Capítulo 4 Ocorrências estranhas

Leonard pegou o vestido de luxo que havia trazido para ela e, sem hesitar, o atirou em sua direção. “Vista isso, a menos que queira uma repetição do que aconteceu esta manhã.”

Seu tom era duro, autoritário, mas por baixo dele permanecia aquela estranha mistura de ameaça e possessividade que sempre a deixava desconfortável.

O peito de Lucinda se apertou. As lágrimas ameaçaram cair, mas ela cerrou a mandíbula e as conteve, recusando-se a deixá-lo ver as rachaduras.

Ela apanhou o vestido do chão e começou a vesti-lo, seus movimentos rígidos, cautelosos, enquanto observava o canto dos lábios dele se curvar num sorriso de escárnio que fez um arrepio percorrer sua espinha.

Por que ele iria querer transar com ela quando a mulher que ele realmente amava, Millie, o esperava em outro lugar na grande sala de conferências?

Talvez aquilo fosse um jogo para ele, uma provocação perigosa feita para testá-la. Mas ela não podia se arriscar, não mais.

Ela aprendera da pior forma que os jogos de Leonard muitas vezes traziam consequências muito mais perigosas do que ela podia prever.

“Pronto”, ele disse por fim, a voz baixa, quase relutantemente aprovadora. “Isso fica melhor em você.” Seu olhar era afiado, indecifrável, perturbador em sua intensidade.

Lucinda engoliu em seco, sem saber como responder. Havia algo em sua postura, na forma como ele a puxou pela cintura e a forçou a encarar o espelho, que fez seu pulso disparar numa mistura de medo e antecipação indesejada.

Os lábios dele roçaram sua bochecha, o fantasma de um beijo, fugaz e ainda assim invasivo.

“É isso que você deveria estar vestindo”, ele murmurou, a voz tensa de possessividade. “Não gosto que outros homens vejam o corpo exposto da minha esposa.”

As palavras eram confusas, contraditórias. O vestido era recatado, até confortável, mas o tom dele sugeria algo mais profundo, uma estranha reivindicação sobre ela que fez seu estômago se revirar.

“Eu não sou a Millie, Leo”, ela disse, com a voz mais firme do que se sentia. “Meu nome é Lucinda, sua futura ex-esposa. E, se você realmente gosta mais deste vestido, então por que insiste que eu o use e não ela?”

Ela tentou dar um passo para trás, se livrar do aperto dele, mas sua mão se fechou como aço. “Chega de falar do vestido”, disse friamente, o desconforto relampejando por um instante em seus olhos antes de desaparecer.

“Assim como, na sua família, o mais velho deve se casar antes do mais novo, o divórcio não é permitido na minha família. Então... estamos presos um ao outro.”

Os joelhos dela fraquejaram sob o peso daquela declaração. Viver sob o mesmo teto, presa a um homem que a desprezava, que amava outra.

Aquele era o pior pesadelo que ela já havia imaginado. “Não... isso não é verdade”, sussurrou, a voz tremendo com uma mistura de incredulidade e tristeza.

“Agora você entende por que eu a tolerei todos esses anos”, ele disse, suas palavras cortando mais fundo do que qualquer lâmina. Ele se inclinou para mais perto, mantendo o olhar preso ao dela.

“Se duvida de mim, confira o documento suplementar que você assinou durante o casamento.”

A mente de Lucinda girou. Teria feito diferença se ela o tivesse lido antes de assinar? Não. Ela estava apaixonada demais, ingênua demais, disposta demais a se entregar por completo. Agora, a verdade a atingia com uma força que ela não havia previsto.

“Se esse é o caso”, ela disse, tentando firmar as mãos trêmulas, “então você precisa parar de ver a Millie.” Se ela estava presa naquela jaula de casamento, então ele também estaria igualmente limitado, igualmente miserável.

“Você não toma decisões aqui, Luci”, ele disse, com a voz perigosamente calma. “Foi você quem ficou entre nós. Mas... se se comportar, talvez eu lhe dê uma opção melhor.”

A mente de Lucinda disparou. Talvez ela pudesse fugir. Fugir com alguém nunca lhe parecera tão tentador. Contanto que pudesse ficar longe dele, longe dos olhares melosos que ele reservava para Millie, talvez conseguisse sobreviver.

“O que eu tenho que fazer para me libertar?” ela perguntou, a voz tremendo de determinação, o coração martelando violentamente no peito. Os olhos dele brilharam com alguma coisa. Dor? Arrependimento? Antes de serem substituídos por aquela dureza familiar e assustadora.

“Você realmente me odeia tanto assim?”, ele perguntou, quase suavemente, como se quisesse que ela respondesse com sinceridade.

“Você não faz ideia”, ela respondeu, com a própria voz fria. A dor relampejou nos olhos dele, só por um instante, e então desapareceu, substituída por ódio.

“O sentimento é recíproco”, ele disse em voz baixa, o tom impregnado de veneno. “Mas tenho um evento para ir. A menos que planeje me acompanhar, vamos discutir isso depois. Em casa.”

Lucinda cerrou os punhos. Depois do constrangimento daquela manhã, não havia a menor chance de que pretendesse chegar perto dele novamente. “Eu vou esperar em casa”, murmurou. Ela não tinha escolha a não ser retomar o controle da própria vida, por menor que fosse.

