Capítulo 5 O CONTRATO – 2

À noite, Amanda voltou à suíte. O ambiente estava mergulhado numa penumbra suave, iluminado apenas pelas luzes da cidade que entravam pelas enormes janelas de vidro.

Lucca estava em pé na varanda, com a silhueta recortada contra o céu noturno, um copo de uísque na mão e o olhar perdido nas luzes de São Paulo. A aura dele era de poder e silêncio — como se nada escapasse ao seu controle.

Ao sentir sua presença, ele se virou devagar, os olhos pousando nela com uma intensidade que queimava.

— Decidiu? — a voz dele veio baixa, arrastada, como se o momento não precisasse de pressa.

Amanda caminhou até ele com firmeza. O salto fazia um som seco no piso de mármore. Entregou o envelope assinado, mas seus olhos estavam ainda mais afiados que o papel.

— Com uma condição.

— Qual? — Lucca perguntou, sem tirar os olhos dela.

— Quero liberdade. Pra tocar meus projetos. Trabalhar, estudar. Voltar a viver por mim. Mesmo dentro desse acordo.

Lucca arqueou uma sobrancelha, surpreso — e, por um segundo, admirado.

— Negociando com o magnata, senhora Mancini?

— É o mínimo. Ou a imagem da sua esposa será a de uma mulher submissa. E isso não combina comigo.

O canto da boca dele se ergueu num sorriso lento, carregado de provocação.

— Gosto da sua ousadia.

Ela não recuou. Nem um passo.

— Ainda não terminei. Mais uma coisa: nada de dormir no mesmo quarto. Nem fingir uma intimidade que não existe.

Lucca deu um gole no uísque, sem desviar o olhar. Depois, caminhou até ela. Cada passo diminuía a distância, e aumentava a tensão. Quando parou, estavam tão próximos que ela pôde sentir o calor que vinha do corpo dele, a presença dele invadindo o ar entre os dois como uma corrente elétrica.

— Respeito seu limite, Amanda — disse com a voz baixa, rouca. — Mas um conselho…

Ele inclinou o rosto levemente, os olhos fixos nos dela, como se lesse tudo que ela tentava esconder.

— Você vai perceber que fingir é fácil. E mais fácil ainda… é se perder na mentira.

Amanda manteve o olhar firme, mas por dentro, uma centelha se acendia com força. Aquele homem não a tocava, mas a presença dele incendiava seus sentidos. Havia algo perigoso naquele jogo. Uma dança silenciosa de poder, desejo e controle.

— Boa noite, Lucca. — Sua voz saiu firme, mas carregada de tensão.

Ela se virou, sentindo os olhos dele cravados em suas costas. Entrou no quarto e fechou a porta com firmeza — não para encerrar o momento, mas para se proteger do que ele começava a provocar dentro dela.

Atrás da madeira, escorou-se contra a parede. O coração batia como se tivesse corrido. Como se tivesse sido tocada — sem jamais ter sido.

A guerra tinha começado.

E o campo de batalha era a própria pele.


Já era fim de tarde quando o jatinho particular de Lucca pousou suavemente na pista privada de Angra dos Reis. Amanda observava pela janela, os olhos fixos naquele cenário que mais parecia saído de um cartão-postal. O mar azul turquesa se estendia até perder de vista, cintilando sob o sol. As montanhas cobertas por vegetação densa davam à paisagem um ar de paraíso isolado — e irreal. Era tudo belo, exuberante… e perigoso, como o homem sentado a poucos passos dela.

O silêncio entre eles no avião havia sido carregado. Não de palavras, mas de tensão. De olhares trocados quando nenhum dos dois fingia não perceber a presença do outro.

Assim que desceram da aeronave, um fotógrafo os aguardava discretamente ao longe. Lucca não hesitou. Entrelaçou os dedos nos dela com uma segurança que beirava o domínio.

— Lembre-se: estamos casados, apaixonados e felizes — ele murmurou rente ao ouvido dela, a voz grave e baixa como uma carícia sutil.

Amanda sentiu um arrepio subir pelas costas. Fingiu que era por causa do vento.

Forçou um sorriso enquanto caminhavam de mãos dadas até a van, mas havia algo naquele toque... algo firme, quente e estranhamente íntimo. Era encenação, ela sabia. Mas a palma da mão dele encaixada na dela parecia se moldar ao seu corpo de forma irritantemente confortável.

A mansão era absurda em todos os sentidos. Com pé direito alto, janelas enormes que deixavam o mar entrar pelos olhos, móveis de madeira clara, piscina de borda infinita e um jardim que levava direto à areia fina. Amanda parou por alguns segundos na entrada, como se tentasse entender onde estava pisando.

— Uau…

— Impressionada? — Lucca perguntou, já tirando o paletó e entregando para um funcionário. O gesto foi simples, mas Amanda não conseguiu evitar o olhar que escapou para os ombros dele, largos e definidos sob a camisa social.

Ela pigarreou, tentando recuperar o controle.

— Com tudo… menos com você.

O sorriso dele foi lento, provocador, quase preguiçoso.

— Vai se acostumar, Amanda. Isso tudo agora também é seu — disse, a voz carregada de duplo sentido, como se não estivesse falando apenas da mansão.

Ela passou por ele, sentindo de leve a fragrância amadeirada do perfume que usava. Forte, marcante. Como ele. E por mais que se esforçasse, não era fácil ignorar o magnetismo que ele exalava sem fazer esforço algum.

Após o jantar a funcionária surgiu e a conduziu até o quarto reservado, como haviam combinado. Um dos quartos de hóspedes — longe da suíte principal. Mas antes de subir, Amanda sentiu os olhos de Lucca sobre ela. Era mais do que um olhar. Era uma presença. Ele a observava como se fosse decifrá-la, desmontá-la, descobrir o que se escondia por trás da mulher firme que enfrentava tudo de queixo erguido.

— Boa noite, Amanda — ele disse, com um tom rouco, quase preguiçoso, os olhos descendo devagar pelo corpo dela antes de voltarem ao seu rosto.

Ela parou um segundo, a respiração presa, e respondeu sem virar o rosto:

— Durma bem, Lucca. Sonhe com o paraíso que você mesmo criou.

Subiu as escadas com passos firmes, mas o coração acelerado denunciava o que não queria admitir: a presença dele ficava no ar mesmo quando ele não estava por perto.

Naquele paraíso forjado por luxo e encenações, Amanda sabia: o verdadeiro perigo não estava do lado de fora. Estava no calor que Lucca Mancini fazia crescer dentro dela — lento, insinuante, perigoso. E impossível de ignorar.

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