Capítulo 3 Sonhos que a Floresta Não Esquece

Um arrepio percorreu minha espinha no instante em que senti uma mão tocar meu ombro.

Meu coração disparou.

O grito escapou antes mesmo que eu pudesse pensar.

— AAAAAH!

Virei-me rapidamente, pronta para correr se fosse necessário.

Mas encontrei apenas um rosto conhecido.

Caleb.

Ele arregalou os olhos por um segundo e, logo depois, caiu na gargalhada.

Segurava a barriga de tanto rir.

— Meu Deus, Sarah... você precisava ver a sua cara!

Levei a mão ao peito, tentando controlar a respiração.

Meu coração parecia querer sair pela boca.

— Caleb! Você ficou maluco?

Dei um tapa fraco em seu braço.

— Você quase me matou de susto!

Ele continuava rindo.

— Eu te chamei umas cinco vezes!

— Você estava completamente parada, olhando para o mato como se tivesse visto um fantasma.

Respirei fundo.

Olhei novamente para as árvores.

O lugar onde o enorme lobo estava poucos segundos antes agora parecia completamente vazio.

Nem um galho se movia.

Nem um ruído.

Era como se o animal jamais tivesse existido.

Passei a mão na nuca, ainda tentando entender o que havia acontecido.

— Eu... eu vi alguma coisa.

Caleb franziu a testa.

— Alguma coisa?

Assenti lentamente.

— Parecia...

Engoli em seco.

— Um lobo.

O sorriso dele desapareceu.

Por alguns segundos, ele apenas me encarou.

Depois balançou a cabeça.

— Não.

— Isso é impossível.

— Você deve ter confundido com um cachorro-do-mato ou algum animal selvagem.

Cruzei os braços.

— Caleb...

— Eu sei o que vi.

Ele suspirou.

— Sarah, escuta.

Aproximou-se um pouco mais.

— Os caçadores exterminaram todos os lobos desta região há muitos anos.

— Não existe mais nenhum por aqui.

As palavras dele me deixaram ainda mais inquieta.

— Mas aquele não parecia um cachorro.

Ele era enorme.

Os olhos...

Fechei os olhos por um instante.

Ainda conseguia enxergá-los.

Vermelhos.

Intensos.

Quase humanos.

Sacudi a cabeça.

— Talvez eu esteja ficando maluca.

Caleb colocou uma das mãos sobre meu ombro.

— Você só está cansada.

Faculdade.

Trabalhos.

Estágio.

Sua cabeça deve estar pregando peças.

Sorri de maneira forçada.

Talvez ele estivesse certo.

Ou talvez eu apenas estivesse tentando acreditar nisso para não enlouquecer.

Respirei fundo.

— Vamos embora.

Já chega de floresta por hoje.

A viagem de volta foi completamente diferente da ida.

Na ida, eu ria.

Conversava sem parar.

Brincava com Caleb o caminho inteiro.

Na volta...

O silêncio me acompanhava.

Mesmo com o vento batendo contra meu rosto, minha mente continuava presa naqueles olhos vermelhos.

Quanto mais tentava esquecê-los...

Mais eles voltavam.

Era como se o lobo ainda estivesse me observando.

Quando chegamos em frente à minha casa, Caleb desligou a motocicleta.

Desci lentamente.

Estava prestes a entrar quando senti alguém segurar minha mão.

Olhei para trás.

Era ele.

Caleb me observava com uma expressão diferente.

Mais séria.

Mais preocupada.

— Sarah...

Você tem certeza de que está bem?

Forcei um sorriso.

— Claro.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Não minta para mim.

Você ficou calada o caminho inteiro.

Isso nunca acontece.

Normalmente sou eu quem precisa pedir para você respirar entre uma frase e outra.

Acabei rindo.

Era verdade.

Sempre fui a mais falante entre nós.

— Estou bem.

Só lembrei que tenho um trabalho enorme para entregar na faculdade.

Ele continuou me olhando.

Como se tentasse descobrir se eu estava escondendo alguma coisa.

Talvez eu realmente estivesse.

Mas nem eu sabia exatamente o quê.

— Tem certeza?

Assenti.

— Tenho.

Inclinei-me e dei um leve beijo em sua bochecha.

