois deu um tapa na minha odara.

— Bebê, não faz assim, logo logo vou poder lhe tratar que nem rainha.

— Não precisa de tanto, Renan. Eu só quero o básico. Que você trabalhe e caminhe do meu lado. — Era o mínimo que se esperava de um casal e, urgentemente, Renan precisava entender isso

Saí de casa o deixando lá, ainda pude vê-lo reclinar o sofá e pegar o controle da TV. Eu era apaixonada pelo meu namorado, mas alguns atos dele me entristeciam. Eu não sabia se via a vida pesada demais, ou se ele que via extremamente leve.

[...]

Minha mãe estava há quase três meses internada esperando para ser operada, com fraturas no fêmur, tíbia e bacia. Tudo proveniente de um maldito tombo de escadas. Para ajudar nas despesas, ela trabalhava fazendo bicos, lavando escadas de prédios de gente metida a granfino.

Aí já dava para imaginar o que aconteceu. Em um dia, com pouca sorte, a coroa desabou dois lances de escada abaixo, o que gerou múltiplas fraturas.

Logo ao me ver chegar, dona Virgínia, do seu leito, abriu um belo sorriso. Ao reparar a luz vespertina que adentrava a janela, seu sorriso foi aos poucos se dissipando.

— Mandada embora do trabalho? — fez a pergunta na qual já sabia a resposta.

— Não. — menti na cara de pau. — Meu chefe me deu o dia de folga.

— Para agora, Agnes! Estou com alguns ossos inferiores quebrados, não estou senil. Aquele velho sem vergonha do Arthur mal dá a folga de direito do empregado, imagina se irá dar extra. — ela resmungou.

— Está bem, vai. Aquele velho safado deu, sim, um pé bem grande na minha odara. — dei um longo suspiro. — Só não queria preocupar a senhora.

— E agora, como o colégio do seu irmão será pago?

— Está vendo? Por isso não queria lhe contar. Se acalma, mãe, vou conseguir outro trampo, o colégio do Luquinhas será pago. Ainda tenho minhas contas trabalhistas a receber. Se preocupa com a senhora, com a sua saúde. Deixa que em casa eu resolvo.

Não se tratava de pagar à escola um valor exorbitante, já que Lucas era bolsista, era apenas 10% do valor do internato. Meu pai era semi-analfabeto e tudo o que ele queria era que Lucas e eu tivéssemos um destino diferente.

— Você fala como se fosse fácil, além das minhas contas e das suas, ainda tem aquele encosto do Renan. Se livra desse homem, filha!

— Mãe, o Renan é problema meu, não comece com a sua implicância.

— Eu não vou falar é mais nada! — proferiu com um tom de advertência.

— Tá bom, mãe, tenho que ir agora. Daqui a pouco é o horário da faculdade. Antes, vou passar na assistente social, para saber se já tem uma previsão de cirurgia.

— Tudo bem. — ela me olhou com ternura. — Obrigada por tudo, filha.

— Não tem o que agradecer, mãe. A senhora merece o melhor de mim.

Saí da enfermaria após lhe dar um beijo na testa e fazer um carinho no rosto. Agora iria até o fim do corredor, falar com a assistente social, pressionar para saber quando essa maldita prótese chegaria.

[...]

Alguns discentes iam para aula desanimados por conta do ritmo puxado. Eu não.

Amava meu curso de gastronomia. Essa sempre foi minha vocação. Aprendi a arte de cozinhar bem pequena com a vovó Silene. Ela não era minha avó de verdade, mas foi uma pessoa que ajudou o meu pai e ele a chamava de mãe. Vovó Silene faleceu antes do meu pai e seus filhos fecharem o restaurante que ela tinha. Me desestressava e me enchia de esperança em ter um futuro melhor.

Cheguei a faculdade e adorava o clima. Na PUC Rio tinha alguns pobres como eu, que entravam através de bolsas, entretanto, a grande maioria aqui era endinheirado. Ao final das aulas, dei uma paradinha para conversar com a Yasmin em um barzinho de esquina. Minha amiga era uma loiraça dessas de parar o trânsito. Claro que era loira de farmácia, dessas que o cabelinho de baixo era preto.

Mas era lindíssima.

— Mona, já te disse que você tá passando perrengue por que quer. — Lá vem ela e seus conselhos.

— Na boa, não te julgo. Mas não tenta me encorajar a virar vagaba de luxo que não vai rolar.

— Como você é boba. Só gente da alta nesse aplicativo, e você ainda tem uma parte preservada que pode ser leiloada no meio dessa rabeta empinada que tem.

— Meu edí? Ficou louca se acha que vou perder minhas pregas por aqué. —  Não mesmo, tinha minha convicção! — Desaquenda dessa história. — a adverti. — Meu edí está guardado e lacrado para quando o Renan casar comigo.

— Trouxa! Como você é burrinha e iludida. E por falar no traste, ele pagou a parte dele do agiota?

— Não, né! Renan tem esse problema. Mas vou falar com ele que vou quitar minha dívida com o Trocacem, portanto, ele terá de arrumar a parte dele.

— Vai sonhando que esse aproveitador vai pagar. Vai acabar, como sempre, sobrando para ti. Já vi esse filme repetidas vezes nos últimos meses. No cinema ele está sem dinheiro, no barzinho também, no motel é você quem paga. Em compensação, ele anda por aí igual a um outdoor de marcas caras, como todo pobre que gosta de aparecer.

— Você é igual a minha mãe, que implicância! Renan também não é esse monstro. Vou falar com ele e tudo ficará certo. Você vai ver.

— Claro, você é a namorada dele e o conhece melhor que ninguém. Quem sou eu para dizer o contrário?

Yasmin discorreu as palavras na minha face com um sarcasmo aparente. Me recusava a crer que ela poderia ter razão. Sabia que meu bofinho me amava acima de tudo.

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