Capítulo 3

“Você enlouqueceu de vez, porra?!”

Minha mãe berrou.

O sangue vermelho-escuro ainda jorrava do meu abdômen rasgado, mas, para ela, até a minha dor agonizante, à beira da morte, não passava de um teatrinho barato por atenção.

“Você faz uma cena dessas e como diabos vai sair daqui amanhã com a Lilia?” Ela me fulminou, ali, na poça do meu próprio sangue, os olhos em chamas — não de preocupação, mas da fúria de uma agenda estragada. “Você está tão determinada assim a arruinar o grande dia da sua irmã?”

“Chega. Não desperdiça saliva com ela”, meu pai rosnou para o cirurgião plantonista, que tremia. “Costure ela. Agora. A festa de boas-vindas da Lilia vai acontecer sem nenhum problema.”

Para garantir que eu não atrasasse o “timing perfeito” da Lilia, eles nem esperaram a anestesia local fazer efeito por completo.

Eu senti cada puxão brutal da agulha curva atravessando minha carne em carne viva.

Avança vinte e quatro horas.

Os portões de ferro forjado da propriedade Corsica se fecharam atrás de mim, trancando.

Fraca demais até para ficar de pé, eu estava, na prática, amarrada a uma cadeira de rodas. Dois brutamontes me ladeavam. Eles chamavam de “vigilância antissuicídio”. Eu chamava de não conseguir mijar sem plateia.

“Manhã linda!” meu pai bradou pelo saguão imponente, exibindo um raro sorriso paternal. “Conseguimos a melhor mesa num restaurante com estrela Michelin em Manhattan. Vamos comemorar a volta da Lilia e da Alice pra casa!”

Os seguranças me empurraram na direção da entrada da garagem. Do começo ao fim, nenhum dos meus parentes de sangue se deu ao trabalho de perguntar: Você sequer quer ir?

O ar frio do outono mordeu minha pele. Lilia, vestida como uma boneca de porcelana, veio saltitando, empurrou o segurança para o lado e agarrou as manoplas da minha cadeira.

“Deixa comigo!”, ela cantarolou. “Faz séculos que a gente não tem um dia de irmãs.”

A gente não andou nem um metro.

“Ai!”

Lilia soltou um grito. Os joelhos dela milagrosamente falharam, e ela desabou no asfalto, esparramada.

Ela apertou o joelho, as lágrimas caindo na hora certa. “Pai... a Alice puxou pra trás do nada. A cadeira balançou, e eu caí...”

Eu encarei a atuação dela, sem expressão. “Minhas mãos não saíram do meu colo.”

“Você mal saiu de uma cama de hospital e já está aprontando essa merda?!” meu pai sibilou. Ele cruzou a distância em dois passos, erguendo uma mão enorme para me dar um tapa no rosto.

“Não.”

Uma mão se fechou ao redor do pulso pesado do meu pai. Damian.

Os olhos vazios dele travados em mim, com absolutamente zero calor. “Alice, seus pontos são recentes. Está claro que você não está com a cabeça no lugar. Você vai ficar.”

Damian colou em mim, sem esforço, o rótulo de “agressora”. Ele segurou as manoplas da minha cadeira. “Vou levar você de volta para o seu quarto.”

“Damian...” Lilia se levantou do asfalto num salto e, na mesma hora, se agarrou ao bíceps dele. Olhou para ele por entre cílios molhados. “Mas é meu primeiro dia fora. Se você não for, eu nem vou ter apetite.”

Damian congelou. O olhar dele foi de uma para a outra, e a mão dele na minha cadeira demorou um segundo a mais do que devia.

Encarando o homem que eu amei com ferocidade por oito anos, eu engoli a bile subindo na minha garganta.

“Vai”, eu disse, num tom plano. “Eu consigo me virar sozinha. Você não precisa de duas pessoas babando uma aleijada.”

Damian hesitou por exatamente dois segundos antes de soltar. Como se um peso tivesse saído das costas dele, ele se virou e seguiu Lilia até o Maybach blindado.

Uma dor lancinante nos cortes recém-feitos me sacudiu acordada.

3h00. Os lençóis ao meu lado estavam frios e perfeitamente esticados. Damian tinha sumido.

Usando a parede de apoio, eu arrastei meu corpo pesado para fora do quarto. A propriedade imensa estava em silêncio absoluto e mergulhada na escuridão, exceto pelo brilho suave e íntimo que vazava por baixo da porta da Lilia, no fim do corredor.

No meio da noite, as vozes escapando pela fresta atravessaram meus tímpanos como uma lâmina serrilhada.

“Você diz que me ama, mas continua ficando no quarto dela!” A voz chorosa e manhosa da Lilia passou pela fresta. “Até quando a gente vai brincar disso? Ela é uma casca vazia, Damian! Do que você está se agarrando?”

“Shh. Para de chorar.” A voz baixa e áspera de Damian a acalentou. “Você sabe exatamente quem eu quero.”

Uma dor fantasma apertou meu peito.

“Além disso, seu transplante é novinho. Se der rejeição, a gente vai precisar do sangue dela pra te manter de pé. Ela está fora de cogitação. Por enquanto.”

