Capítulo 4 3

Agnes Venâncio

Com a rescisão em mãos, paga em totalidade, eu nem podia crer. Tinha em mente que o senhor Arthur iria parcelar a dívida no mínimo em doze vezes.

Primeiro, porque ele era pão duro.

Segundo, por vingança.

Mas, felizmente, não foi assim.

Já havia avisado ao Trocacem que iria levar o dinheiro. Depois iria pagar uma parte da escola do Lucas e comprar uns utensílios que minha mãe estava precisando no hospital.

Tinha pouco tempo e muitos lugares para passar até o horário da faculdade, hoje poderia até esbanjar um pouquinho, chamei o aplicativo de carona para ter mais agilidade e conseguir cumprir tudo a tempo.

O motorista buzinou na frente da casa, enquanto eu pegava minha bolsa e as chaves para trancar a porta.

Nem vi entrar, só soube da presença de Renan porque senti aquelas mãos maravilhosas rodearem minha cintura, apertarem a minha carne e me chamar em um beijo quente e invasor. Como esse homem tinha o poder de me deixar louca.

— Onde meu bebê vai assim tão cedo? — perguntou com seu jeito meloso e exagerado, mas que eu amava de paixão.

— Oi, lindo! Em muitos lugares. — respondi esbaforida — Pagar o agiota e a escola do Lucas, passar na farmácia e no mercado para levar suprimentos para minha mãe.

— Bebê, já recebeu sua rescisão? Deixa que eu te ajudo. Eu levo o dinheiro para o Trocacem e assim lhe sobra tempo para fazer as outras coisas com calma. — Falou enquanto depositava mais um de seus beijos maravilhosos na minha boca.

O motorista continuava a buzinar, não sabia porque, mas um lado meu achava melhor não delegar tal função ao Renan. Entretanto, ele era o homem com quem eu passaria o resto dos meus dias. E sim, tinha que haver confiança entre nós.

Confiança é a base do relacionamento.

Peguei a soma rodeada com elástico e depositei na mão dele, o advertindo em seguida.

— Renan, cuidado com esse aqué! Aqui está até o valor que você deve ao Trocacem, estou pagando o seu também, assim não corre mais juros. Quando você tiver, me devolve.

— Claro, bebê! Fica tranquila, sabe que assim que me firmar no futebol, vou lhe tratar que nem rainha. — Feito um papagaio, ele repetiu a mesma história de sempre.

— Não preciso de ser rainha, já lhe disse, só quero que você chegue junto a mim nas responsabilidades. E mais uma vez — apontei para ele, me dirigindo ao portão. — Cuidado com esse dinheiro!

E assim, saí para resolver as minhas multitarefas diárias.

À noite, já em casa, depois do banho, prontinha para dormir, tentei ligar para o Renan e saber se ele fez tudo correto. Não consegui, o telefone parecia fora de área.

(...)

Sabe aquele dia que deveríamos acordar leve e feliz? Ontem, resolvi vários problemas financeiros com o dinheiro da minha rescisão. Era para eu estar assim, levinha. Entretanto, uma angústia assolava meu peito.

Era por volta das oito da manhã, quando, pelo basculante do banheiro, avistei Zeca, cobrador do Trocacem adentrar o meu quintal. Antes dele bater à minha porta, saí do banheiro e a abri.

— O que você faz aqui a essa hora da manhã, Zeca?— fiz uma pergunta tão burra… Quanta idiotice ter dado o dinheiro nas mãos do Renan!

— O Troca mandou vir aqui, pegar a grana que tu disse que iria pagar ontem e não foi.

Respirei fundo, tentando absorver aquilo que meus ouvidos haviam escutado. Sabia que não era certo, mas já pensava o pior do Renan.

E sim, iria matá-lo!

Naquele momento, meu cabelo preto clareou na força do rancor. Me vi loira, loirinha dos olhos azuis, de ódio. Eu mataria o Renan, pegaria o corpo dele, picaria com o cutelo e daria aos porcos para comerem. Contudo, pensei, respirei, me acalmei e comecei a cogitar que algo poderia ter acontecido.

— Mandei o dinheiro ontem pelo Renan, vou ligar para ele e ver o que aconteceu. — Zeca apenas assentiu.

Tentei ligar várias vezes, mas o telefone não recebia nem mensagem, nem ligação. Como se estivesse desligado e sem internet.

— Agnes, o burburinho que está rolando lá na rua F, é que o Renan foi assaltado. Não deveria ter dado esse dinheiro nas mãos dele. — Ele me advertiu como se, a essa altura, adiantasse alguma porra.

— Mas se o Renan foi assaltado, foi uma fatalidade, não é culpa dele. — Banquei a retardada, o tipo de mulher que sofria abuso e estava na cara que o indivíduo era safado, mas ela sempre arrumava uma desculpa.

— O Troca não vai entender isso. Vai cobrar de você. E me desculpa, mas acho o Renan capaz de ter espalhado essa história só para fazer farra com o seu dinheiro. — Também achava, mas minha total falta de dignidade não queria confessar.

Queria ficar indignada com o Zeca e o pôr para fora a base de xingamentos, ele estava falando mal do meu homem. O que acontece é que não poderia pôr as minhas mãos no fogo pelo Renan.

Com certeza, elas virariam churrasco.

Pedi uma carona ao zeca até a rua F, iria até a casa do Renan aclarar toda essa história. E assim, o cobrador do agiota me levou.

Meu noivo morava em um local, que popularmente chamávamos de cabeça de porco. Era um quintal cheio de casa mal construída, onde todo mundo era parente. Desci do carro sem ao menos agradecer a carona ao Zeca, só o deixei ciente de que iria pegar o meu dinheiro com o Renan e levaria lá assim que saísse dali.

