Capítulo 2 Sarah
— Sarah
Há pessoas que dizem que a faculdade é a melhor fase da vida.
Eu discordava completamente.
Na maior parte do tempo, ela era apenas uma sequência interminável de trabalhos, seminários, provas, estágios e professores que acreditavam que suas disciplinas eram as únicas existentes no mundo.
Meu nome é Sarah.
Tenho dezenove anos.
Estou no último ano da faculdade de Pedagogia, com ênfase em Educação Infantil e Adolescente.
Sempre sonhei em ser professora.
Acredito que uma criança pode mudar o mundo quando encontra alguém que acredita nela. Talvez esse sonho tenha surgido por influência da minha mãe, que dedica boa parte da vida ajudando crianças em orfanatos, ou talvez porque eu simplesmente nunca consegui ignorar a dor das pessoas.
Meus pais fazem enormes sacrifícios para pagar minha faculdade.
Meu pai trabalha como delegado da cidade. Passa dias e noites combatendo criminosos, enfrentando situações perigosas e chegando em casa completamente exausto.
Minha mãe deixou o emprego há alguns anos para se dedicar ao trabalho voluntário. Ela visita orfanatos, asilos e instituições de caridade quase todos os dias. Sempre que posso, faço questão de acompanhá-la.
Ver o orgulho nos olhos deles quando falam da minha formação faz todo esforço valer a pena.
Por isso, nunca reclamei das noites mal dormidas ou das pilhas de livros espalhadas pelo meu quarto.
Eu estudava porque queria retribuir tudo o que eles faziam por mim.
Mesmo assim...
Naquele dia...
Meu cérebro simplesmente havia desistido de prestar atenção.
O professor falava sobre teorias pedagógicas enquanto minha mente viajava para qualquer lugar, menos para aquela sala de aula abafada.
Nem percebi quando o sinal tocou.
Só despertei quando Vitória fechou meu caderno de uma vez.
— Sarah! Volta para a Terra!
Pisquiei algumas vezes.
— A aula acabou?
Daiana caiu na gargalhada.
— Você passou metade da aula olhando para a janela.
Sorri sem graça.
— Acho que estou um pouco cansada.
Vitória passou o braço pelos meus ombros.
— Nada disso. Você precisa é de um sorvete.
Não precisei pensar duas vezes.
Depois de horas presa naquela sala, qualquer desculpa para sair era perfeita.
Poucos minutos depois, caminhávamos pela praça central da cidade até a sorveteria.
O lugar estava cheio de estudantes.
Casais dividiam taças enormes.
Crianças corriam entre as mesas.
A cidade era pequena, tranquila e praticamente todo mundo conhecia todo mundo.
Sentamos perto da janela.
Enquanto escolhia meu sorvete de flocos, percebi minhas amigas trocando olhares maliciosos.
Conhecia aquelas expressões.
Elas estavam aprontando.
— O que foi agora? — perguntei.
Vitória sorriu.
— Você viu os garotos novos da nossa sala?
Franzi a testa.
— Entraram alunos novos?
As duas arregalaram os olhos.
Daiana levou a mão ao peito dramaticamente.
— Meu Deus...
— Você realmente não viu?
Balancei a cabeça.
— Não.
— Eles são lindos! — Vitória praticamente suspirou. — Principalmente aquele moreno alto.
— O de olhos verdes... — completou Daiana.
Dei de ombros.
— Nem reparei.
As duas começaram a rir.
— Sarah, você vive em outro planeta.
— Você precisa começar a olhar para os homens.
Revirei os olhos.
Lá vinha aquele assunto de novo.
Daiana cruzou os braços.
— Desse jeito você vai chegar aos trinta anos virgem.
Vitória fez cara de pensativa.
— Ou talvez...
Ela estreitou os olhos para mim.
— Você simplesmente goste de mulheres.
Quase engasguei com o sorvete.
— Vitória!
Ela começou a rir.
— Estou falando sério!
— Claro que não!
Balancei a cabeça imediatamente.
— Não tenho absolutamente nada contra quem gosta de pessoas do mesmo sexo. Cada um vive sua vida como quiser.
Respirei fundo antes de continuar.
— Mas eu gosto de homens.
— Só não gostei de nenhum até hoje.
Daiana apoiou o queixo na mão.
— Isso explica muita coisa.
Sorri.
— O problema é que vocês se apaixonam pelo primeiro bonito que aparece.
Vitória protestou.
— Ei!
Continuei.
— Depois passam semanas chorando porque descobriram que ele estava ficando com outras cinco garotas ao mesmo tempo.
As duas ficaram em silêncio.
Acertei em cheio.
Suspirei.
— Eu não quero isso para mim.
Olhei para elas com sinceridade.
— Quero alguém que realmente me respeite.
Alguém que olhe para mim como se eu fosse suficiente.
Não quero viver colecionando decepções.
Prefiro esperar.
Mesmo que demore.
Mesmo que eu continue sendo a única virgem da turma.
Daiana sorriu de lado.
— Você ainda acredita em príncipe encantado.
Balancei a cabeça.
— Não.
— Eu acredito em caráter.
Depois de nos despedirmos, coloquei a mochila nas costas e comecei a caminhar até minha casa.
O percurso levava cerca de vinte minutos.
Eu gostava daquele caminho.
As ruas eram tranquilas.
As árvores faziam sombra sobre a calçada.
Uma brisa fresca amenizava o calor daquela tarde.
