Capítulo 4 4

Ponto de vista de Jet

Essa reunião do acordo de terras estava se arrastando mais do que eu queria. Eu queria pegar meu almoço e arrumar um motivo para comê-lo na cozinha com a Emerald. Só que não; a Emerald entrou e trouxe nossos almoços. Alguns minutos depois, meu celular vibrou no bolso.

Em: Obrigada.

Um sorriso começou a se formar nos cantos da minha boca. Eu não respondi à mensagem da Emerald; não precisava. Eu queria, mas tanto eu quanto o Spinel estávamos nos esforçando ao máximo para manter tudo profissional entre nós e a Emerald, e isso estava enlouquecendo nós dois aos poucos.

A essa altura da reunião, eu já nem sei mais o que estamos discutindo; nós já acertamos esses detalhes várias vezes.

— Estou cansado de ficar andando em círculos. Vou ser bem claro: estes são os nossos termos e condições, e eles não são mais negociáveis.

Item nº 1 — A Peridot Industries manterá todos os direitos legais sobre o terreno onde o seu prédio será construído.

Item nº 2 — A Peridot Industries receberá um pagamento único de 2.500.000 dólares antes do início das obras e dentro de vinte e um dias corridos a partir desta reunião.

Item nº 3 — A Peridot Industries continuará recebendo um pagamento mensal de 75.000 dólares pelo arrendamento do terreno.

Item nº 4 — A Peridot Industries oferecerá uma renovação do contrato de locação por 10 anos, após a conclusão dos termos iniciais de 10 anos. Após a marca de 20 anos, renegociaremos novos termos de locação e/ou a venda do terreno.

— É isso, senhores. Oferta final. Nós não precisamos que vocês aluguem esse terreno e construam esse espaço; na verdade, estou pensando em nem fazer esse acordo, já que precisamos expandir nossos próprios escritórios. Ficou claro? — Spinel perguntou aos presentes.

Cabeças começaram a concordar, afirmativamente. O Spinel pode ser assustador às vezes.

Ouvir ele perder a paciência foi bom; pelo menos agora eu sei que não sou o único irritado nesta sala.

Uma dor aguda atravessou meu peito, me fazendo puxar o ar e agarrar a camisa. Virei a cabeça num estalo na direção do Spinel. Olhei para ele e vi seus olhos arregalados, as pupilas fazendo com que parecessem orbes negras.

— Surgiu uma coisa. Reunião encerrada! — Spinel rosnou para todos na sala de conferências.

— Sr. Bloodstone, nós precisamos...

— FORA! AGORA! — Spinel berrou para os que ainda estavam sentados e não se mexiam rápido o bastante para o gosto dele.

— Minhas desculpas, sr. Asher; surgiu uma emergência familiar. Nosso assistente vai enviar os documentos por e-mail até o fim do expediente de amanhã — eu disse o mais calmo que consegui, com a dor me rasgando em ondas. Não era só dor; eu sentia ansiedade e impotência.

O pessoal da Asher Enterprises juntou às pressas seus laptops e celulares, saindo da sala de conferências de maneira apressada.

Eu observei enquanto o Spinel tentava se controlar, as unhas se alongando e se cravando no encosto da cadeira à qual ele se agarrava. Eu conseguia sentir meu lobo, Onyx, querendo assumir o controle e explodir para fora desta sala.

Alguma coisa dentro de mim se ergueu, e eu escancarei a porta da sala de conferências.

— Emerald?! Emerald, espera! — eu berrei ao ver a porta da escada se fechar.

Virei a cabeça para Maggie, a recepcionista do andar. Maggie balançava a cabeça de um lado para o outro, com o olhar preso na área da cozinha.

— Maggie, que porra é essa? — sibilei, enquanto outra onda de dor, pânico e ansiedade me atravessava.

— Eu não sei, senhor Obsidian. O celular da Emerald tocou, e ela saiu disparada daqui como um morcego saindo do inferno. Deixou tudo para trás, menos o celular e a bolsa.

— Você ouviu alguma coisa, Maggie? — perguntou Spinel, contornando-me.

— Não, não muito. Eu tento não ficar escutando conversa alheia. Eu só ouvi ela dizer: “Obrigada, enfermeira Ki. Diz ao médico que eu chego aí em dez minutos.”

— Obrigado, Maggie. — disse Spinel, antes de se virar para mim. — Dez minutos, enfermeira Ki, médico... parece hospital. Por que ela largaria tudo e sairia correndo pro hospital? Que porra é essa dor, Jet?

— É o vínculo, Spinel. Eu te disse que só ia piorar quanto mais a gente esperasse.

— Não tô com a menor paciência pra “eu te avisei” agora, Jet. — Spinel me lançou um olhar mortal antes de se voltar para Maggie. — Maggie, você pode encontrar tudo, e eu quero dizer tudo mesmo, que conseguir sobre a Emerald? Quero um dossiê completo: finanças, registros bancários, registros de família, contas em redes sociais, TUDO.

— Sim, senhor Bloodstone. — disse Maggie, inclinando a cabeça e expondo o pescoço em submissão.

— Spin, isso é uma invasão enorme da privacidade dela.

— Eu não ligo, Jet. Eu. Não. Ligo. Pra. Porra. Nenhuma. — Spinel sibilou, voltando para o escritório e batendo a porta com força.

Depois de algumas horas, a dor no meu peito diminuiu, de uma pontada aguda e perfurante para um latejar baixo e constante. Esperei mais algumas horas, e Emerald não voltou do hospital, e Spinel ainda não tinha saído do escritório. Tentei fazer um vínculo mental com ele, mas ele me bloqueou. Segui o rastro do cheiro de Emerald até o hospital, aquele aroma maravilhoso de lavanda e baunilha, que não ficava longe do nosso prédio. Quando eu estava entrando no hospital, vi Emerald saindo do elevador.

Tentei estender a mão até ela quando passou por mim, mas ela se desviou para o lado, ficando fora do meu alcance. Ela estava um caco: os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar, vidrados, sem focar de verdade em nada; o cheiro dela, tingido de desespero e tristeza. Eu queria agarrá-la e puxá-la para mim, protegê-la do que quer que estivesse acontecendo.

Girei nos calcanhares para ir embora e dei de cara com Spinel.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, irritado.

— Tenho quase certeza de que estou fazendo a mesma coisa que você. Ela te disse alguma coisa? — perguntou Spinel, com a voz falhando.

— Não. Ela passou direto por mim. Acho que nem percebeu que era eu.

— Vou seguir ela discretamente; ela não vai me notar. Você volta pro escritório. A Maggie achou umas coisas interessantes. — Spinel disse, virando-se e saindo pelas portas do hospital na direção do jardim e de Emerald. Meu coração martelava no peito enquanto eu via meu companheiro de mais de trezentos anos ir atrás da nossa outra companheira, que não sabe que é nossa companheira.

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