— Obrigada por me trazer.

Até amanhã.

Antes que ele pudesse insistir, entrei rapidamente em casa.

Assim que fechei a porta...

Percebi que havia alguém me esperando.

Minha mãe.

Ela estava parada no meio da sala.

Os braços cruzados.

A expressão séria.

Conhecia aquele olhar.

Estava encrencada.

— Muito bonito, dona Sarah.

Sorri sem graça.

— Oi, mãe...

Ela ignorou meu sorriso.

— Enquanto eu estava aqui preocupada...

Você estava passeando sabe Deus onde com o Caleb.

Suspirei.

Lá vinha o interrogatório.

— Nós só fomos dar uma volta.

Ela caminhou lentamente até mim.

Seu olhar era firme, mas cheio de carinho.

— Filha...

Vocês já cresceram.

Não são mais duas crianças correndo pelo quintal.

Mesmo tendo sido criados juntos...

Vocês não são irmãos.

Sorri.

Aquilo era engraçado.

Nunca consegui imaginar Caleb como outra coisa além do meu melhor amigo.

Meu irmão de coração.

— Pode ficar tranquila.

Nunca olhei para o Caleb dessa maneira.

Nem ele para mim.

Somos praticamente uma família.

Minha mãe pareceu relaxar um pouco.

Mas logo fez outra pergunta.

— Vocês...

Não voltaram naquela floresta, voltaram?

Meu sorriso desapareceu.

Droga.

Ela havia acertado.

— Mãe...

Ela respirou fundo.

— Sarah...

Seu pai proibiu você de ir até lá.

Você sabe disso.

Cruzei os braços.

— É justamente isso que eu não entendo.

Por quê?

Por que ele odeia tanto aquela floresta?

Minha mãe desviou o olhar.

Como se procurasse uma resposta.

Depois balançou a cabeça.

— Eu realmente não sei.

Seu pai nunca gostou de falar sobre aquele lugar.

Sempre muda de assunto.

Então aprendi a respeitar esse silêncio.

Suspirei.

— Às vezes acho que ele esquece que eu cresci.

Mamãe sorriu discretamente.

Continuei.

— Hoje ele mandou o Caleb me buscar na faculdade.

Como se eu não soubesse voltar para casa sozinha.

Ele acha que ser delegado lhe dá o direito de controlar tudo.

Minha mãe aproximou-se.

Passou a mão em meus cabelos.

— Seu pai só quer proteger você.

Revirei os olhos.

— Proteger?

Se dependesse dele, eu já estaria casada com algum amigo policial dele.

Aqueles homens velhos...

Só de lembrar me dá arrepios.

Minha mãe riu.

— Você exagera.

— Não exagero.

Ela ficou séria novamente.

— Mesmo assim...

Evite discutir com ele.

Ele anda muito nervoso.

Ultimamente chega em casa irritado.

Antes...

Quando voltava das caçadas...

Sempre parecia mais tranquilo.

Mas da última vez...

Foi diferente.

Ele voltou estranho.

Nunca mais quis entrar naquela floresta.

Aquela informação despertou minha curiosidade.

— Mãe...

Que tipo de animal o papai costuma caçar?

Ela respondeu naturalmente.

— Vários.

Javalis.

Veados.

Animais selvagens.

Mas...

Os favoritos dele sempre foram os lobos.

Meu corpo inteiro congelou.

— Lobos?

Ela percebeu minha reação imediatamente.

— Sim.

Por quê?

Engoli em seco.

Balancei a cabeça.

— Nada...

Só achei curioso.

Inclinei-me.

Beijei sua testa.

— Vou para o meu quarto.

Antes que ela pudesse fazer mais perguntas, subi rapidamente as escadas.

Joguei a mochila no chão.

Fechei a porta.

Deitei na cama.

Fiquei encarando o teto branco do quarto.

Minha cabeça parecia um enorme quebra-cabeça.

As peças não se encaixavam.

Meu pai odiava aquela floresta.

Caçava lobos.

Caleb dizia que todos haviam sido exterminados.

Mas...

Eu tinha visto um.

Eu sabia que tinha.

Fechei os olhos.

A imagem dele voltou imediatamente.

O pelo negro.

O porte gigantesco.

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