Capítulo 5 4

Agnes Venâncio

Ficava pensando se só eu era uma peste quando criança, ou se mais alguém jogava sal na minhoca.

Era tão atentada que tinha o prazer em ver o pobre do anelídeo se contorcendo e pulando, por conta do sal lhe queimar o couro.

E foi com essa mesma satisfação que encurralei Renan e a Chacrete de quinze contos na parede. Os dois pulavam feito as minhocas que eu torturava. Ainda dominada pelo espírito do peão chicoteador, ouvia a Chacrete gritar de dor enquanto Renan tentava tirar o cinto da minha mão. Mas foi a vaca da Sirleia que chegou e impediu que eu tirasse a pele deles na base da cinturada.

— Você está louca, Agnes?! — Me sacudiu pelos ombros, tentando me fazer voltar a si.

Ela olhou para os dois ainda seminus, e com a porra de uma cara falsa a bicha velha, com tamanha cara de madeira, encenou à minha frente:

— O que está acontecendo aqui, Renan? E você, Cristiana, o que faz pelada aqui na minha casa? — Quanta cara de pau!

Ao presenciar a pessoa sambar na sua cara, lhe chamando de trouxa, na cara dura, você pensa: “Essa pessoa também merece uma cintada.” Entretanto, lembra que seus pais lhe deram educação e não devemos levantar as mãos para os mais velhos. Mas tinha certeza de que essa regra podia ser quebrada, quando a pessoa velha em questão vestia shortinho da Anitta, rasteirinha Melissa e cropped neon tipo nem. Aquele estilo de periguete barata que chama todo mundo pelo apelido de nem.

Se ela era novinha para se vestir assim, também era para apanhar.

Foi baseada nesse pensamento, que a velha safada tomou uma na cara, que a levou à lona. Ainda deu azar que o fecho do cinto bateu na pele dela e sangrou na hora.

— Chega! — O traíra gritou. — Agnes, nunca mais encoste o dedo na minha mãe, o que aconteceu aqui foi um erro. Cristiana, por favor, vai embora.

— Quê? Essa daí arruma o maior barraco e você manda eu ir embora?

Eu iria responder, mas o cafetão de puta pobre a mandou ir embora novamente.

Gemendo de dor, toda inchada, a vaca terminou rapidamente de pôr a roupa e saiu. Sirleia também foi, saiu me xingando e me rogando pragas, enquanto Renan se aproximava. Me adiantei, antes que ele começasse a defecar pela boca.

— Cadê o dinheiro do Trocacem? — Discorri bastante seca.

— Bebê, sei que você não vai acreditar em mim depois do meu deslize, mas juro que fui assaltado. — Mente que nem sente o desgraçado.

— Para mim, pouco importa! Dê seu jeito e arrume o dinheiro do Trocacem, senão vou a delegacia e dou parte de roubo. — afirmei de forma rude. — E nunca mais me chame de bebê.

Saí dali e tomei um ônibus. Fui procurar um lugar isolado. Eu tinha vergonha de mim mesma por querer chorar por um bofe que não valia a farofa de um ebó de encruzilhada.

A praia de Grumari era o local perfeito onde eu enterraria minha vergonha junto às lágrimas que escorriam do meu rosto naquele momento, naquela areia alva de praia.

Após passar um longo período sentada observando o mar, deixando que a espuma de quebra das ondas lavassem os meus pés, me lembrei que tinha um compromisso não cumprido com Trocacem, o agiota sanguinário e temido da área.

Que merda!

(...)

Já era final de tarde quando cheguei em casa, havia desligado o celular e não queria falar com ninguém. A intenção era tomar um banho e depois ir até o Trocacem implorar por clemência.

Adentrei o quintal e observei as luzes acesas. Minha porta foi arrombada e tudo estava revirado.

Fizeram uma zona do caralho!

No espelho do banheiro, um recado escrito com o meu batom:

“Atende o celular, sua piranha.”

Rapidamente, liguei o aparelho, com certeza o agiota estava pensando que fugi. Meu celular chegou a travar com a quantidade de mensagens dizendo que um telefone de número desconhecido me ligou.

Como iria retornar, se o imbecil me ligou de número restrito? Assustada, me lembrei do Zeca e liguei para ele.

— Alô, Zeca! É a Agnes.

— Menina, onde você se meteu? — Ele tinha um tom de preocupação na voz.

— Uma longa história. Quero falar com o Troca, pedir mais um tempo, parcelamento, sei lá.

