Capítulo 2
POV da Adela
“Então você vai mesmo fazer isso desta vez? Vai se divorciar de verdade?”
Elise puxou do cabide um vestido de gala de seda verde-esmeralda. A luz do sol que entrava pela janela bateu no tecido, fazendo-o cintilar como jade líquida.
Nós estávamos numa boutique de alta-costura na Quinta Avenida. Elise escolheu esse lugar especificamente para comemorar o meu “divórcio”.
“Vou”, eu passei os dedos pela seda lisa. “Desta vez é de verdade.”
Elise me encarou por alguns segundos e então abriu um sorriso: “Até que enfim, porra. Vai experimentar. Eu já deixei um sinal.”
Ajustei o decote do vestido esmeralda no espelho. Decotado, cintura bem marcada, o tecido se espalhando pelo chão. Era deslumbrante — tão deslumbrante que eu mal me reconheci.
“Meu Deus”, Elise sussurrou, “você tá incrível.”
O sino da porta tocou.
“Isabella, a Claudia quer ver sua nova coleção.”
Eu congelei.
Ergui os olhos — Massimo entrou com o braço em volta de Claudia.
“Esse lugar é maravilhoso.” A voz de Claudia escorria mel.
“O que você quiser, princesa”, Massimo disse, baixo. “É seu.”
Então ele levantou o olhar e me viu.
O rosto dele mudou na hora.
“Adela?” Ele tirou o braço de Claudia e veio na minha direção a passos largos, os olhos cinza-escuros em chamas. “Você tá me seguindo?”
Todo mundo na boutique parou.
Eu sustentei o olhar dele, calma: “Até onde eu sei, isso aqui é uma loja pública.”
“Não vem com essa MERDA!” Ele agarrou meu braço, apertando a ponto de machucar. “Você acha que eu não conheço seus joguinhos?”
Elise correu e empurrou ele com força: “Tira a porra das mãos dela!”
“Cala a BOCA!” Massimo lançou um olhar fulminante para ela e voltou para mim. “Da última vez no clube, agora aqui — Adela, que diabos você tá aprontando?”
Eu encarei o rosto dele, tomado de fúria. Uma lembrança veio à tona.
Depois do nosso terceiro divórcio, eu soube que ele vinha levando Claudia ao Midnight Rose. Eu não aguentei. Me disfarcei, entrei escondida. Por uma porta entreaberta, eu vi ele prensar Claudia contra um sofá, beijando-a.
Eu invadi o lugar para confrontá-lo. Ele me deu um tapa com as costas da mão e eu caí no chão.
“Você não me questiona.” Depois, para os homens dele: “Tranca ela no porão. Ensinem uma lição.”
O porão, preto como breu. Sem luz, sem som. Só o concreto gelado e ratos guinchando no escuro. Eu contava o tempo naquela escuridão até perder a noção de dia e noite. Com fome, congelando, apavorada — e ninguém vinha.
Quando a porta abriu no sétimo dia, eu mal conseguia ficar em pé. Massimo estava no fim do corredor, de costas para mim; nem virou: “Puxa essa merda de perseguição de novo e não vão ser sete dias.”
“Massimo”, eu — no presente — olhei para ele agora e respirei fundo. “Eu não tô te seguindo.”
“Então que diabos você tá fazendo aqui?”
“A Elise me convidou.” Eu fiz um gesto na direção da dona. “A Isabella pode confirmar que a gente chegou aqui faz uma hora.”
Isabella assentiu depressa: “Sim, as senhoras já tinham—”
“Chega.” Massimo soltou meu braço, franzindo a testa.
Claudia se aproximou, puxando a manga dele: “Massimo, deixa pra lá... vamos embora.”
Mas o olhar dela caiu no meu vestido verde-esmeralda. Os olhos brilharam: “Mas... esse vestido é realmente lindo.”
Ela se virou para Massimo, com a voz mais doce: “Eu preciso ficar com ele.”
Isabella olhou para mim, sem graça: “Desculpe, mas esta peça já foi comprada por—”
Claudia fez bico: “Massimo, eu amei de verdade... pro baile da família na semana que vem, eu quero usar esse.” Ela parou, com um tom de coitada. “Você sabe que minha perna me incomoda, eu mal consigo ir às lojas agora. É tão raro eu encontrar algo de que eu realmente goste...”
Massimo me encarou: “Adela, tira o vestido. Dá pra Claudia.”
Ele fez uma pausa e acrescentou: “Ela precisa dele pro baile. Você—” o olhar dele me percorreu, o tom displicente, “—em você, qualquer coisa fica igual.”
O recado foi cristalino — Claudia era a “esposa” de verdade, a que precisava estar impecável, enquanto eu era só uma substituta descartável.
Meus dedos se fecharam com força, as unhas cravando nas palmas.
O rosto de Elise ficou vermelho de raiva, quase avançando: “O quê? Nem FERRANDO! A Adela viu primeiro—”
“Dá pra ela.” Eu segurei o braço de Elise e sorri para Isabella. “Por favor, estorne o sinal.”
Isabella pareceu aliviada.
“Adela—” Elise me encarou, sem acreditar.
“Tá tudo bem.” Eu me virei em direção ao provador.
Eu me olhei no espelho, com o vestido verde-esmeralda. Era lindo mesmo. Uma pena — nunca foi pra mim.
Troquei de volta pra minha roupa, depois puxei Elise pelo braço e saí.
“Adela.” A voz de Massimo atrás de mim.
Eu não parei. Empurrei a porta e fui direto pro sol forte lá fora.
Atrás de mim, a voz melosa de Claudia: “Massimo, vem aqui, quero experimentar...”
O sininho da porta tocou, cortando o resto do som.
Elise estava fervendo: “Meu Deus, eu quero voltar lá e dar um soco nele. Aquele BABACA—”
“Ele não vale a pena.” Eu disse, baixinho.
Chegamos na esquina. A luz do sol estava cegante. Eu parei e tirei meus óculos escuros.
“Você tem certeza que tá bem?” Elise perguntou, com os olhos cheios de preocupação.
Eu olhei pra ela e dei um sorriso pequeno. Amargo, mas calmo: “Elise, você já viu alguém morrer trinta e três vezes?”
Ela travou.
“Eu cansei de morrer”, eu disse. “Agora é hora de começar a viver.”
A gente foi embora.
Pela vitrine de vidro, Massimo estava dentro da boutique, segurando aquele vestido verde-esmeralda. A voz de Claudia tagarelava no ouvido dele, mas ele não estava ouvindo.
Ele encarava a direção por onde tínhamos ido, de cenho franzido.
Normalmente, quando isso acontecia, eu chorava, fazia escândalo, quebrava coisas. Mas dessa vez eu tinha ficado quieta, como uma estranha.
Aquele silêncio o deixou inquieto.
