Capítulo 3 CAPÍTULO 3

Acordei na manhã seguinte com o celular vibrando sobre a mesa de cabeceira.

Ainda estava sonolenta quando estiquei o braço para pegá-lo. Havia uma mensagem de Henry, enviada havia pouco mais de dez minutos.

HENRY: Bom dia, Claire. Minha assistente pode organizar uma chamada para conversarmos sobre sua possível estadia na Suíça. Qual horário funciona melhor para você?

Olhei para o relógio.

Sete e quinze da manhã.

Quem mandava mensagens sobre reuniões àquela hora?

Suspirei, sentei-me na cama e respondi.

EU: Bom dia. Podemos conversar às dez? Ainda estou tentando acordar.

A resposta veio quase imediatamente.

HENRY: Às dez está ótimo. Desculpe por interromper seu sono.

Fiquei olhando para a tela, surpresa com o pedido de desculpas.

Pelo menos ele sabia reconhecer quando estava sendo inconveniente.

Joguei o celular sobre a cama e fui tomar banho. Enquanto a água caía sobre meus ombros, pensei novamente na proposta.

Mudar para a Suíça não era uma decisão pequena. Eu deixaria meu apartamento, meu trabalho e minha melhor amiga para morar em outro país com um homem que conhecia apenas por algumas conversas.

Por outro lado, Henry não estava me obrigando a nada. A proposta parecia vantajosa, desde que tudo fosse organizado com cuidado.

Eu teria conforto, acompanhamento médico adequado e a oportunidade de conhecer um lugar novo.

O problema era a convivência.

Eu não sabia como seria dividir uma casa com Henry Montgomery.

Ele parecia o tipo de homem que acordava às cinco da manhã, fazia exercícios, tomava café sem açúcar e passava o resto do dia resolvendo problemas milionários.

Eu, por outro lado, gostava de dormir até mais tarde quando podia, ouvir música enquanto trabalhava e deixar uma caneca de café esquecida sobre a mesa.

Éramos diferentes até nas pequenas coisas.

E eu tinha a sensação de que descobriria isso muito rapidamente.

Às dez em ponto, entrei na chamada.

Henry apareceu na tela usando uma camisa branca com as mangas dobradas até os antebraços. O cabelo escuro estava ligeiramente desalinhado, como se ele tivesse passado a mão por ele várias vezes.

Não sei por que reparei nisso.

Talvez porque fosse a primeira vez que ele não parecia completamente impecável.

— Bom dia novamente — ele disse.

— Você já me desejou bom dia.

— E você parece continuar precisando dele.

Apertei os lábios para esconder um sorriso.

Eu não esperava descobrir que Henry tinha senso de humor. Nas primeiras conversas, ele parecia tão concentrado em contratos, horários e procedimentos que eu quase o imaginei usando uma planilha para decidir o que comer no jantar.

— Vamos ao que interessa? — perguntei.

— Claro.

Ele se ajeitou na cadeira e abriu alguns documentos.

— Conversei com a equipe responsável pelo seu acompanhamento. Antes de qualquer decisão, quero que você tenha todas as informações necessárias. A mudança só acontecerá se você se sentir confortável e se os profissionais responsáveis confirmarem que é adequada para sua situação.

Gostei de ouvir aquilo.

Não queria que a gravidez se transformasse em uma disputa entre o que eu desejava e o que Henry considerava melhor.

— Certo. E quanto tempo você espera que eu fique lá?

— Minha sugestão é que você chegue nas próximas semanas e permaneça durante o termino ga gestação. Podemos rever o plano conforme as orientações médicas e suas necessidades.

Assenti devagar.

— E se eu não me adaptar?

— Você poderá voltar.

A resposta foi tão direta que ergui as sobrancelhas.

— Sem discussão?

— Sem discussão.

— Mesmo que você tenha gastado dinheiro preparando tudo?

— Claire, estou oferecendo uma opção, não comprando sua liberdade.

