Capítulo 4 Olhos

Os olhos vermelhos.

Mas o mais estranho...

Era que eu não havia sentido medo.

Qualquer pessoa sairia correndo.

Eu não.

Era como se alguma parte de mim...

O reconhecesse.

Virei para o lado.

Outra pergunta surgiu.

Será que meu pai participou daquela caçada?

Será que ele matou aqueles animais?

Será que o lobo que encontrei estava escondido todos esses anos?

Ou...

Será que ele estava me observando?

Balancei a cabeça.

— Sarah...

Você está ficando maluca.

Respirei fundo.

Apaguei a luz.

Fechei os olhos.

Poucos minutos depois...

O sono finalmente me venceu.

A escuridão tomou conta de tudo.

Eu estava novamente naquela floresta.

Mas ela parecia diferente.

Mais fria.

Mais silenciosa.

Uma névoa cobria o chão.

As árvores pareciam infinitas.

Comecei a caminhar.

Sem saber para onde.

Sem saber por quê.

Então ouvi um uivo.

Longo.

Profundo.

Meu coração disparou.

Olhei para trás.

Nada.

Continuei andando.

Outro uivo.

Mais perto.

A sensação de estar sendo observada voltou.

Comecei a correr.

Os galhos arranhavam meus braços.

As folhas secas estalavam sob meus pés.

Minha respiração estava acelerada.

Eu precisava sair dali.

Precisava encontrar alguém.

Qualquer pessoa.

Mas quanto mais corria...

Mais a floresta parecia crescer.

Era um labirinto.

Então ouvi passos.

Pesados.

Firmes.

Atrás de mim.

Escondi-me entre enormes arbustos.

Abracei minhas pernas.

Tampei a boca para impedir que minha respiração denunciasse onde eu estava.

Os passos pararam.

O silêncio voltou.

Fechei os olhos.

Talvez ele tivesse ido embora.

Foi quando ouvi.

Uma respiração.

Muito próxima.

Lenta.

Pesada.

Meu corpo inteiro tremia.

Então...

Uma voz grave.

Profunda.

Estranhamente bonita.

— Sarah...

Meus olhos se abriram imediatamente.

Como alguém sabia meu nome?

Levantei assustada.

Olhei em todas as direções.

Não havia ninguém.

Apenas a escuridão.

Comecei a correr novamente.

Sem olhar para trás.

Foi então que a voz ecoou outra vez.

Muito mais próxima.

Como se estivesse ao lado do meu ouvido.

— Não adianta fugir...

Meu coração quase parou.

A voz continuou.

Calma.

Segura.

Quase possessiva.

— Não importa para onde você corra...

— Você será minha.

Senti um arrepio percorrer cada centímetro do meu corpo.

Corri ainda mais rápido.

As árvores desapareceram.

O chão sumiu.

De repente...

Percebi que estava à beira de um enorme abismo.

Tentei parar.

Era tarde.

O chão cedeu sob meus pés.

Comecei a cair.

Gritei.

O vento batia contra meu rosto.

O vazio parecia não ter fim.

— NÃÃÃÃÃO!

Abri os olhos de repente.

Sentei na cama ofegante.

Meu coração batia tão forte que parecia querer escapar do peito.

O quarto estava completamente escuro.

Meu corpo inteiro estava coberto de suor.

Levei alguns segundos para perceber que tudo havia sido apenas um sonho.

Ou pelo menos era o que eu queria acreditar.

Respirei fundo.

Foi então que algo chamou minha atenção.

A janela.

Ela estava completamente aberta.

As cortinas balançavam com o vento da madrugada.

Um arrepio percorreu minha espinha.

Eu tinha absoluta certeza...

De que havia fechado aquela janela antes de dormir.

Levantei lentamente.

Aproximei-me.

Olhei para o lado de fora.

Apenas a escuridão da noite.

Mas, por um breve instante...

Tive a estranha sensação de que havia alguém me observando entre as árvores do quintal.

Engoli em seco.

Fechei a janela rapidamente.

Encostei a testa no vidro.

E sussurrei para mim mesma:

— Que sonho foi esse?

Fechei os olhos.

Mas, no fundo do meu coração...

Eu sabia.

Aquele lobo não tinha desaparecido da minha vida.

Aquilo...

Era apenas o começo.

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