Capítulo 6 5
Alfa Romeo
Quando o alvo se hospedava na cobertura, ele se isolava de todo o hotel e facilitava muito o meu trabalho. Não precisava criar grandes estratégias que me levassem com mais facilidade até o moribundo. Qualquer quarto abaixo, me deixava onde a pessoa se encontrava.
Proteger a imagem com segurança requeria um cuidado minucioso. Além da roupa toda preta, da touca ninja, usava óculos bastante escuros, não deixando nenhuma lembrança minha a ninguém.
Meu trabalho poderia ser visto por muitos como execrável, entretanto, para mim, era um ofício como qualquer outro.
Eu matava gente. Matava por necessidade e dinheiro.
Como os donos de abatedouros matavam animais. Ou os engenheiros civis, acabando com a botânica do planeta. A diferença de mim para eles, é que eu exterminava a espécie de menor valor no mundo.
A humana.
Mesmo assim, não sentia orgulho por isso, mas também não tinha remorsos.
Tudo bem. Tinha o tal código de ética. Para aceitar o serviço, o contratante tinha que me mostrar bem mais do que dinheiro e seus motivos pessoais.
Resumindo, o alvo tinha que ser alguém que não prestasse, que não valesse uma chita barata.
E como já havia dito, a raça humana era a pior espécie que existia. Fácil encontrar gente com histórico condenável.
"Maurício Farias, Ministro da Economia. No último mandato, roubou 1 bilhão da saúde, com esse desvio de verbas, matou mais gente no Brasil do que Saddam no Iraque."
O alvo desse serviço era alguém importante, se fosse o tipo de homem que temia muito pela vida, provavelmente eu teria bastante trabalho, pois haveria seguranças com ele no quarto.
Enquanto o senhor ministro cumpria sua agenda no Rio de Janeiro, entrei na cobertura e preparei para que tudo saísse como planejado.
E eu nunca errava. Ao menos, até agora.
Já me encontrava no recinto, mesmo antes do alvo chegar. Pude ver pelo sistema que um segurança ficaria com ele lá fora, enquanto o outro faria a revista do ambiente, e em um jogo de gato e rato, o brutamontes entrava por uma porta e eu saía a passos leves pela outra.
A revista dele não foi lá das melhores, na verdade, foi uma porcaria, erro clássico de rotina. Fazia diariamente a mesma coisa e nunca se surpreendia, achando que sempre seria assim. O que fazia dele um imbecil.
Muito músculo e pouco cérebro.
Logo após o segurança deixar o recinto e se juntar ao outro brutamontes do lado de fora, abri o celular com a câmera que instalei no local, fiquei no aguardo, observando a situação. Tinha que esperar o serviço de quarto que o quase defunto solicitou, para assim, evitar surpresas. Além de executar o homem, tinha que pegar algo que interferia diretamente na segurança nacional.
Enquanto o ministro se despia, a campainha ressoava, obviamente o serviço de quarto. Os minutos finais deste assassino ladrão estavam contados.
Pelo celular, vi o cumim empurrar o carrinho com a prataria para dentro do quarto, pelo ângulo até onde a câmera pegava, era certeza que se dirigiu à mesa da varanda, onde o homem pretendia jantar.
Não tinha o porque de ser benévolo e deixá-lo fazer a última refeição, ajudou a matar muita gente, o mandaria para o além naquele momento. Cuidadosamente, puxei a pistola do coldre e pus o supressor, quando meti a mão na maçaneta, a campainha soou novamente.
Abri o celular, precisava ver quem era a pessoa que atrapalhava aquele momento. Sorrindo e todo galante, o ministro abriu a porta, dando passagem para a mulher entrar. Roupa vulgar e andar de cobra indiana entregava.
Era uma prostituta.
Agora, tinha que apelar para a sorte, que o homem fosse como um galo e acabasse tudo em três minutos.
Eles conversavam, riam…
Ele recebeu uma ligação e foi atender na varanda, enquanto ela bebia como se o mundo fosse acabar em álcool.
Imaginava como estava o fígado dessa criatura.
Ele voltou, deu à mulher um maço de dinheiro, caneta e um pedaço de papel, ela anotou alguma coisa e ele guardou o papel.
Neste momento, parecia que eu faria o pior voyeur de toda minha vida, não por ela, que estava se despindo, mesmo pelo celular, dava para ver que suas formas eram sinuosas, como um convite para qualquer homem.
Olhando a tela do aparelho, recebi a mensagem de Limousine. Já sabia que era problema.
"Alfa Romeo, tem 20 minutos para executar o serviço. Interceptamos uma conversa do alvo e tem alguém indo para aí buscar o micro."
"Droga! Ele está com uma civil." contestei.
"Dane-se! Sabe muito bem o que tem que fazer, nada de testemunhas."
"Não mato pessoas inocentes, sabe disso."
"Impacto Colateral, meu caro, sempre existe em situações críticas. Agora só tem 18 minutos."
Fechei o aplicativo de mensagens, com raiva, porém, infelizmente, Limousine estava certa e eu teria que matar a moça.
Saí do quarto com a arma em punho na altura do peito, a cena à minha frente não era muito agradável. O ministro tinha as nádegas expostas, brancas, flácidas e esburacadas.
O alvo estava em pé, nu à minha frente, enquanto a mulher se encontrava de quatro na cama à frente dele, com o homem tentando invadi-la por trás. No exato momento que iria conseguir, acabei com a alegria dele. Apertei o gatilho na nuca à queima roupa. Arma de calibre potente, abriu um buraco que transpassou para o outro lado, espirrando miolo e sangue na cabeceira da cama e no corpo nu da mulher.
Agora tinha chegado a vez dela. Se virou, jogando o corpo do ministro no chão, seu espanto era total, o medo e a surpresa que sentira naquele momento parecia quase palpável. Minha mão estava no gatilho e a arma em riste, mirada ao centro da testa dela, mas não.
Não poderia matar aquela jovem.