Mas, antes que ela pudesse se afastar, ele a puxou de volta. Seus lábios se pressionaram contra os dela, possessivos, insistentes, espalhando por seu corpo um calor que ela detestava. Ela o empurrou com toda a força que conseguiu reunir.

“Não encoste em mim nunca mais”, ela advertiu, com a voz afiada e trêmula.

Ele deu um muxoxo, inclinando a cabeça como se estivesse divertido com a rebeldia dela. “Esqueceu? Você ainda é minha esposa. Comporte-se, ou vai ficar presa nesse casamento para sempre.”

Achando inútil dizer qualquer coisa, Lucinda foi a passos largos até a porta. Ele a seguiu, conduzindo-a até outra saída. “Use esta”, disse.

Claro, ele não podia correr o risco de que a esposa indesejada fosse vista enquanto Millie estava presente. Ela não teve escolha senão obedecer. Usando o elevador, desceu até o estacionamento, apenas para descobrir que seu motorista não estava lá. Uma mensagem vibrou em sua mão.

“Peço muitas desculpas, senhora, mas fui transferido para outra função. O chefe tomou outras providências para a senhora.”

Seu primeiro impulso foi ligar para Leonard, exigir uma explicação pelo que acabara de ouvir, mas algo dentro dela — medo, cautela, talvez um resquício de sabedoria — a fez hesitar.

Talvez fosse mais seguro obedecer por enquanto. Respirando fundo, ela chamou um Uber rapidamente, os dedos tremendo levemente enquanto digitava o destino.

Para seu alívio, um carro chegou quase imediatamente, o exterior preto reluzindo sob as luzes fracas do estacionamento.

Ela deu um passo à frente, pronta para entrar, quando uma Lamborghini elegante, preta fosca, deslizou para a vaga ao lado dela. O motor ronronava como um animal selvagem contido e, por um instante, ela congelou, hipnotizada pela aparição repentina.

O Uber que ela havia chamado desapareceu, deixando-a sozinha com o veículo de luxo. Seu pulso acelerou. Leonard tinha armado aquilo? Ou era apenas coincidência?

Antes que pudesse processar a situação, outro carro passou voando pela Lamborghini, ultrapassando-a sem esforço. A lataria polida cintilou sob os postes, e o movimento repentino fez seu coração saltar para a garganta.

As portas se abriram ao mesmo tempo, uma revelando um motorista uniformizado, a outra uma figura que ela ainda não conseguia identificar.

Lucinda instintivamente deu um passo para trás, sem saber em qual veículo deveria confiar, a mente disparada. Seu estômago se retorceu quando a adrenalina subiu. Tudo naquele momento parecia orquestrado; cada segundo, cada carro, cada movimento parecia parte de um plano maior que ela ainda não conseguia enxergar.

O ar ao seu redor parecia vibrar de expectativa, com o leve cheiro de gasolina e couro caro invadindo seus sentidos.

Ela olhou para a Lamborghini mais uma vez. O motorista permanecia imóvel, quase estatuário, esperando, observando-a. E então, do carro que havia ultrapassado, uma voz a chamou, calma e ao mesmo tempo autoritária, alcançando seus ouvidos de um jeito que fez seu estômago se contrair.

“Sra. Roberts”, disse a voz, suave, deliberada e firme. “Por favor, entre no carro. Esta é a sua condução de hoje à noite.” A voz pertencia a Theo.

Sua mente gritava em confusão. Por que tanta atenção, tantas camadas de controle, tanta encenação por causa dela? Mas, mesmo em sua desorientação, ela entendeu uma coisa com clareza.

O alcance de Leonard estava em toda parte. Não importava para onde fosse, não importava o que tentasse, ela nunca estava realmente livre da influência dele. Ainda não.

Quando ela hesitou, Theo correu à frente.

“Sinto muito, Sra. Roberts, nós...”

“Eu não sou Sra. Roberts”, Lucinda o interrompeu, em tom cortante. “Me chame de Srta. Almond.”

“Receio que não posso, senhora”, ele disse, nervoso. “O chefe insiste, e já providenciou tudo.”

Naquele momento, uma limusine encostou. O motorista desceu, curvando-se educadamente. “Senhora, serei seu motorista esta noite. Este é o seu carro particular.”

Ela mal se importou com o carro. Teria preferido um Bentley, mas estava cansada demais, furiosa demais e humilhada demais para discutir. Ao deslizar para o banco de couro, ofereceram-lhe uma taça de vinho. “Para a senhora, madame”, disse o motorista.

Lucinda a pegou, murmurando um distraído “Obrigada”, tentando acalmar os nervos. Viu a Lamborghini passar, o olhar frio do motorista cravado nela; ela estremeceu e tomou um gole da bebida para se acalmar, mas foi então que aconteceu.

Uma sonolência estranha tomou conta dela, implacável, avassaladora. Suas pálpebras ficaram pesadas, seu corpo relaxou contra a própria vontade.

“O que... você colocou nisso?”, perguntou, com o pânico se infiltrando em sua voz.

“Não faço ideia, senhora”, respondeu o motorista, com frieza. “Estou apenas seguindo ordens. O chefe mandou servir.”

Ela tentou resistir, tentou se concentrar, mas a escuridão a dominou rapidamente.

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