Capítulo 3

POV da Adela

Depois do divórcio, eu pedi demissão de todas as minhas funções na família Salvatore.

Chega de revisar contas, chega de coordenar fornecedores, chega de lidar com aqueles “assuntos de família” intermináveis. Se eu não era mais esposa dele, por que diabos eu deveria trabalhar para a família dele?

Os dias que vieram depois pareceram um sonho — acordar tarde, fazer aulas de pintura a óleo em ateliês, sair com a Elise em clubes de jazz.

Naquela noite, a Elise me arrastou para uma boate nova.

“Um amigo meu é dono daqui”, ela disse, enlaçando o braço no meu, com os olhos brilhando. “Tem show hoje — você vai amar.”

Lá dentro era tudo luzes esfumaçadas e música pulsando. Eu me sentei no nosso camarote, observando a galera enlouquecer na pista.

De repente, eu me lembrei de uma coisa que o Massimo disse uma vez: “Você é minha esposa. Se comporte como tal. Esses lugares não são pra você.”

Mas agora, ninguém estava me dizendo o que fazer.

“Um brinde à liberdade.” Elise ergueu o copo.

Eu encostei o meu no dela e virei de uma vez. A bebida desceu queimando minha garganta como fogo, mas alguma coisa fria dentro de mim começou a esquentar.

Meu celular vibrou.

Massimo ligando.

Eu encarei o nome dele, meio desnorteada. Em cinco anos, ele nunca tinha me ligado primeiro — a não ser pra me passar trabalho.

Depois de três segundos de hesitação, eu atendi.

“Alô?”

“Onde você está?” A voz do Massimo estava gelada. “Por que toda a contabilidade da família está travada? O Antonio disse que você largou tudo?”

Eu franzi a testa. “A gente não é mais casado, Massimo.”

“Isso não quer dizer que você pode ser IRRESPONSÁVEL!” A voz dele subiu. “Você estava tocando esses projetos. Simplesmente largar tudo — você tem ALGUMA ideia do caos que você causou?”

“Não é mais problema meu.”

“Não é seu problema?” Massimo soltou uma risada fria. “Adela, que joguinho é esse? Você acha que isso vai me obrigar a casar com você de novo?”

Um barulho de fundo atravessou a ligação — música, vozes. Ele pareceu perceber alguma coisa. “Você está numa boate?”

“E daí?”

“Pelo amor de Deus —” A fúria inundou a voz dele. “Você está aí festejando enquanto a família está desmoronando? Adela, você enlouqueceu? Eu achei que você só precisava de uns dias pra respirar, mas você está por aí se embebedando?”

Eu olhei as luzes girando na pista e, de repente, achei graça. “Massimo, eu só quero viver a minha vida.”

“Viver a sua vida?” O tom dele pingava sarcasmo. “E o negócio da família? Os contratos, as contas, os fornecedores — você acha que qualquer um consegue assumir isso do nada? Ou era exatamente isso que você queria? Usar isso pra me ameaçar, me forçar a ceder?”

Eu fechei os olhos e respirei fundo. “Eu tive um único dia de folga em cinco anos?”

Silêncio do outro lado.

“Mesmo quando eu estava no hospital”, continuei num tom baixo, “eu tocava os negócios da família da cama. Então não venha me falar de responsabilidade — eu tenho que dedicar cada segundo a você? Até ferramenta uma hora quebra.”

Massimo ficou em silêncio.

“Se for pressão do trabalho, a gente pode reduzir algumas das suas obrigações”, a voz dele suavizou de repente. “O Antonio pode assumir mais. Eu sei que nesses cinco anos... você fez muita coisa.”

Eu não respondi.

“Adela”, ele continuou, num tom incomumente sincero, “eu prometo, é a última vez. Assim que a situação da Claudia se resolver e a gente se casar de novo, eu vou compensar você. Você não vai precisar se matar tanto de trabalhar—”

Ele fez uma pausa, a voz ficando ainda mais branda: “Quarta que vem é o nosso aniversário. Eu lembro que você sempre quis ver aquela ópera siciliana, ‘Lágrimas ao Luar’. O Metropolitan vai fazer uma temporada na semana que vem. Consegui pra nós o melhor camarote.”

Meu coração apertou.

Quarta que vem — o dia em que eu ia voar pra Paris.

Durante cinco anos, eu mencionei aquela ópera incontáveis vezes. No primeiro ano ele disse que o trabalho estava corrido demais, no segundo ano ele tinha que levar a Claudia pra consultas, no terceiro ele nem me ouviu.

Uma hora eu parei de pedir. Não adiantava.

E agora, de repente, ele vem com isso. Justo no dia em que eu vou embora.

“Só nós dois”, Massimo disse. “A gente vai conversar direito. Dessa vez eu—”

“Massimo...”, a voz sensual da Claudia interrompeu. “Ainda no telefone...?”

Aí veio algo mais explícito: “Minhas costas estão doendo tanto... você foi bruto demais antes... vem me fazer massagem...”

Sons ao fundo — água da banheira correndo, tecido roçando, o riso dela, deliberadamente baixo.

As palavras de Massimo morreram na hora.

Eu estava no clube, com a música ensurdecedora, mas eu já não conseguia ouvir mais nada.

“Adela, eu...”, a voz dele ficou sem jeito. “Aconteceu uma coisa. A gente se fala depois. Pensa na ópera—”

“Não precisa”, eu cortei, com uma calma assustadora. “Eu não preciso da sua ‘compensação’.”

“Espera, só me ouve—”

Clique.

Eu desliguei.

Elise se aproximou, lendo minha expressão: “Ele tá te enchendo de novo?”

“Não.” Eu joguei o celular na bolsa e fiz sinal pro barman. “Foi só telemarketing.”

“Mais uma”, eu disse. “A mais forte que você tiver.”


Os dias seguintes passaram.

De vez em quando, Elise trazia notícias: “Ouvi dizer que o Massimo tá se afogando de trabalho. Sem você, as contas viraram um desastre completo.”

“A Claudia cagou um negócio de armas outro dia”, ela acrescentou, satisfeita. “Eles brigaram feio. O Massimo quase virou a mesa.” Ela fez uma pausa, num tom significativo. “Ele anda me ligando pra perguntar de você — três vezes. Parece bem preocupado.”

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