Capítulo 7 6

Agnes Venâncio

Fechei meus olhos querendo que quando os abrisse, tudo não passasse de um sonho. Com certeza, estava dormindo, isso tudo era um horroroso pesadelo.

Banquei a iludida em estado de negação.

Não tinha sangue em cima de mim.

O ministro escova não estava morto.

E o Sub-Zero não estava na minha frente. Já que nunca gostei de Mortal Kombat, não tinha porquê sonhar com isso.

Foi com esse pensamento que abri os olhos e de nada adiantou. O Sub-Zero continuava à minha frente com uma peça apontando o cano para a minha testa.

Era tudo real.

Em pleno verão carioca, o meu queixo batia como se eu estivesse na Patagônia agarrada a um pinguim.

— P-P-Por f-favor, n-não m-me m-mate… — implorei, gaguejando feito uma franga, pronta para o abate.

Estava pelada, amordaçada, xoxada e aterrorizada!

O homem elevou a mão direita e pôs o dedo indicador sobre a boca, gesticulando silêncio, Pegou o mesmo indicador e passou em volta do pescoço de um lado para o outro. Não era uma gênia, entretanto, não era difícil saber o que ele gesticulou.

Se abrisse minha bocona, ele cortaria minha garganta.

Sem dar um pio, o homem todo de preto sacou uma algema e prendeu um dos meus braços à cabeceira. Após isso, ele começou a vasculhar os pertences do ministro.

Com uma certa urgência, olhando a todo momento para o relógio, sacudiu peça por peça de roupa, vistoriou todos os compartimentos da mala, olhou cada canto da carteira, jogando os documentos do ministro na cama.

Não encontrou o que procurava.

Avistou minha bolsa em cima da mesa, também se pôs a revirar. Jogou tudo em cima da cama, assim como havia feito com os pertences do ministro. Sabia que era egoísmo da minha parte, mas eu fiquei loirinha quando ele meteu a mão no maço de dinheiro preso com o pedaço de papel. Rezei que ele não roubasse.

Virou o maço para um lado e para o outro, e para minha sorte, o devolveu à minha bolsa, junto com quase tudo que havia jogado em cima do colchão.

A única coisa que ele ficou nas mãos foi meu celular velho.

Uffa! Respirei aliviada.

Espera aí! Como podia me sentir aliviada, se tudo ao meu redor estava um caos? De que adiantava esse dinheiro, caso eu não saísse viva dessa para pagar o Trocacem?

A personificação do Sub-Zero sacou uma fita cinza do bolso. A cama era enorme, parecia caber quatro casais, eu estava na ponta direita e o defunto caído ao chão. Comecei a ficar nervosa quando o homem todo de preto subiu na cama e engatinhou por cima do meu corpo nu, sem encostar em mim. Ele enfiou um lenço na minha boca e pôs a fita, me deixando totalmente muda. Saiu de cima da cama, voltou para os pertences do ministro e também pegou o aparelho dele.

O vi ir para a sacada do hotel e com certeza ele pulou do prédio.

Como assim? Estávamos no mínimo a 30 metros de altura!

Mas já foi tarde. Torci para que tivesse se despedaçado lá embaixo. Juro que se meu intestino não fosse preguiçoso, não fizesse uma nena tipo pedra, teria me borrado toda com essa situação.

(...)

Pelada e apavorada, era assim que eu estava. Queria muito conseguir puxar o lençol com a mão que estava livre, ao menos cobriria parte da minha vergonha. No entanto, parecia que as camareiras de hotel colavam o objeto na cama.

Tocaram a campainha, não sabia se ficava feliz, ou se arrumava um jeito de virar um tatu e ir para debaixo da terra, já que estava com minha mapoa toda exposta.

A campainha tocou mais uma vez, e mais uma. Como ninguém atendeu, ouvi muitos passos vindo em minha direção.

Os dois seguranças, trajados de ternos e feições rígidas, estavam na porta quando cheguei e agora apontavam armas para mim. O outro homem de meia-idade bem alinhado que estava com ele, exclamou diante da situação:

— Que porra! O que aconteceu aqui? Puta merda! — exclamou com raiva. — Levaram o microchip.

Ouvi bem? O cara viu o ministro morto e estava preocupado com um chip?

"Quem sou eu para julgar? Só estou preocupada com o dinheiro."

— Vou ligar para a polícia. — um dos seguranças informou.

— Não. — o homem alinhado falou alterado. — Ainda não. Deixa eu só dar uma palavrinha com a moça.

O que eu mais queria era pôr uma roupa, estava me incomodando um dos seguranças olhando fixamente para Hitler.

Sim, essa semana tinha em mente que minha mapoa iria ser fuzilada pelo pulha do Renan. Aí fiz uma depilação diferente.

A única coisa que o desgraçado fuzilou foi meu dinheiro e dignidade.

O homem se aproximou.

— Vou tirar esse adesivo da sua boca, ok?

Balancei a cabeça para que ele o fizesse rapidamente. O homem puxou o adesivo de uma só vez enquanto eu cuspia o lenço de dentro da minha boca.

— O senhor poderia me vestir? — pedi em meio a uma respiração oscilante, enquanto sentia o suor escorrer pelo meu rosto.

— Não posso mexer na cena do crime, amorzinho. — falou enquanto me oferecia um lençol.— O máximo que posso te dar. — Já era alguma coisa.

— Chamaram a polícia, o bombeiro, para cortar essas algemas e eu ir embora daqui? — alterei bastante minha voz, estava perdendo o controle.

— Se acalma, moça. Preciso te fazer umas perguntas rápidas. — senti uma fisgada no meu peito. — Qual o seu nome?

— Meu nome?

— Sim, seu nome? — respondeu impaciente.

— Dalla. — achei melhor falar o inventado do que o verdadeiro.

— Dalla. — o homem enrolou para falar e isso me irritou, ainda mais que estava presa, cheia de sangue de defunto. — Eu estou pouco me fodendo para quem matou o verme do Farias, mas ele tinha algo que me pertence em seu poder. Um microchip, você viu o assassino sair com ele daqui?

— A única coisa que vi, foi ele revirar os pertences do senhor Maurício e o meu. Não o vi pegar nada e acho que saiu daqui puto por isso e se suicidou, pulando do prédio. — não iria falar que ele levou os telefones, não era X9.

— E como esse tal homem era? — Ele insistiu.

Aquele não era o momento de bancar a afrontosa, contudo, aquela situação estava me deixando por um fio.

— Ué! Não disse que não te interessava?

— Se ele estiver com algo que me pertence, me interessa.

Enquanto o coroa alinhado me interrogava, os brutamontes que trabalhavam para o defunto passavam o pente fino no lugar, com certeza deviam ter se vendido.

— O senhor já jogou Mortal Kombat?

— O quê? — me perguntou com as sobrancelhas eriçadas, como se eu estivesse viajando.

— Mortal Kombat! Fatality, Animality. O senhor já jogou, já viu o filme?

— Sim, já joguei. — continuou a me olhar com expressão de total estranheza.

— Conseguia ver o rosto do Sub-Zero?

— O que isso tem a ver agora?

— Conseguia ou não conseguia?

— Não. Não conseguia.

— Exatamente como eu e esse assassino que esteve aqui. Não vi nada. Além de uma estrutura masculina, todo de preto. Não sei nem a cor de sua pele, estava de óculos e luvas.

— Droga! Alguém da elite.

— Agora, por favor, ligue para os bombeiros! Preciso que alguém me tire daqui. Quero ir para casa já.

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