— Talvez não seja uma boa ideia. Sirleia falou ao Troca que você pediu ao Renan para inventar que deu o dinheiro na mão dele e foi assaltado.

— O quê? Velha safada. Mas ele acreditou na velha pilantra?

— Não sei se acreditou. Acho que preferiu acreditar. Era o mais conveniente.

— Porquê? Sempre fui correta.

— Dor de cotovelo, Agnes. Você o rejeitou quando lhe propôs ser a “rainha do bairro”. E agora ele só pensa em lhe ter, nem que seja à força.

— Quanta palhaçada! — senti-me chocada.

— Quer um conselho, Agnes? — O escutei com atenção. — Você é uma jovem de 21 anos sozinha em casa, vá para a casa de parentes, de um amigo e só volte aqui quando estiver com esse dinheiro.

— Você está exagerando, Zeca. Amanhã é sexta, meu irmão vem do internato. Além do mais, se o Trocacem me matar, ficará sem o dinheiro.

— Ele não irá te matar, Agnes. Troca quer você para ele, aliás, sempre quis.

— Obrigada, Zeca. Vou ver o que faço aqui.

Com certeza o Zeca estava exagerando. O que ele achava que o Trocacem iria fazer? Me pegar à força? Tipo os livros de aplicativo online: “Sequestrada Por Um Traficante”? Eu seria a “Sequestrada Por Um Agiota”. Achava graça da minha desgraça.

Quando ainda divagava em meus pensamentos sarcásticos, chegou uma mensagem no aplicativo da bola verde. Ao abrir, o que tinha escrito ali me congelou a espinha. Foi aí que percebi estar metida em uma encrenca grande e o Zeca tinha razão.

“Ou traz o meu dinheiro hoje, ou vai pagar com a boceta pelo resto da vida.”

No minuto seguinte, fiz minha mochila com algumas roupas e parti para a casa da Yasmin.

(...)

— Eu te avisei que o bofe não prestava. — Yasmin repetia essa frase como um papagaio nos meus ouvidos.

— Ai, chega! Já sei que você estava certa, mas não adianta encher meus ouvidos. Preciso arrumar essa grana.

— Também já te falei como. — Ela sentou no sofá e cruzou as pernas.

— E eu já te falei que não sirvo para isso. Pensa no desgosto da dona Virgínia… O meu pai lá do céu me vendo fazer algo assim…

— Sua mãe não precisa saber, Agnes. Diz que está trabalhando em um restaurante chique, que lá só vende Carpaccio, carne crua.

— Engraçadinha! Mesmo assim, quantos programas teria que fazer para conseguir seis mil e quinhentos reais?

— Te garanto que se leiloarmos seu cu virgem, mona, conseguimos de quatro a cinco mil e o resto, tenho para te emprestar.

— Cinco mil por um edí? — me espantei com o valor.

— Virgem, mona. Mas de qualquer forma  — Yasmin levantou o dedo como se fosse falar algo importante. — Cu é luxo, meu amor! Boceta é lixo!

— Credo, a minha não é, não.

— Mona, só quero dizer que boceta qualquer uma dá.

Eu pensei, pensei e repensei. Não tinha saída para mim. O que iria fazer? Desempregada, com o nome todo cagado, minha mãe debilitada, resolvi aceitar a proposta da Yasmin.

Minha amiga loiruda pegou o celular e clicou em um aplicativo que dizia: Açougue Prazeres da Carne, um baita deboche esse nome, por sinal. Yasmim já tinha muitas fotos minhas, das nossas baladinhas. Mesmo assim, ela me fez tirar umas mais provocantes.

Sentada ao seu lado no sofá, eu observava os usuários, parecia ser só gente da alta. Yasmin postou umas fotos minhas e anunciou o leilão do meu edí. Rapidamente, começaram os lances. Segundo ela, como em um leilão normal, devia-se pagar de forma on-line a parte do leiloeiro. E tudo aqui devia ter total discrição da parte dos usuários.

Passaram-se dez minutos e meu brioco já valia mais de dois mil. A briga estava entre um ministro, um empresário e um nerd. Yasmin me garantiu que os membros daquele aplicativo não podiam mentir no perfil.

Nada de fake!

E meu edí foi arrematado pelo senhor Ministro da Economia. Automaticamente, já veio a mensagem dizendo hora e lugar que devia me encontrar com o senhor em questão. Se alguém pensou que a minha vida estava parecendo um bafucá de novela das oito, iria perceber… Que nada era tão ruim, que não pudesse piorar.

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