Capítulo 2 2

Ponto de vista de Emerald

Que porra foi aquela? Não acredito que eu agi daquele jeito com o meu chefe. Cara, ele tinha um cheiro tão bom. Para! Para! Para, Emerald! Eu precisava me concentrar. Entrei no e-mail corporativo e comecei a responder as mensagens que precisavam da minha atenção. Encaminhei algumas para o Jet e para o Spinel e imprimi o relatório necessário para a reunião das 10h.

Assim que o relatório saiu impresso, fui para a sala de reuniões e preparei tudo. Garanti que houvesse um carrinho de bebidas com várias garrafinhas de água, uma variedade de sucos e algumas latas de refrigerante, além de copos, gelo e uma pá de gelo.

Juniper chegou pela segunda vez hoje, carregando mais bagels, cream cheese, salmão defumado, uma bandeja de frutas e uma travessa de frios com uma variedade de queijos, além das famosas chips de pretzel especiais da casa.

— Obrigada de novo, Juniper — eu disse, enquanto continuava arrumando a sala.

— Sem problema. Os “gostoso” e “mais gostoso ainda” já chegaram? — Juniper perguntou, mexendo as sobrancelhas para cima e para baixo.

Eu dei uma risadinha.

— Sim. Para de chamar eles assim. Se você fizer isso de novo, eu conto pro seu marido alto, moreno e absurdamente gostoso, quente como fogo.

Assim que as palavras saíram da minha boca, virei a cabeça num estalo para a porta aberta da sala de reuniões; eu jurava ter ouvido um rosnado vindo bem do lado de fora.

— Ah, ok… então você acha o Caliban gostoso. Bom saber — Juniper respondeu, rindo enquanto balançava a cabeça.

— O que é que tem com os homens daqui? Por que todos são tão altos e bonitos pra caramba? — perguntei mais para mim do que para a Juniper.

Aí está de novo, aquele som de rosnado. A Juniper não reagiu nem um pouco; devo estar ouvindo coisas. Ótimo, maravilhoso, nada melhor do que um pouquinho de doença mental.

— É a água — Juniper riu. — Enfim, amiga, preciso voltar pra padaria. Te vejo amanhã de manhã.

— Vai ver, sim. Obrigada de novo, Juni. Você me salva.

Terminei de ajeitar a sala de reuniões, desliguei meu computador e mandei uma mensagem para o Jet avisando que eu ia almoçar. Conferi minha conta no banco: 142 dólares para me virar até o próximo pagamento, daqui a uma semana. Bom, é melhor do que nada.

Podia ser pior. Meu quarto estava pago até o mês que vem, assim como meu celular; o plano de pagamento da conta médica já tinha sido debitado automaticamente da minha conta naquele mês; tudo com que eu precisava me preocupar era gasolina pro carro e comida. Meus itens de higiene estavam começando a acabar, mas eu conseguia fazer durar até a semana que vem.

Inclinei o corpo para a frente e apoiei a testa na mesa, ponderando se eu descia até o café e pegava o prato do dia por 9,99 dólares ou se comia outro bagel no almoço.

— Um centavo pelos seus pensamentos — disse Spinel, encostado na minha mesa, de costas para mim.

— AHH! Você me assustou — falei, atrapalhada.

Spinel me entregou um pedaço de papel.

— Leva isso lá embaixo pro café e acrescenta o que você quiser pro almoço e pro jantar. A gente vai trabalhar até tarde de novo hoje, e eu não vou ficar ouvindo seu estômago fazendo aquele barulho horroroso a tarde inteira. A Samantha está te esperando, e, Emerald, nada de economizar. Pega o que você quiser, e tem que ser uma refeição de verdade. Não discute comigo, porque você vai perder — disse Spinel, se afastando da minha mesa e indo em direção à sala de reuniões.

Acho que meus problemas com almoço e jantar estão resolvidos… pelo menos por hoje.

