Capítulo 2
— Você ficou maluca pra caralho, Alice?! — a voz da mamãe estilhaçou o silêncio morto da UTI.
Ela atravessou a distância até a minha cama em segundos.
Os olhos dela corriam, tomados de pânico, mas ela forçou aquele conhecido tom de autoridade de ferro, desesperada para me pintar como a mentirosa. — A Lilia estava no complexo quando você levou o tiro!
— E não é só isso — mamãe disparou, o fôlego falhando. — Quando ela soube que você tinha sido atingida, a Lilia entrou em parada cardíaca grave. A gente quase perdeu ela. Graças a Deus encontraram um coração de doador bem a tempo.
Uma risada áspera e escura rasgou minha garganta.
Fixei meus olhos mortos nos dela.
— Uau. Que coincidência do caralho, né? — eu zombei. — No exato segundo em que um pistoleiro acaba com o meu coração, a Lilia milagrosamente vai parar no topo da lista de doadores com uma compatibilidade perfeita?
Um silêncio sufocante caiu sobre o quarto.
Todo o sangue sumiu do rosto da mamãe. Os lábios dela se abriram, tremendo, mas ela não conseguiu arrancar uma única palavra.
Olhando para aqueles rostos escavados pela culpa, um cansaço até os ossos me inundou. Eu não queria ouvir mais uma sílaba das desculpas de merda deles.
— Relaxa — sussurrei, fechando os olhos para esconder o veneno absoluto dentro deles. — Foi uma piada. Vai ficar com a Lilia. Eu estou exausta.
Eles congelaram e, em seguida, trocaram um olhar de puro alívio antes de praticamente fugirem do quarto.
Só Damian ficou. O impiedoso subchefe do sindicato ainda estava de joelhos ao lado da minha cama, os olhos escuros marejados de uma culpa lancinante.
— Você também — eu rouquejei. — Vai ver a Lilia. Depois volta e me conta tudo, tim-tim por tim-tim.
A mandíbula de Damian se contraiu. Ele hesitou, mas por fim se ergueu do chão e saiu.
No segundo em que a porta fez clique ao fechar, o quarto mergulhou num silêncio absoluto.
Ignorando a dor branca e incandescente nos pontos, estendi a mão às cegas sob o travesseiro atrás do meu celular.
Minha mente derivou para o acordo que eu tinha feito com as sombras — o demônio coletando os pecados da minha família como garantia e, em troca, a minha alma quando eu finalmente achatasse a linha.
Eu tinha exigido prova. O demônio entregou dois arquivos ocultos de segurança.
Assisti ao primeiro vídeo em loop: meus parentes de sangue, reunidos como uma matilha de lobos, orquestrando friamente o roubo do meu coração.
Então, cliquei no segundo vídeo. Vi a mamãe vestida com roupas cirúrgicas. Vi ela rachar meu esterno e arrancar o meu coração ainda batendo direto do meu peito, só para entregá-lo à Lilia.
Encarando aquelas caras triunfantes e nauseantes na tela. Eu fiquei tão feliz por ainda não ter morrido. Sangrar até a morte hoje teria sido fácil demais para eles.
Nos dias seguintes, eu aguentei a hipocrisia enjoativa dos “turnos no hospital” deles.
Mandavam uma pessoa por dia para sentar ao lado da minha cama, só para correr embora depois de mal dez minutos.
Desesperada para ir ao banheiro, me arrastei para fora da cama. Agarrada ao suporte do soro, segui pelo corredor.
Quando passei pela ala VIP, uma explosão de risadas quentes escapou por uma porta entreaberta.
Parei, cravada no lugar.
Lá estavam eles. Meu sangue e minha carne. Pairando ao redor da cama da Lilia como se ela pendurasse a porra da lua no céu. Damian estava sentado na beirada do colchão dela, assoprando uma colherada de caldo de frango antes de dar na boca dela.
Mamãe pairava por perto, com uma voz doce até dar nojo — um tom que eu não ouvia dirigido a mim havia meses. — Vai devagar, meu amor. O caldo é forte, e o seu coração novo ainda está se ajustando. Você precisa ter cuidado.
Lilia fez bico, se apertando mais contra o lado de Damian. — Eu não consigo evitar! O papai fez do zero. É bom demais pra desperdiçar.
Aí ela revirou os olhos, brincalhona. — Além disso, vocês estão me sufocando. Eu nem consigo esconder um pacote de salgadinho com todo mundo no meu pé, respirando na minha nuca.
Minhas unhas cravaram nas palmas com tanta força que eu rompi a pele.
Enquanto eu era deixada para engolir pão de hospital amanhecido sem uma única gota de sopa quente, a Lilia tinha a família governante inteira do sindicato corso brincando de enfermeira, comendo refeições que meu pai cozinhava com as próprias mãos.
A bile subiu arranhando minha garganta. Eu me virei para ir embora, mas, ao passar pelo posto de enfermagem, uma conversa baixa pregou meus pés no chão.
— Ué, eu achei que a Alice era a filha biológica?
