Capítulo 2

Ivy

O diretório acadêmico cheira a expresso e canela. Luzinhas piscantes pendem das vigas do teto, e flocos de neve de papel giram preguiçosamente nas saídas de ar. A semana de provas finais transformou o café numa segunda biblioteca. Há laptops por toda parte, estudantes curvados sobre fichas de estudo, música tocando sob o zumbido de conversas baixas. Eu queria poder estar estudando com eles, mas a minha bolsa só cobre até certo ponto.

Amarro o avental do Northvale Café na cintura e empurro a portinha de vaivém rumo ao balcão. A máquina de café sibila como um gato bravo. Estou no turno desde o amanhecer, depois de um turno da meia-noite na biblioteca. Minhas pálpebras parecem lixa, e eu luto para mantê-las abertas.

— Próximo — chamo, esticando o meu sorriso mais falso.

Dois caras de fraternidade abrem caminho a cotoveladas até o caixa. Os dois com copos vermelhos na mão, ainda meio bêbados da noite anterior. Reconheço um deles do time de hóquei e o outro da minha aula de inglês. É o que vive dormindo lá no fundo.

Eles me analisam de cima a baixo com um sorrisinho enquanto puxam os celulares do bolso. Finjo que não vou ser o alvo da próxima piada deles. — Como posso ajudar hoje?

— Latte de caramelo, com chantilly extra — ele fala arrastado. Os olhos param na minha plaquinha. — E talvez seu número, Ivy?

Eu me reteso, desconfortável, e o sorriso falso some dos meus lábios. — Latte de caramelo. Mais alguma coisa?

— Sim — diz o outro. — Sorri, docinho.

Minha carranca se aprofunda. — Desculpa. Acabaram os sorrisos.

Ele dobra uma nota de um dólar na mão e se estica por cima do balcão, enfiando-a no meu avental. — Isso deve comprar um sorrisinho.

Minhas bochechas queimam, e minhas mãos coçam para atravessar o balcão e dar um tapa na cara dele. Em vez disso, baixo a cabeça, pego um copo e me concentro na minha letra, não na risada deles. Eu já devia estar acostumada, mas parece que nunca fica mais fácil.

— Sai — corta uma voz nova, num tom baixo e firme.

Os dois caras de fraternidade se viram. Erguendo-se atrás deles está um garoto com uma camisa de hóquei, ombros largos e covinhas lindas. Ele tem o tipo de sorriso que devia parar em capa de revista. Cole Harding. Astro do hóquei. Realeza do campus. O Garoto de Ouro.

— Tem algum problema? — pergunta Cole. Ele mantém a voz controlada; não chega a ser uma ameaça, mas é um desafio do mesmo jeito.

Os dois se remexem, de um pé para o outro, e resmungam entre dentes. — Não.

Eles saem de fininho em direção ao balcão de condimentos, mas continuam de olho em mim.

Cole volta a atenção para mim. De perto, os olhos dele são de um dourado pálido impressionante, com pontinhos perfeitos de verde. O cabelo está bagunçado, como se ele tivesse acabado de sair do treino, com neve ainda derretendo nos ombros.

— Você está bem? — ele pergunta.

— Estou bem. — Volto para o caixa, sem ousar encarar aqueles olhos de novo. — O que você vai querer?

Ele se apoia no balcão, me estudando como se estivesse tentando descobrir onde eu me encaixo na vida dele. — Só café. Preto.

Eu passo a compra e finjo que não o conheço. “Nome?”

Ele dá um meio sorriso, e a covinha na bochecha fica mais funda. “Cole.”

Todo mundo no campus sabe o nome dele, mas protocolo é protocolo. “Tá”, eu digo, rabiscando no copo.

Ele paga em dinheiro e deixa uma gorjeta no pote. Uma nota de vinte, não de um, e se afasta. Ele me observa enquanto eu preparo o café, como se estivesse tentando decorar meus movimentos.

Quando eu entrego o café, nossos dedos se encostam de leve. Uma estática salta entre nós, um estalo que me faz puxar o ar com força. Os olhos dele oscilam até os meus, e um vinco puxa seus lábios. Ele se vira depressa, desaparecendo pela porta da frente, e meus olhos ficam grudados nela. Torcendo para ele entrar de novo.

Fico no balcão por um minuto inteiro antes de perceber que os caras da fraternidade foram embora sem as bebidas. Eu me viro para a máquina de espresso com as mãos tremendo. O cheiro de Cole gruda em mim: pinho e almíscar. A cada inspiração, fica mais difícil respirar.

Alguém toca no meu ombro, e eu me viro de supetão e encontro Jane atrás de mim. “Daqui eu assumo. Vai descansar um pouco.”

Solto um suspiro de alívio. “Obrigada.”

Ao sair do centro estudantil, puxo minhas luvas finas e puídas para as mãos.

“Ei”, uma voz grave me chama.

Eu me viro e vejo Cole encostado na esquina do prédio. Meus olhos se arregalam, e eu aceno de um jeito idiota na direção dele. “Oi.”

Antes que eu faça mais alguma coisa constrangedora, eu me viro rápido, indo na direção errada, mas Cole dá uma trotada para acompanhar meu passo. O olhar dele vai para minhas luvas antes de ele tirar as próprias luvas de couro das mãos. “Fica com estas. Tá um frio de rachar.”

Eu pisco. “Eu não posso.”

Ele enfia as luvas nas minhas mãos. “Pode, sim. Eu tenho outras.”

Meus dedos se fecham em volta das luvas, e eu engulo em seco. “Obrigada.”

Ele sorri — não aquele sorriso convencido dos pôsteres de hóquei, mas algo mais suave. “De nada, Ivy.”

Minha cabeça se ergue num solavanco. “Como você sabe meu nome?”

O dedo dele toca meu peito. “Crachá.”

Eu noto o jeito que a pele dele se enruga ao redor do olho quando sorri, e me pego sorrindo de volta. Quando percebo que meus olhos estão cravados no rosto dele, desvio rápido para o chão.

“Ah”, eu murmuro, enquanto o calor sobe pelo meu pescoço.

“Te vejo por aí”, ele diz, antes de dar um tapinha nas luvas nas minhas mãos. “Fica quentinha.”

Ele se vira e desaparece na neve. Eu o vejo se afastar, andando sem pressa, atônita com a interação inteira. “O que foi isso?”

Os flocos de neve engrossaram e grudam nos meus cílios enquanto eu sigo pela calçada. Uma forma escura se move do outro lado do gramado central, e eu pisco, afastando os cristais dos olhos. Com certeza estou vendo coisa, porque é mais alta do que qualquer estudante. Ela para de se mover quando percebe que estou olhando. Fica imóvel como uma sombra entre os pinheiros. Nossos olhos presos um no outro.

Mas, quando eu pisco, ela sumiu.

Capítulo Anterior
Próximo Capítulo