Capítulo 3

Ivy

No dia seguinte, nevou ainda mais e, quando meu turno terminou, a neve já tinha virado chuva congelante. Minhas botas estalam sobre o gelo escuro enquanto corto caminho pelo campus. Meu avental está enfiado na bolsa, e eu respiro mais aliviada sabendo que não preciso trabalhar amanhã. Cordões de luzes de Natal piscam sobre o prédio da administração, mas o resto do campus está silencioso. Os estudantes já começaram a ir embora para as férias de fim de ano, agora que estão terminando as provas finais.

A bateria do meu celular tinha acabado horas atrás. Típico. Nunca segura carga por mais de meio dia. Ele está enfiado no bolso do meu casaco e bate na minha perna enquanto atravesso o campus. Mantenho o capuz bem baixo, tentando ignorar a forma como as sombras entre os abetos parecem se mover, como se estivessem me seguindo.

Um assobio corta a noite. — Ei, garota do café.

Contra meu bom senso, eu me viro. Garota do café é um dos apelidos mais gentis que recebo, mas eu realmente preferia que as pessoas aprendessem meu nome de verdade.

Uma motocicleta está ligada na beirada do estacionamento, o farol atravessando a neve que cai. Uma figura alta está montada no banco, com uma bota apoiada no asfalto e um capacete preto debaixo do braço. A jaqueta de couro e a corrente presa ao cinto fazem com que ele pareça mais perigoso do que provavelmente é.

— Quer uma carona? — ele grita.

Aponto para o meio do meu peito e olho por cima do ombro para o quadrilátero vazio. — Eu?

— Está vendo mais alguém?

— Estou bem — respondo automaticamente, apertando a bolsa contra o peito. Mesmo não tendo nada de valor ali dentro, ainda assim não quero perdê-la.

O cara sorri, e eu noto que ele é todo feito de ângulos marcados e covinhas. — Você está indo para casa sozinha, à meia-noite, com esse tempo. Tem certeza de que está bem?

— Eu não aceito carona de estranhos — digo com a voz fina.

— Uma boa regra. — Ele levanta o descanso e aproxima a moto. — Eu sou Jaxon. Agora já não somos mais estranhos.

Quase rio da cara de pau dele. — Jaxon quem? — pergunto, embora eu saiba exatamente quem ele é. Ele é o segundo dos Reis de Northvale. A reputação de bad boy o precede, e não existe a menor chance de eu subir nessa moto. Dizem por aí que é assim que ele leva a maioria das mulheres para a cama. Que pena pra ele. Eu não sou a maioria das mulheres.

— Só Jaxon. — Os olhos dele captam o brilho do poste, e eu me pego me inclinando para observar melhor a cor. Nem castanhos, nem cor de avelã, mas um tom impressionante de verde que me lembra pinheiros. — Sobe aí. Prometo não morder. — O sorriso dele se alarga. — A não ser que você me peça. Aí eu prometo não morder com muita força.

— Não acho que uma motocicleta seja mais segura do que ir a pé com esse tempo — respondo antes de me virar de costas para ele. — Eu consigo andar.

A chuva congelante corta o ar como pequenas facas afiadas. Minhas luvas e meu casaco de segunda mão pouco fazem para me proteger do frio, e meu dormitório fica a vinte minutos de caminhada.

Alguma coisa se move nas árvores. Não o farfalhar normal dos esquilos do campus, ao qual eu já me acostumei, mas algo que soa como um rosnado.

Viro na direção do som, mas não há nada ali.

Quando volto a encarar Jaxon, o sorriso dele desapareceu. “Sobe na moto.”

Eu recuo um passo. A voz dele já não tem nada de provocação. É uma ordem. Ela vibra numa frequência que eu sinto mais do que ouço. Os olhos dele estão fixos nas árvores atrás de mim.

“Eu…”

“Agora!” As pupilas dele se dilataram, engolindo a cor das íris.

Antes que eu consiga pensar, ele estende uma mão enluvada. Eu me aproximo devagar, mas não a pego. Ele sacode a mão com impaciência, sem tirar os olhos das árvores. Estico o braço e seguro a mão dele, e o calor da pele atravessa minhas luvas finas.

Ele me puxa para o banco atrás dele num único movimento suave e coloca o capacete na minha cabeça. Joga meu cabelo para trás dos ombros e sorri. “Segura firme.”

A moto ganha vida com um rugido, e o mundo vira um borrão. O interior do capacete dele cheira a couro e cedro, e a combinação faz minha boca encher d’água. Aperto os olhos, e minhas mãos agarram a jaqueta dele, encontrando músculo duro por baixo.

A chuva congelada e o vento atravessam minha jaqueta, e eu me encolho mais contra Jaxon, desesperada para absorver um pouco do calor dele. Ele não parece se importar quando eu enlaço a cintura dele com os braços e enterro os dedos no que só posso supor que sejam abdominais duros como pedra.

Ele faz uma curva brusca para fora da via principal do campus, e depois outra, até que meu dormitório surge à vista, como um farol. Eu dou um gritinho quando não consigo me manter sentada atrás dele e preciso me agarrar com mais força. Nunca na vida fiquei tão feliz de ver aquele prédio.

Jaxon freia e derrapa com precisão até a calçada. Ele dá leves batidinhas nas minhas mãos e solta uma risadinha. “Agora você está segura.”

Meus dedos tremem quando eu os desgrudo da jaqueta dele. Ele me ajuda a tirar o capacete e ajeita as mechas soltas atrás das minhas orelhas. Ao passar a perna por cima do assento, eu tremo de adrenalina.

“Como você sabia onde eu moro?”

Ele me observa por um instante, e o maxilar dele se contrai. “Da próxima vez que você for andar sozinha à noite, pense duas vezes. Tem coisas por aqui que você não vai querer encontrar.”

Dou um passo para longe da moto. “Tipo você?” Tento brincar, mas minha voz sai fraca.

O sorriso dele aparece de novo, mas não chega a alcançar os olhos. “Exatamente como eu.”

Ele acelera o motor. “A gente se vê por aí, garota do café.”

E então ele se vai. Nada além de uma lanterna traseira sumindo na chuva congelada, deixando apenas o eco do ronco da moto dele entre as árvores. Eu fico na calçada, com o coração martelando dolorosamente no peito. Meus dedos ainda formigam onde ele segurou minha mão. Da próxima vez, vou ter que usar as luvas que Cole me deu.

Em algum lugar atrás de mim, no meio das árvores atrás do dormitório, alguma coisa uiva, suave e baixo. Como um aviso.

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