O barulho irritante do portão de ferro enferrujado fez com que o Linguiça viesse latindo em minha direção, agachei-me, lhe fazendo um carinho; me reconhecendo parou de latir e começou a usar a calda como espanador, abanando para tudo o que era lado. Estava magrelo, desnutrido e lotado de parasitas, mas era um cachorro e ser melhor no mundo não havia.

Meu noivo morava com a mãe, Sirleia. Minha sogra era uma coroa metida a novinha, do tipo pilantra e cachaceira. Na casa, também vivia seu irmão mais novo de sete anos, o Jonas. Quando abri a porta da casa, foi ele quem estava vidrado, jogando vídeo game na sala. Fiquei ali parada por alguns segundos, mas o garoto nem se moveu, hipnotizado jogando Fifa2019. Cansada de esperar que ele me notasse, adentrei de uma vez a casa e segui até o quarto do Renan. Meti a mão na maçaneta, a pressionando para baixo e empurrei a porta. Ao abrir, nada do bofe.

Cadê ele? Não era de acordar cedo…

Precisava encontrá-lo, não tinha jeito. Minha única alternativa era atrapalhar a diversão do Jonas. Voltei à sala e o chamei 1, 2, 3 vezes, mas o moleque viciado não me dava atenção. Foi aí que em um ato de desespero, apertei o botão power do aparelho.

— Poxa, Agnes! Porque você fez isso? — reclamou, batendo os pés. — O Mbappé iria bater o pênalti agora.

Não dei a mínima atenção para a criança. Tinha maiores problemas do que um jogo idiota.

— Foi a única maneira de você me dar atenção. Cadê o Renan, Jonas? — perguntei, tentando agilizar a situação.

— Não sei. — respondeu rápido, mas não me olhou nos olhos. Decerto, estava mentindo.

— Ele saiu cedo? — Insisti.

— Não sei. — O curumim continuava a sambar na minha cara.

— E a sua mãe?

— Não sei. — como se estivesse programado, respondeu outra vez.

— Você gosta de chocolate?

— Não sei. — Quando respondeu dessa vez, esticou a boca, como se tivesse feito besteira. E foi aí que percebi que tinha merda fedida por ali.

— Te peguei! O que está acontecendo, Jonas? Conta para mim. — pedi, tranquila.

Meio sem jeito, ele apertou as pequenas mãos, enquanto eu me ajoelhava diante dele.

— Se eu contar para você, promete não levar meu videogame?

Feito uma idiota, estranhando o pedido da criança, eu questionei:

— Porque eu tiraria seu videogame? — sorri, com a minha cara de imbecil.

Olhando ao redor, fui me dando conta do porquê da pergunta do Jonas. Até a semana passada, a TV da casa do Renan era uma porra muito antiga, de mil oitocentos e guaraná de rolha. Agora estava sobre a estante uma plana de 42 polegadas. Fora que tinha latões vazios de cerveja para tudo o que era lado.

Não tinha jeito. Eu iria matar o Renan!

— Você não é vadia. Não vai tirar meu videogame, não é?

— Ei! Não pode falar essa palavra. — O adverti. — E já disse que não irei tirar. Agora me conta, quem me chamou de vadia?

— Eu ouvi a Cristiana...

— Cristiana? — o interrompi. — Aquela chacrete que mora no final da rua? O que ela fazia aqui?

— Convidando todos para o churrasco que a vadia burra e chifruda da namorada do Renan estava bancando. — continuei o ouvindo falar. — Mas eu te defendi, Agnes, disse que não era vadia.

— Mas burra e chifruda, eu sou.

— É, você não é vadia. — Ele confirmou.

— Obrigada pela sinceridade. — ele apenas assentiu com um movimento. — Só mais uma pergunta, Jonas, você sabe onde o Renan dormiu?

— Minha mãe foi dormir com o namorado e alugou o quarto para ele. Tem ventilador de teto, o nosso não. — o moleque falou apontando a porta à minha frente.

Fui dando passos rápidos para assim, evitar o suspense desnecessário. Meti a mão na maçaneta e abri. Na altura do campeonato, já estava inteirada do que iria encontrar, e não foi nenhuma surpresa, o Renan junto da Chacrete de XVídeos, os dois peladões na cama da safada da minha sogra.

Ao abrir a porta, ambos tomaram um susto e pularam da cama, depois disso, o roteiro seguiu seu curso e meu noivo, como todo bom cafajeste, disse aquelas frases de merda que não convenciam ninguém:

“Amor, não é nada disso que você está pensando!”

“Amor, foi só dessa vez!”

“Amor, eu estava bêbado!”

Enfim… "Amor é o caralho!"

Olhando para ele e aquela vagaba de quinze reais, com cabelo de defunto e bunda de silicone de avião, pensei que se mereciam e eu iria sair daquele bafucá plena e belíssima, com a dignidade que me restava.

Não iria seguir roteiro.

Iria sair do óbvio.

Nada de barraco!

Eu já havia saído do quarto sem falar nada, mas ao me lembrar que amava clichês, retirei meu cinto, uma peça de couro legítimo, e voltei. Quando regressava ao quarto, Renan vinha atrás de mim colocando as calças, para encher meus ouvidos de mentiras.

Como se fosse um chicote, estalei o cinto com as duas mãos. Ainda pude ver o cafajeste à minha frente arregalar os olhos. Naquele momento, tinha certeza de que o espírito do Beto Carrero se apossou do meu corpo. Juro que pude até escutar a vinheta quando o Renan voou dois metros com a primeira chicotada que levou na cara:

“Beto Carrero...!”

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