— É — outra enfermeira sussurrou de volta. — Mas a Dra. Corsica é fria que nem gelo. Ela ordenou especificamente que eu enchesse a Alice de nutrientes pela veia vinte e quatro horas por dia.
—Para recuperar as forças dela?
—Porra nenhuma. Pra engordar ela, tipo um banco de sangue. Se o corpo da Lilia começar a rejeitar o coração, eles estão planejando drenar a Alice numa transfusão de corpo inteiro.
Fiquei completamente paralisada. A incisão fantasma no meu peito parecia estar sendo reaberta à força com uma lâmina cega. O frio penetrou direto na minha medula.
Houve um tempo em que um simples arranhão no meu joelho fazia a mamãe entrar em pânico. Ela literalmente virou a melhor cirurgiã cardiotorácica de Nova York só para cuidar melhor de mim.
Eu era uma criança doente. Quando eu estava à beira da morte, meus pais envelheceram dez anos numa única noite.
Meu pai expandiu o império do sindicato apenas para construir uma fortaleza impenetrável ao meu redor. Meu irmão, Luca, gastou milhões com equipes médicas de elite só para elaborar meus planos de recuperação pós-operatória.
E o Damian... eu literalmente implorei à minha família para tirá-lo de um banho de sangue quando ele era só um soldadinho.
Todo mundo no submundo de Nova York sabia que Alice Corsica era intocável. Eu tinha salvado Damian sem saber, e ele guardou isso por anos, me perseguindo por três antes de a gente ficar noivo.
Naquela noite, ele me entregou o controle de toda a rede de tráfico de armas dele. Como a garota mais mimada e protegida da máfia, eu achei que tinha tudo.
Até eu fazer vinte anos. Sequestrada por rivais, traficada para uma ilha remota no exterior, eu quase apodreci lá.
Naquele abismo absoluto, eu acidentalmente sanguei sobre um antigo selo, despertando um demônio preso lá dentro. Preso a leis antigas, ele não podia tomar uma alma à força; precisava de um hospedeiro disposto. Então, ele se prendeu à minha sombra, esperando.
Cinco anos depois, o sindicato finalmente me encontrou. Minha família se agarrou às minhas mãos, chorando convulsivamente.
Mamãe, papai e Luca me sentaram e me serviram a historinha deles: “Alice, não liga pra Lilia. Ela é filha do velho Costa. Ele morreu num tiroteio pela família, e a mãe dela foi logo depois. Durante os cinco anos em que você esteve desaparecida, seu pai a viu, achou que ela parecia um pouco com você e não teve coragem de abandoná-la. Ela tem um coração fraco. Trata como uma irmãzinha que precisa de cuidados. Você ainda é a nossa única garota preciosa.”
Como uma idiota ingênua, eu acreditei. Eu tratei a Lilia de verdade como se fosse do meu próprio sangue.
Mas, a partir daquele momento, a mudança começou.
Se a Lilia dava um suspiro e apertava o peito, a mamãe virava num estalo e me fuzilava com os olhos. “O que foi que você disse pra deixar ela assim, Alice?”
Quando o papai cozinhava, ele só fazia os pratos favoritos da Lilia, coisas às quais eu era alérgica ou que eu não conseguia nem engolir.
As equipes médicas milionárias do Luca mudaram totalmente o foco para pesquisar “curas milagrosas pro coração da Lilia”.
E o Damian... nas nossas brigas, ele de fato estourava comigo: “Pelo amor de Deus, Alice, por que você não pode ser mais como a Lilia? Tenta ser doce uma vez na vida em vez de ser uma escrota.”
Tinha sido premeditado o tempo todo. E agora eles eram capazes até de conspirar pra me retalhar pelo meu coração, planejando me enjaular como gado pra me sangrar sempre que a preciosa Lilia precisasse!
Uma onda violenta e sufocante de dor me atingiu. Meu peito doía tanto que parecia ter sido esvaziado por dentro. Eu só queria dar o fora dessa merda de lugar doentio.
Eu me mexi rápido demais. Meu pé descalço escorregou no azulejo molhado, e eu caí com força no chão.
Riiiiiiip.
Os pontos no meu estômago e no meu peito arrebentaram ao mesmo tempo. Sangue quente encharcou na hora o meu avental de hospital. Uma dor cegante me obrigou a me encolher em posição fetal, enquanto as bordas da minha visão escureciam.
O instinto fisiológico, puro e patético, arrancou um sussurro fraco dos meus lábios. “Mãe...”
Bem antes de eu apagar, ouvi uma debandada frenética de passos. Com a vista turva, vi minha família e o Damian correndo na minha direção.
Mamãe chegou primeiro, agarrando meus braços para me puxar de dentro da poça de sangue.
Por um segundo fugaz, eu achei que ela estava me segurando por amor. Mas quando os olhos dela caíram nas minhas feridas rasgadas e sangrando, a testa dela se fechou imediatamente, dura.
Ela olhou pra mim de cima, com os olhos ardendo de nojo escancarado.
—Alice! —ela sibilou, a voz venenosa. —Você só pode estar de sacanagem. Viu a gente com a Lilia e aí resolve arrebentar os próprios pontos pra chamar atenção? Você é inacreditável!