Caminhava distraída, pensando na conversa com minhas amigas, quando ouvi o ronco de uma motocicleta.
Ela parou exatamente na minha frente.
Assustada, dei um passo para trás.
O motociclista retirou o capacete.
Sorriu.
— Assustei você, pirralha?
Sorri imediatamente.
— Caleb!
Ele era praticamente parte da minha família.
Nos conhecíamos desde crianças.
Depois que os pais dele morreram em um acidente de carro, meu pai passou a ajudá-lo em tudo.
Hoje Caleb era policial.
Trabalhava na delegacia ao lado do meu pai.
Apesar da diferença de idade, nossa amizade continuava exatamente igual.
Ele apontou para a moto.
— Seu pai mandou eu buscar você.
Revirei os olhos.
— Ah, não...
— Estou falando sério.
— Ordem direta do delegado.
Cruzei os braços.
— Meu pai acha que ainda tenho dez anos.
Caleb deu de ombros.
— Eu só obedeço.
Depois sorriu.
— Sobe aí.
Olhei para a moto.
Depois para ele.
Um sorriso travesso surgiu no meu rosto.
— Só aceito...
— Se você me levar até aquela floresta.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— A floresta?
Assenti.
— A do lago.
A mesma onde brincávamos quando éramos crianças.
O sorriso dele desapareceu.
— Sarah...
— Seu pai proibiu você de ir lá.
Cruzei os braços.
— Ele não precisa saber.
Caleb passou a mão no rosto.
— Você ainda vai me matar.
Pegou o capacete extra.
— Coloca isso.
Sorri vitoriosa.
Sabia que ele acabaria cedendo.
A motocicleta avançava pela estrada cercada por árvores.
Segurei firme em Caleb.
O vento bagunçava meu cabelo.
Sempre adorei andar de moto.
A sensação de liberdade era indescritível.
Pouco tempo depois chegamos.
A floresta permanecia exatamente como eu lembrava.
Silenciosa.
Linda.
Misteriosa.
Descemos da moto.
Seguimos por uma pequena trilha.
Até encontrarmos o lago.
A água refletia o céu como um enorme espelho.
Sentei na margem.
Respirei profundamente.
Era como voltar à infância.
Caleb sentou ao meu lado.
Ficamos alguns minutos em silêncio.
Depois ele perguntou:
— Então...
— Por que quis voltar justamente hoje?
Olhei para o lago.
As palavras saíram quase sem perceber.
— Acho que estou cansada.
Ele permaneceu em silêncio.
Continuei.
— Todo mundo parece querer decidir como devo viver.
Contei sobre a conversa com Vitória e Daiana.
Sobre a pressão.
Sobre os julgamentos.
Quando terminei, Caleb suspirou.
— Posso falar uma coisa?
Assenti.
— Elas enxergam o mundo do jeito delas.
Você não precisa fazer o mesmo.
Olhei para ele.
— Você é inteligente.
Linda.
Educada.
Tem objetivos.
É normal que alguns homens se aproximem apenas pela aparência.
Mas o cara certo...
Vai admirar quem você é.
Sorri emocionada.
— Obrigada.
Ele bagunçou meu cabelo.
— Você continua sendo uma pirralha.
Empurrei seu ombro.
— Chato.
Ele levantou de repente.
— Já volto.
— Vai aonde?
— Dar um mergulho.
Antes que eu respondesse, ele pulou no lago completamente vestido.
A água espirrou para todos os lados.
— Caleb!
Ele começou a rir.
Pegou água com as mãos.
Jogou em mim.
— Idiota!
Levantei para fugir.
Foi quando ouvi.
Um galho quebrando.
O som veio atrás de uma árvore enorme.
Meu sorriso desapareceu.
Olhei naquela direção.
Tudo ficou estranhamente silencioso.
Nem os pássaros cantavam mais.
Dei alguns passos.
Meu coração acelerou.
Então...
Eu o vi.
Um enorme lobo.
Era muito maior do que qualquer animal que eu já tinha visto.
Seu pelo negro parecia absorver a luz da floresta.
Os músculos eram enormes.
As patas afundavam levemente no solo.
Mas foram seus olhos que prenderam completamente minha atenção.
Vermelhos.
Intensos.
Hipnotizantes.
Ele me observava.
Não como um predador.
Parecia...
Curioso.
Como se estivesse tentando me reconhecer.
Estranhamente...
Eu não sentia medo.
Qualquer pessoa sairia correndo.
Mas eu não conseguia.
Era como se alguma força invisível me mantivesse parada diante dele.
Meu coração acelerava.
Não de pânico.
Mas por uma sensação que jamais havia experimentado.
Meu corpo inteiro se arrepiou.
Algo despertava dentro de mim.
Algo antigo.
Algo impossível de explicar.
Foi então que ouvi um grito ao longe.
— Sarah!
Era Caleb.
Desviei os olhos por apenas um segundo.
Quando voltei a olhar...
O lobo ainda estava ali.
Continuava me encarando.
Então ele deu um passo para trás.
Mais um.
E desapareceu entre as árvores com uma velocidade inacreditável.
— Espera!
Corri atrás dele.
Passei pelos arbustos.
Afastei galhos.
Olhei para todos os lados.
Nada.
Era como se ele nunca tivesse existido.
Meu coração batia descompassado.
Girei lentamente tentando encontrá-lo.
A floresta estava completamente vazia.
Foi quando senti uma mão tocar meu ombro.
Soltei um grito.
Virei rapidamente...
