Capítulo 9 8
Alfa Romeo
Realmente, eu perdia o equilíbrio quando as coisas não davam certo. Por conta do imprevisto, falhei na minha última missão. Não conseguia me organizar no trabalho se eu estiver com pendências. Nenhum dos dois celulares estavam com esse microchip, nem o da jovem, nem o do ministro, então eu falhei.
Falhei em parte.
Maurício Farias estava morto, o problema era não ter achado o tal chip que todos estavam feito abutres atrás. Deixei uma jovem viva. Por causa da minha falha, a vida dela iria virar um inferno, até que encontrassem esse chip e a matassem. Talvez fosse torturada por algo que não tinha ideia do que seria.
Na verdade, nem eu tinha.
Limousine falava o tempo inteiro em segurança nacional. Mas o que havia nesse chip que todos estavam atrás? Alguém andou fazendo uma sujeira muito podre com o nome do país, isso era certo.
Observei meu celular vibrar em cima da mesa, certamente uma mensagem. Assim que abri, me surpreendi. Um número que não estava na minha agenda. Geralmente, não atenderia, mas a pessoa me chamou pelo meu nome de guerra.
“Boa tarde, Alfa Romeo.”
“Boa tarde. O que quer e como sabe meu nome e número?”
“Quero te contratar e o Porsche me deu seu nome e número, como ele está fora do país, falou que você é o cara certo para executar esse serviço.”
“Não está fora do país, está fora de combate, depois da lambança de matar o motorista junto da vereadora. Não pego serviços por fora da organização, ainda mais indicados pelo Porsche.”
“1.000.000,00. Já observou quantos zeros tem aqui, meu amigo? Sei que, pela organização, seria pago metade disso e dividido entre você e eles, porém, quero alguém motivado.”
“Se eu decidisse aceitar, qual seria o serviço?”
“O microchip.”
“Terei que rejeitar, já me pagaram por esse serviço.”
“2.000.000,00.”
“Mais uma mensagem e você vira meu alvo. Não vou pegar o serviço por valor algum.”
Encerrei a conversa e esperava que o homem por trás da tecnologia tivesse entendido.
Essa história desse chip estava me enchendo a paciência, me tirando do controle. Iria organizar meu trabalho da semana, tomar um banho e pensar onde e com quem ele poderia estar.
Logo após o trabalho organizado e o banho tomado, a comida estava a caminho, uma barca japonesa só para mim. Enquanto aguardava o delivery que iria acalmar o leão que rugia no meu estômago, liguei a TV para saber as patranhas que estavam falando em torno da morte do ministro.
Fui passando os canais e todos informavam o mesmo. O que vi era péssimo, a cara da jovem estampada em todas as emissoras. Alguém vazou a identidade dela.
Estava em apuros.
(...)
Agnes Venâncio
Dormi feito um urso na casa da Yasmim, quando acordei, ela já não estava. Tomei um banho, peguei minhas coisas e vim para casa. Agora era acertar a vida. Pagar o Trocacem, cuidar da minha mãe e arrumar um novo emprego.
Sentei na poltrona e pus minha bolsa no colo. De dentro dela, retirei dois maços de dinheiro, um com elástico com o valor de mil e quinhentos reais, que a Yasmim me emprestou, e o outro com papel, no valor de cinco mil, pagos pelo ministro.
Que Deus o tenha!
Juntei todo o dinheiro e conferi, estava certinho e me livraria daquele homem. Pus todo o dinheiro no elástico e peguei o papel para jogar fora, assim que o amassei para jogar na lixeira, senti algo durinho. Desamassei o papel novamente e não tinha nada, o virei do avesso e nada.
Foi então que percebi que ali haviam duas tiras de papéis, uma colada a outra. Peguei a unha e pus na emenda, abrindo com cautela destaquei as duas tiras. Vi quando algo preto e leve caiu no meu piso, agachei e peguei, era o tal microchip. Ao olhar as tiras novamente, em uma delas tinha uma mensagem, era do Ministro.
“Cara colega, se você está lendo isso agora e eu não te liguei atrás desse microchip, é porque estou morto. Destrua esse chip sem ver o conteúdo. Caso veja, será testemunha do que tem ali e sua vida estará em perigo. Não copie, não conte a ninguém, negue até o fim.”
O que era isso? Um filme de terror? Será que a Samara parou de sair do e-mail e da fita K7, agora atacava pelo microchip?
Mas tudo bem, já que eu não tinha sorte e o defunto mandou destruir.
Iria destruir, então.
Vai que ao invés da Samara, saía de dentro desse chip, o próprio, com o Ocani D querendo arrancar minhas pregas, cobrando pelo serviço que pagou e não teve tempo de concluir…
O terror seria muito pior.
Andei até o banheiro com a intenção de jogar no vaso e dar descarga. Por um breve momento, me veio uma lógica na cabeça. Se iria mentir que não vi esse chip, podia mentir também que não vi o conteúdo que estava dentro dele.
Por isso, era melhor dar uma espiadinha e matar a curiosidade. Comecei a pensar onde iria ver o conteúdo que tinha dentro dele.
Aquele filho da puta do Sub-Zero roubou meu celular. Lembrei que tinha um suporte daquele chip, era só encaixar no computador. Peguei tudo o que precisava e sentei à frente do desktop.
— Leu, que máximo! — falei comigo mesma.
Cliquei no vídeo e, como meu computador era lerdo, demorava a abrir. Fui até a cozinha pegar algo para beber. Ao voltar, o vídeo já estava rolando no computador, eu cheirei meu copo para ter certeza de que o que eu bebia era água e, não, ardente.
Bati na minha cara.
Belisquei meu braço.
E mordi meu dedo.
Não tinha jeito, aquilo que eu estava vendo era real.
Era ele que estava naquele vídeo, o próprio.
O que podia dizer era que naquele micro tinha nitroglicerina pura.
Meu copo se espatifou no chão quando o deixei cair, ao perceber que alguém adentrou o meu quintal.
Ninguém poderia ver aquilo.
