Capítulo 1
Ivy
A neve se agarra ao campus da Universidade de Northvale como uma segunda pele. Ela cintila sob o brilho das luzes de Natal piscando. Aperto meu casaco fino contra o corpo e resmungo por causa do frio enquanto puxo a pesada porta de carvalho da biblioteca para fechá-la atrás de mim. Turno de fechamento à meia-noite, de novo. Claro.
Do outro lado do pátio, estudantes saem das fraternidades com seus copos vermelhos, berrando canções de Natal desafinadas no topo dos pulmões. Mesmo em plena semana de provas finais de dezembro, a realeza do campus continua festejando. Ajustando a alça da mochila, mantenho a cabeça baixa. Talvez, se eu andar rápido o bastante, consiga evitar que alguém repare na garota bolsista atravessando o campus a passos pesados. Consiga evitar as risadas e as provocações enquanto sigo em direção ao meu dormitório.
O Natal é a pior época. Enquanto meus colegas de classe viajam para Aspen ou Flórida, eu conto as gorjetas do café e registro horas na biblioteca. Não tenho amigos. Ninguém ousaria fazer amizade com o caso de caridade da universidade, e, para piorar, também não tenho família. A última mensagem de texto da minha mãe foi há quatro anos. Ela estava feliz por me ver partir da nossa alcateia. Agora está livre da vergonha da família.
Uma rajada de vento traz do Mercado de Fim de Ano, do outro lado do pátio, um cheiro de agulhas de pinheiro e castanhas assadas. Era para ser reconfortante. Em vez disso, faz a nuca formigar. Como se alguém estivesse me observando.
Balanço a cabeça, tentando me livrar da sensação. Estou só cansada.
Dentro da minha mochila, a ponta do meu trabalho final espeta minhas costelas. Lembrando-me de que ele só está pela metade. Linhagem Extinta e Lobos Míticos: Uma Revisão Crítica. É para minha disciplina eletiva de História Sobrenatural, a única aula de que eu gosto. O professor Garrison acredita que isso é um interesse acadêmico meu, mas, se soubesse, entenderia que é pessoal. É um tema que me tira o sono, e não consigo voltar para o dormitório rápido o bastante para pesquisar mais.
Duas garotas passam por mim cambaleando em vestidos brilhantes. Elas cochicham e riem.
— Os Três Reis vêm hoje à noite — diz uma delas. — Cole vai acabar com todo mundo no torneio de hóquei de inverno.
— O Jaxton pode jogar? — pergunta a outra. — Ouvi dizer que ele estava em liberdade condicional.
Os olhos da primeira garota brilham de empolgação.
— Acabou de terminar. Ele também vai estar lá, e o Elias vai dar uma pausa nas pesquisas para aparecer.
Reviro os olhos, mas não consigo evitar escutar. Todo mundo conhece os Três Reis: Cole Harding, Jaxon Black e Elias Thorne. Três alcateias diferentes. Três estilos diferentes. Mas, juntos, eles dominam a cena social de Northvale. Algumas pessoas dizem que eles já eram Alfas, só estavam esperando herdar o posto depois da formatura. Nunca falei com eles, mas conheço seus rostos, assim como todo mundo no campus. Cole com seu sorriso juvenil, Jaxon com suas tatuagens e sua motocicleta, e Elias com seus óculos de aro prateado e seu olhar perturbador.
Chego à beira do campus central, agradecida por ter evitado os estudantes bêbados. A neve range sob minhas botas. A lua paira enorme, cheia e pálida por trás das nuvens à deriva. Meu pulso martela no peito. Sinto de novo a pressão tênue de um olhar sobre a minha pele.
Minha audição tem estado estranha há várias semanas. Não só mais aguçada, mas diferente. Consigo ouvir as garras de um esquilo na casca da árvore, soando como tiros. O gemido do elevador do alojamento parece perfurar meu crânio. Já fui ao médico do campus. Ele me garantiu que não passa de estresse. Mas ele está errado. É um pesadelo aterrorizante.
Uma sombra se move perto dos abetos do outro lado do caminho.
Eu congelo. A figura é alta, curvada, e veste um casaco com o capuz puxado para baixo. Não consigo ver seu rosto; a cabeça está inclinada na minha direção. Um brilho amarelo capta a luz da lua. É a tela de um celular? Ou talvez olhos?
— Ei! — chamo, tentando soar corajosa, mas minha voz falha.
A figura recua e se dissolve na escuridão.
Eu me viro e começo a andar rápido. Meus livros escorregam no gelo negro. Quase caio, mas consigo me segurar num poste. Meus dedos agarram a fita de veludo vermelho enrolada nele, e ela se solta. Eu me prendo ao metal, tentando recuperar o fôlego enquanto ele se condensa no ar à minha frente.
— Controle-se — rosno para mim mesma. — Você não está mais lá. Está segura.
Meu celular vibra no bolso, certamente uma notificação do ponto da biblioteca. Ignorando-o, tiro as luvas do bolso, precisando aquecer as mãos. Luto contra a vontade de ligar para minha colega de quarto. Não quero parecer paranoica. De novo, não.
Em algum lugar bem longe, um uivo se ergue à distância. É fraco e débil. Provavelmente só um cachorro. Espero que sim.
Meu coração bate contra as costelas.
Ando mais depressa, cortando caminho entre o prédio de ciências e o centro estudantil. As luzes das janelas iluminam a passagem à minha frente. Quase consigo ouvir um segundo par de passos atrás dos meus, lentos e deliberados. Toda vez que paro para escutar, o som desaparece.
Quando chego aos degraus do meu alojamento, estou praticamente correndo. Passo o cartão, tropeço para entrar, e a porta bate atrás de mim.
O calor do saguão me atinge como uma onda, trazendo o cheiro de chocolate quente da máquina automática. Apoio as costas na parede, de olhos fechados. Tento desacelerar a respiração, mas minhas mãos não param de tremer. Digo a mim mesma que é só o frio, embora eu saiba que é mentira.
Acima da recepção, uma TV transmite os melhores momentos do jogo de hóquei do fim de semana. O rosto de Cole Harding aparece na tela. As bochechas coradas da partida, e uma tatuagem de lobo despontando da gola. Ele sorri como se fosse dono do mundo, e isso me faz odiá-lo.
Solto um resmungo pelo nariz.
— Ele está em todo lugar.
Sigo para a escadaria, com o eco do uivo ainda ressoando nos meus ouvidos. Sussurro para mim mesma enquanto subo os degraus, um por um.
— Só mais uma semana até o recesso. Você consegue.
Mas, no fundo da minha mente, algo se agita. Garras arranham o interior do meu crânio, e uma voz rouca sussurra: 'CORRA!'
