Capítulo 3 2

Agnes Venâncio

Quando já não me bastava os problemas que tinha, o Lucas me arranjou mais um. Agora teria que aturar sermão de coordenador de escola porque o rapazinho de quase 17 anos resolveu aprontar. O pior seria dar de cara com o pessoal do financeiro; ainda faltava cinco dias para o senhor Arthur pagar minha rescisão e assim poder aliviar as dívidas.

Sabia que muitos deviam pensar: “Porque esse moleque não está em um colégio público?” Responderia: “Se meta na sua vida!” Mas a verdade é que Lucas tinha 80% de bolsa em uma escola que o prepararia para um futuro próspero.

Valia o esforço.

A salinha da coordenação até que era agradável. Água gelada, café quentinho, biscoitinhos e uma boa poltrona para se sentar. O silêncio no horário de aula fazia com que os poucos barulhos se fizessem presentes, foi então que me arrumei na cadeira na qual estava despojada e percebi que tinha alguém chegando.

Fiquei um tanto boquiaberta, esperava um tiozão vestido com roupas formais e me entra um atleta trajado de short, camiseta, meia e tênis. Cheiroso e com um par de coxas de molhar qualquer calcinha.

Um bofe de ocó odara!

Não era tão jovem, mas também não era velho, Devia ter por volta dos trinta e cinco anos. Chegando na fase do tio gostoso.

Aliás, bem gostoso!

Sossega, Agnes! Baixa o fogo dessa periquita! Fora que ninguém é mais gostoso que o Renan na face dessa terra.

Quanta mentira que pensei para mim mesma nessa última frase.

O homem tinha uma postura militar, com o peito estufado e uma cara de nada. Ele caminhou da porta até uma longa mesa de madeira e se pôs à minha frente.

Uma cara de nada! — Alguém sabe o que é uma cara de nada? —  Não é uma expressão, feliz, triste, presunçosa ou de merda. É simplesmente nada, zero expressão.

Ele até poderia ser um CEO frio e calculista desses que eu lia no Kindle.

— Bom dia. Creio que a senhorita não seja a mãe do Lucas. — falou com uma voz grossa e um sotaque sulista.

“Senhorita? Quem usa esse tipo de tratamento hoje em dia?”

— Não, nem poderia, temos somente quatro anos de diferença de idade. Sou a irmã dele, no momento a única responsável pelo moleque. — uma pausa rápida e voltei a falar, querendo adiantar o processo para eliminar o problema. — Então, o que o Lucas aprontou?

Ao invés de me responder, o homem ficou parado feito uma múmia, como se arrumasse um meio de me contar o ocorrido. Aquilo já estava me preocupando.

— Lucas sempre foi um rapaz aplicado desde que entrei aqui. Quero dizer… — pigarreou. — Ainda é bastante aplicado, mas nos últimos meses, tem estado um tanto atucanado.

— Tucano de quê?! — continuou parado, olhando para mim com cara de nada. — Olha, coordenador, gostaria muito que o senhor fosse direto ao ponto e falasse em português.

Por um breve momento, o vi sair da expressão de nada. O homem à minha frente deu um giro de 360º com os olhos, eriçando suas sobrancelhas.

Acho que dei um nó na cabeça dele, pois ele já estava dando na minha.

— Eu não sou coordenador, sou o professor Chambarelli, de ética e educação física.

“Meu Deus! Duas matérias interligadas, tudo a ver. Só que não!”

— Estou, sim, falando português, sou gaúcho, e atucanado quer dizer que seu irmão anda disperso, estressado.

— Ah! Então, é isso! Tem uma explicação forte para isso, professor, a nossa mãe está internada. Mas irei conversar com ele, pode chamar… — o professor gostoso me interrompeu.

— Ainda não lhe contei o que o Lucas fez.

Agora fui eu quem eriçou as sobrancelhas.

— Ah! Desculpa! Pensei que era os problemas dos tucanos aí.