Fiquei quieta.

Talvez eu tivesse sido injusta ao imaginar que ele tentaria controlar cada aspecto da minha vida.

— Desculpe — falei. — É que algumas pessoas confundem dinheiro com o direito de decidir pelos outros.

A expressão dele mudou ligeiramente.

— Eu conheço pessoas assim. E não pretendo ser uma delas.

Havia sinceridade em sua voz.

Pela primeira vez, senti que talvez pudéssemos encontrar uma maneira de conviver sem transformar cada conversa em uma negociação.

— Tudo bem — respondi. — Mas tenho algumas condições.

Henry arqueou uma sobrancelha.

— Imaginei que teria.

— Primeiro, quero continuar trabalhando. Posso fazer boa parte do meu trabalho de casa, então não vejo motivo para abandonar meus projetos.

— Concordo. Podemos providenciar um espaço adequado para você trabalhar.

— Segundo, não quero uma pessoa me seguindo pela casa o tempo inteiro para perguntar se estou bem.

Ele soltou uma risada.

— Não estava planejando contratar uma equipe para vigiar você.

— Ótimo. Porque eu não preciso de um segurança para ir até a cozinha.

— Vou tentar conter minha decepção.

Balancei a cabeça, divertida.

— E terceiro, quero ter liberdade para sair, conhecer a região e fazer minhas coisas, desde que esteja tudo de acordo com as recomendações médicas é claro.

— Isso me parece razoável.

Esperei que ele acrescentasse alguma exigência, mas Henry apenas anotou algo.

— Mais alguma coisa?

Pensei por alguns segundos.

— Quero conhecer a casa antes de decidir.

— Justo

— E quero saber como será nossa rotina. Não pretendo passar nove meses sentada em um sofá esperando você chegar do trabalho.

Ele apoiou os braços sobre a mesa.

— Você parece ter uma opinião bastante ruim sobre mim.

— Ainda estou formando uma.

— Espero conseguir melhorar essa avaliação.

Sorri.

— Depende do seu comportamento.

Henry me encarou por um instante. Havia diversão em seus olhos, mas também algo que não consegui identificar.

— Nesse caso, vou me esforçar.

Meu coração deu uma batida um pouco mais forte.

Aquilo não significava nada. Era apenas uma conversa.

Mesmo assim, desviei os olhos para os documentos sobre minha mesa.

Eu precisava parar de prestar tanta atenção nele.

— Quando eu poderia viajar? — perguntei.

— Se você decidir aceitar, podemos organizar tudo para as próximas semanas. A equipe verificará os documentos necessários e os detalhes da viagem.

— E você estará lá quando eu chegar?

— Estarei.

A resposta veio sem hesitação.

Por algum motivo, gostei de saber disso.

Quando a chamada terminou, peguei um caderno e comecei a fazer uma lista das coisas que precisaria resolver.

Avisar meu chefe. Organizar meus projetos. Conversar com o proprietário do apartamento. Separar roupas adequadas para o frio. Conferir documentos.

Quanto mais eu escrevia, mais real a ideia parecia.

A Suíça deixava de ser apenas um destino bonito nas fotografias e se tornava o lugar onde eu passaria uma parte importante da minha vida.

Peguei o celular e liguei para Madison.

Ela atendeu no segundo toque.

— Se você está ligando para dizer que decidiu ir, preciso que saiba que vou sentir sua falta.

Parei de escrever.

— Como você sabia?

— Porque conheço você. Quando começa a fazer listas, pesquisar lugares e fingir que não está animada, já tomou metade da decisão.

Soltei uma risada.

— Eu ainda não decidi.

— Claro que não.

— Madison!

— Estou ouvindo, pode continuar tentando me convencer.

Revirei os olhos, embora ela não pudesse me ver.

— Henry foi razoável. Ele disse que posso voltar se não me adaptar e concordou com minhas condições.

— Isso é bom.

— E a casa parece incrível.

— Chegamos ao que importa.

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