Desci até o café, encontrei a Samantha e entreguei a ela o papel que o Spinel tinha me dado.

— O que você vai querer, Emerald? — perguntou Samantha, mas soou mais como uma pergunta de prova.

— Humm, acho que pro almoço eu vou querer a salada Caesar e...

— Não. Tenta de novo. — instruiu Samantha.

Balancei a cabeça.

— Ele te contou?

— Sim. Agora pede direito. Eu não tenho o dia todo; a gente vive ocupado por aqui. — disse Samantha, meio brincando, meio falando sério.

Um sorrisinho apareceu no meu rosto. Spinel ia se arrepender disso.

— Pro meu almoço, eu vou querer a salada Caesar com bife, uma tigela da sopa cremosa de tomate com manjericão, um muffin de mirtilo, dois cookies com gotas de chocolate, uma salada de frutas e um parfait de iogurte com pasta de amendoim.

— Boa, parece ótimo. E o seu jantar? Vai ser levado pro andar executivo às seis da tarde hoje. — disse Samantha, sem reagir em nada ao meu pedido de almoço enorme.

— Vou querer o especial grande do jantar, com meia galinha assada, os espetinhos de camarão, uma batata assada recheada, vagem e aspargos, uma tigela da sopa de macarrão com frango, uma salada verde com molho ranch à parte, mais dois pãezinhos, uma fatia de bolo de chocolate e... coloca também um sanduíche club no pão integral.

Samantha ficou parada por um minuto, com o olhar perdido, e então voltou a focar em mim.

— Mais.

— O QUÊ? — exclamei.

— O Jet disse que você não tem almoçado e que tem vivido de bagels nos últimos meses. Eu preciso que você sente ali no balcão com um cardápio enquanto eu mando fazer esses almoços e preencho uma ficha de pedido de três refeições por dia pro resto da semana.

— Ah, qual é, Sam, você só pode estar brincando comigo. Nem a pau que aqueles dois concordaram com isso ou sequer disseram isso.

Samantha desdobrou o pedaço de papel que o Spinel tinha me dado e mostrou pra mim. E, com certeza, lá estava, na caligrafia perfeita dele, o pedido de almoço e jantar dele e do Jet, além de uma mensagem: “Certifique-se de que a Emerald acrescente REFEIÇÕES COMPLETAS a esta lista e pegue o pedido dela pro resto da semana. A Emerald precisa fazer isso TODA SEGUNDA-FEIRA até segunda ordem. Sem exceções, Samantha. NÃO deixe ela dizer não.” — S & J —

— O Jet também me disse pra embalar a maior parte do que você acabou de pedir, pra você levar pra casa. Imagino que você queira comer a salada Caesar com bife aqui, e mandar subir o jantar de frango e camarão, com o bolo e todo o resto embalado e ensacado pra você levar?

— Sim. — respondi, seca, pegando um cardápio e uma ficha de pedido.

Samantha deu uma risadinha sozinha ao se virar e ir para a outra ponta do balcão atender os três clientes que tinham acabado de se sentar.

Terminei de preencher minha ficha de refeições pro restante da semana, ainda com raiva. Eu não faço caridade nem aceito esmola. Estou tão confusa agora... será que meus chefes sabem da minha situação financeira? Dá vontade de voltar pro escritório e gritar com os dois.

Samantha trouxe uma caixa com os três almoços dentro. Eu entreguei a ela minha ficha de refeições, e ela me deu a caixa.

— Tenha um bom dia, Emerald. E, só pra você saber, eles só fazem isso porque se importam.

— Obrigada, Samantha. Te vejo mais tarde. — respondi, pegando a caixa com a comida e indo até o elevador que sobe pro andar executivo.

De volta ao meu andar, levei os almoços do Jet e do Spinel para os escritórios deles e deixei as refeições em cima das mesas.

Voltei pra cozinha e me sentei à mesa pra comer minha salada. Tirei o celular do bolso e mandei um “Obrigada” curto no nosso chat em grupo.

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