O homem à minha frente fez uma expressão de riso, junto a um barulho estranho. Já estava me achando poderosa, consegui tirar um meio sorriso ladino daquela carranca bruta. E se não fosse meu Renan, adoraria me lambuzar com esse professor Chambinho. Não, Não é Chambinho.

É Chamito?!

“Não, também não é isso. Chandelly. É professor Chandelly, Agnes. Tudo danone gostoso, aí me confundo.”

— Tudo bem?! — ele me perguntou. Eu devia estar agindo feito uma retardada.

— Tudo, sim. Pode continuar, professor Chandelly.

Ele novamente levantou uma de suas sobrancelhas.

— Não é Chandelly, é Chambarelli.

— Perdão. — o homem tinha razão, realmente estava agindo feito uma retardada. — É diferente seu nome, me confundi.

— Meu nome é Rael Chambarelli Prisco, aqui me chamam de professor Chambarelli, pode escolher o que melhor te agrade. Continuando, não levei o caso à coordenação porque eles têm normas rígidas, que para ser sincero, concordo com todas, mas o seu irmão só agiu de forma arbitrária por estar em um mal momento.

— É verdade. Mas o que ele fez? — perguntei impaciente.

— Me agrediu.

— Oi? Mas porquê o Lucas fez uma coisa dessas, sabendo que poderia ser expulso de imediato? — Interroguei enquanto enchia o copo de água e virei um grande gole na boca.

— Foi por conta de uma aluna.

— Para defender uma aluna? — questionei.

— Não. Foi por ciúmes da menina. Acredito que ele goste dela. Lucas nos viu sendo gentil um com o outro e interpretou as coisas de forma errada.

"Interpretou errado, sei…"

Imaginei meu irmão, um perna fina, batendo naquele homaraço, e gargalhei mentalmente. Nenhuma das minhas amigas me contavam nada engraçado se eu estivesse bebendo algo, pois elas sabiam que havia grande chance de tomarem uma chuveirada com o líquido que estivesse na minha boca.

O professor Chandelly não sabia disso. E levou a pior.

A sorte foi que era água, mas ao invés de me envergonhar e parar de rir feito uma hiena… eu gargalhava enquanto ele tirava um lenço do bolso e se enxugava.

— Mais uma vez, desculpa, professor! É que nunca imaginei meu irmão batendo em ninguém, ainda mais por conta de uma garota. Para ser sincera, sempre achei que ele fosse gay.

— A orientação sexual dele, não sei. Entretanto, o gênio dele já descobri. Foi comigo a agressão, tudo bem, não doeu, nem fez estragos. Entendo o que se passa com o rapaz neste momento. Mas a aluna em questão, é linda e chama a atenção dos demais, por mais que o colégio tenha controle, eles estão na idade de namorar. E se o Lucas agredir mais alguém aqui por ciúmes, garanto que não serão condescendentes como eu.

— Hum… O senhor acha a aluna linda…

— Não sei o que quis insinuar. As pessoas têm mania de suavizar palavras, com medo de ambiguidades. Isso não me importa, se fosse um rapaz, também diria caso fosse bonito. Creio que o importante aqui seja acalmar os ânimos do seu irmão, para que ele não acabe perdendo a bolsa que tem.

— Nossa! Hoje, acho que vim aqui só para me desculpar, o senhor tem toda razão. Pode chamar o Lucas para eu conversar com ele?

— Sim. Tudo bem.

O homem saiu no encalço do meu irmão e minha face ficou queimando pela postura lamentável que tive, se eu tivesse chapado ontem com a Yasmin, ainda teria a desculpa da ressaca da cachaça, mas não foi o caso.

Era só eu sendo uma idiota mesmo.

Lucas veio e conversei com ele, era um bom rapaz e acredito que se comportaria. Na verdade, meu irmão prometeu que iria se comportar. Prometeu com o mesmo afinco no qual jurou que o professor iogurte tinha um rolo diferente com a tal aluna.

Ainda dava aula de ética…

Parece que conversei com um belo hipócrita!

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