Inclinei-me contra o reboco, mordendo os nós dos dedos até sentir gosto de cobre. Fiquei ali, ouvindo os gemidos ofegantes e o roçar dos lençóis, até o sol nascer.

A luz da manhã ardeu nos meus olhos secos. Quando minha mãe e meu pai finalmente saíram da suíte principal, pararam, congelados, ao me verem largada do lado de fora da porta de Lilia como um fantasma.

“Alice? Que porra você está fazendo aqui?” minha mãe rosnou. “Você está tendo outro surto?”

Não respondi. Só agarrei a maçaneta de latão e chutei a pesada porta de carvalho, escancarando-a.

Marchai direto até a cama e puxei o edredom para trás.

No meio dos suspiros em pânico, ergui o celular e tirei uma foto dos corpos nus e embolados de Damian e Lilia.

“Por que caralhos você está pelado, com a bunda de fora, na cama da minha irmã?” soltei, num riso sombrio engasgado, apertando o peito em chamas.

Damian se atrapalhou para puxar os lençóis até a cintura, o rosto ficando vermelho-escuro. “Alice, você enlouqueceu?! A Lilia teve fortes dores no peito ontem à noite! Eu achei que fosse um episódio de rejeição, eu só vim monitorar ela!”

Lilia se encolheu, virando uma bolinha, enrolando os lençóis no corpo enquanto as lágrimas começavam a cair. “Alice, por favor... Meu coração estava me matando ontem à noite. Eu achei que ia morrer. Eu mandei os guardas chamarem o Damian porque eu estava apavorada! A gente não fez nada, eu juro por Deus!”

O resto da família se amontoou no vão da porta. Nenhum deles olhou para os dois traidores com um pingo de nojo.

Em vez disso, meu pai fez um gesto de desdém. “Se a Lilia estava com tanta dor, faz sentido o Damian ter ficado para ficar de olho. Para de agir como uma vadia louca por nada.”

Minha mãe cruzou os braços, me encarando como se eu fosse a peste. “Ela acabou de passar por um transplante grande. Alguém precisava estar lá para chamar os médicos! O que há de errado com você? Você está com ciúme de uma emergência médica, é isso mesmo?”

Até Luca, meu irmão covarde, não conseguiu encarar meus olhos. “Alice, o Damian só estava cuidando do investimento da família. Para de paranoia.”

Olhei para os três, um sorriso lento e psicótico se abrindo no meu rosto.

“Só monitorando ela?” Desbloqueei o celular, aumentei o volume e apertei o play.

“Ela é uma casca estéril... Se você entrar em rejeição, a gente vai precisar do sangue dela...”

As palavras imundas e calculadas da noite anterior ricochetearam pelas paredes do quarto.

A cor sumiu do rosto de Lilia na mesma hora. Um segundo depois, ela agarrou o peito, os olhos revirando, e começou a puxar o ar aos engasgos. “Mãe... meu peito... está doendo... eu não consigo respirar...”

“Lilia!”

Dei meio passo à frente, mas antes mesmo de o pé tocar o chão, a mão de Elena estalou no meu rosto num tapa de costas brutal.

A força me derrubou no chão. O gosto metálico de sangue inundou minha boca.

Lá embaixo, na ala de trauma subterrânea do complexo, os monitores estavam berrando.

Elena encarava sem expressão os sinais vitais de Lilia despencando, então lançou um olhar mortal para a enfermeira particular. “Tire o sangue da Alice. Agora. A Lilia não tem tempo.”

A enfermeira rasgou a embalagem de um kit de acesso venoso de calibre grosso.

“E-eu... eu fui aberta ontem...” eu tremia violentamente, a voz mal passando de um sussurro. “Por favor... só me dá um minuto...”

Uma mão pesada e implacável prendeu meu ombro na maca.

Damian me fitou de cima com nojo absoluto. “A Lilia está descompensando porque você provocou ela com essa gravação maldita. É só um pouco de sangue, Alice. Para com esse teatrinho de mártir.”

Do outro lado, Luca agarrou meu braço num aperto de ferro, e com a mão livre cobriu meus olhos com agressividade. “Só fecha os olhos. Vai acabar em um minuto. Para de dificultar mais do que precisa.”

Dentro da cavidade oca onde meu coração costumava bater, a última brasa de esperança entrou em linha reta.

Fiquei completamente mole. Como uma boa bolsinha de sangue, ofereci meu braço machucado à enfermeira.

“Tira,” sussurrei para o teto. “Me sangra até secar, se ela precisar.”

Uma hora agonizante depois, os monitores enfim se calaram.

A cor voltou às bochechas de Lilia. Um suspiro coletivo de alívio varreu a sala.

Elena arrancou as luvas de látex ensanguentadas. Virou-se, cravando um olhar letal no meu canto do cômodo. “Certo, Alice. Vamos resolver essa palhaçadinha que você aprontou hoje—”

As palavras morreram de repente na garganta dela, se rasgando para fora num grito cru e gutural.

Os homens se viraram num solavanco, seguindo o olhar horrorizado dela.

Eu estava caída sobre a borda da maca.

O bisturi estava enfiado até o cabo, cravado bem no centro do meu peito.

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