Capítulo 5 O amor verdadeiro nunca morre
O escritório de Leonard estava silencioso, frio de um jeito que não combinava com o eco distante da festa lá fora. As luzes ali eram brilhantes demais, o ar parado demais.
Theo entrou e parou na soleira, os ombros curvados como os de um aluno se aproximando de um professor severo.
“Senhor”, disse ele, fechando a porta cuidadosamente atrás de si. “Seguimos suas ordens.”
Leonard não ergueu a cabeça de imediato. Seus olhos estavam fixos na tela do computador, os dedos se movendo, o maxilar tenso. “Só isso?”
Theo hesitou. Engoliu em seco e então assentiu. “Sim, senhor. Ela foi deixada inconsciente onde o senhor mandou.”
Foi então que Leonard finalmente virou o monitor na direção dele, a irritação tornando seus traços mais duros.
“É disso”, disse ele, com a voz fria, “que eu estou falando. Vocês se atrasaram. Quero saber quem ele é e por que parou na frente dela.”
Theo sentiu o suor brotar na linha do cabelo. Ele já tinha revisto a gravação duas vezes.
“Era só um carro”, gaguejou. “Não dá para ver o rosto. A placa estava coberta. Não temos nenhuma pista no momento.”
O olhar de Leonard se intensificou, como se a decepção por si só pudesse esmagar ossos.
“Desculpe, senhor”, Theo se apressou em dizer. “Mas ele deve ter estado na festa. Podemos verificar as câmeras de vigilância na entrada. Ele pode ter notado ela quando a levou até o carro.”
Leonard se recostou na cadeira, os olhos semicerrados. “Melhor”, murmurou. “Eu não pago você para me dar desculpas. Pago você para pensar.”
Theo assentiu rapidamente, aliviado por ter sobrevivido à primeira tempestade. Leonard não ficava com raiva em voz alta; ele ficava com raiva em silêncio, e não havia nada mais perigoso do que isso.
Eles começaram a revisar as gravações, avançando rapidamente de trecho em trecho, com pixels e sombras se misturando. Quando o desespero começava a pesar nos ombros de Theo, a porta se abriu.
Millie entrou cambaleando levemente, com o perfume de champanhe impregnado no cabelo.
“Amor, isso é uma festa”, reclamou ela suavemente. “Por que você está trabalhando?”
O olhar dela varreu o cômodo. Ela relaxou quando percebeu que Lucinda não estava ali, mas a irritação no tom de Leonard caiu como um tapa.
“Millie, eu mandei você esperar. Beba o que quiser. Tenho coisas para resolver. Vejo você em breve.”
Ele não levantou os olhos. Nem sequer suavizou a voz. Chamou-a pelo nome em vez dos apelidos carinhosos que usava quando havia gente olhando.
Millie piscou, apertando os lábios, mas não ousou discutir. Virou-se e saiu andando como alguém recuando da jaula de um leão.
“Aí”, disse Theo de repente, apontando para a tela.
Um homem, alto, vestido inteiramente de preto. A cabeça abaixada sob um chapéu de caubói, a sombra engolindo seus traços. Ele andava com o tipo de calma que tornava algumas pessoas perigosas.
“Ninguém usou chapéu na festa”, disse Leonard em voz baixa, os dedos se fechando com mais força em torno do mouse.
A voz de Theo vacilou. “Ele deve ter colocado antes de sair. Isso cobre o rosto dele.”
Os olhos de Leonard ficaram afiados como vidro. “Envie a gravação para o mercado negro. Eu pago qualquer coisa para saber por que ele está atrás dela.”
Quando Lucinda acordou, o mundo estava encharcado de calor, fragrâncias doces, óleos suaves e vapor à deriva.
Uma mão gentil deslizou por suas costas, massageando músculos tensos. Por um instante, ela não soube onde estava.
Então a confusão a atingiu como um raio.
Ela estava deitada numa maca de massagem, vestindo apenas roupa íntima. “Onde... eu estou?”, sussurrou, com a voz trêmula, enquanto tentava se levantar.
Uma palma calma pressionou de leve seu ombro. “Por favor, relaxe, senhora”, disse uma voz suave, tentando tranquilizá-la. “A senhora está num spa. Seu marido nos instruiu a cuidar da senhora.”
Seu marido. Leonard.
A mente de Lucinda entrou em espiral. Qual era o motivo dele? Aquilo era uma forma de compensação? Uma distração? Controle com luvas de seda?
A sessão continuou, e ela ficou imóvel como alguém presa num sonho.
Óleos aromáticos, toalhas quentes, comida quente, uma manicure e pedicure meticulosas, o tipo de tratamento que uma mulher poderia apreciar se não tivesse sido largada inconsciente na calçada menos de um dia antes.
As horas se desfizeram numa calma forçada. Até que seu telefone vibrou.
Instagram da Millie.
Uma foto mostrava Leonard e Millie num iate, a luz do sol refletindo em suas taças de champanhe. Millie usava exatamente o vestido que Lucinda fora obrigada a tirar.
A legenda dizia, “O amor verdadeiro nunca morre.”
Lucinda ficou olhando. O calor subiu por seu peito, não do tipo quente e seguro, mas a ardência cortante da traição. Seus dedos se moveram sem hesitar.
“Pelo visto, você gosta não só de homem de segunda mão, mas também de roupa de segunda mão.”
O comentário provocou uma onda em seu corpo, em parte fúria, em parte alívio, mas o alívio não durou.
Leonard tinha mentido sobre seu “evento de negócios”.
Ele tinha arquitetado sua humilhação, ferido seu orgulho e garantido que ela ficasse fora do caminho.
Vinte e quatro horas haviam se passado, e ela percebeu que tinha sido jogada dentro de uma gaiola dourada.
Uma mensagem chegou. “Por que você comentou de forma tão cruel na postagem da sua irmã?” Era Leonard e adivinha só? Ela ignorou.
Quando o telefone tocou, ela o desligou.
Os funcionários a tratavam com gentileza, mas nenhum deles destrancava as portas de saída. Ela era mimada, alimentada, acalmada, mas não era livre.
Por fim, foi conduzida a um quarto. Luxuoso. Espaçoso. Perfeito demais. O tipo de quarto feito para fazer amantes se sentirem agradecidos.
A porta se abriu.
Leonard entrou, composto como se nada estivesse errado. O cansaço estava por trás de seus olhos, mas sua postura era de ferro.
“Eu disse para você se comportar”, ele falou. Seu tom era calmo, quase entediado, mas carregado de acusação. “E, ainda assim, você continua causando problemas.”
Lucinda ergueu o queixo, recusando-se a ser engolida. “Quero saber quais são as opções para o divórcio”, disse ela, com a voz firme e deliberada.
A expressão dele mudou. Algo frio cintilou sob a superfície, antigo e territorial.
Leonard se aproximou, sem pressa, sem dramatização, apenas passos lentos e calculados que denunciavam um homem que acreditava que o mundo lhe pertencia.
“Você quer o divórcio”, murmurou ele, com os olhos fixos nos dela. “Então vamos falar sobre o que isso realmente significa.”
E, no silêncio pesado que se seguiu, o ar se adensou. Não de afeto,
mas de poder, ameaça e da história amarga de duas pessoas que tinham deixado de se ver como amantes havia muito tempo e, em vez disso, passaram a se enxergar como adversários.
“Pode ir em frente. Tudo o que eu quero é a minha liberdade.”
