Capítulo 5 Dario
O Aroma da Humana
NARRADO POR DÁRIO
Cruzei os braços diante dos meus irmãos e permaneci alguns segundos em silêncio.
Queria acreditar que aquilo era apenas uma brincadeira.
Uma ideia idiota que desapareceria em poucos minutos.
Mas bastava olhar para os rostos de Adamastor e Rudi para perceber que eles falavam sério.
Respirei fundo.
Meu lobo estava inquieto.
A simples ideia de viver entre humanos fazia a fera dentro de mim mostrar os dentes.
— Deixa eu ver se entendi direito... — falei lentamente, medindo cada palavra. — Vocês realmente querem viver entre humanos?
Os dois assentiram ao mesmo tempo.
Passei a mão pela barba, tentando manter a calma.
— Estou tentando analisar essa ideia como um homem... porque, sinceramente, meu lado lobo considera isso a coisa mais absurda que já ouvi.
Adamastor cruzou os braços.
— Você está exagerando.
Ignorei o comentário.
— Vocês sabem quem somos?
— Sabem o que aconteceu com nossos pais?
— Sabem por que esta alcateia vive escondida há tantos anos?
Rudi respondeu antes do irmão.
— Sabemos.
— Então também sabem que não somos humanos.
Somos lobos.
Predadores.
Eles nos caçam desde muito antes de nascermos.
Por que, em nome da Deusa, vocês querem viver no meio deles?
Rudi sorriu de lado.
— Porque nem todos os humanos são iguais.
Minha expressão endureceu.
— Foi exatamente isso que nosso pai acreditou um dia.
O silêncio caiu sobre nós.
A lembrança daquela noite ainda queimava dentro do meu peito como uma ferida aberta.
Vi novamente meu pai cair.
Minha mãe morrer tentando protegê-lo.
Os guerreiros da Alcateia Satomi sendo abatidos um a um.
O cheiro de sangue.
Os tiros.
Os gritos.
Jamais esqueceria.
Nunca.
Respirei profundamente para controlar a raiva.
Ela continuava ali.
Viva.
Pronta para consumir qualquer resquício de racionalidade.
Olhei novamente para meus irmãos.
Eles haviam sobrevivido porque eu os protegi.
Passei anos treinando.
Caçando.
Lutando.
Reconstruindo nossa alcateia.
Tudo para mantê-los vivos.
Jamais permitiria que colocassem tudo isso em risco por curiosidade.
Adamastor soltou um longo suspiro.
Era evidente sua frustração.
— Dário...
Isso aconteceu há muitos anos.
Nós só queremos conhecer o mundo.
Estudar.
Ter amigos.
Viver um pouco além dessas árvores.
Fechei os punhos.
Meu tom saiu muito mais firme do que pretendia.
— O que aconteceu com nossos pais já deveria ser motivo suficiente para vocês nunca mais desejarem se aproximar daquele povo.
Os dois permaneceram em silêncio.
Continuei.
— Enquanto eu respirar...
Nenhum dos dois viverá entre humanos.
Essa conversa termina aqui.
Compreenderam?
Nenhum respondeu.
Mas seus olhares deixavam claro que estavam decepcionados.
Virei as costas.
Se permanecesse ali por mais alguns minutos...
Acabaria dizendo coisas das quais me arrependeria.
Eu os amava.
Mais do que minha própria vida.
Justamente por isso precisava protegê-los.
Mesmo que eles me odiassem por isso.
Assim que me afastei da aldeia...
Meu lobo assumiu o controle.
A transformação aconteceu em poucos segundos.
Os ossos estalaram.
Os músculos aumentaram.
Minhas mãos transformaram-se em patas.
Um enorme lobo negro surgiu entre as árvores.
Corri.
Precisava aliviar a tensão.
O vento atravessava meu pelo.
As patas afundavam na terra úmida.
Saltava troncos.
Desviava de pedras.
A floresta era minha casa.
Ali eu podia respirar.
Ali eu não precisava fingir ser racional.
O lobo era livre.
Quanto mais corria...
Mais a raiva diminuía.
Até que...
Algo interrompeu meus pensamentos.
Um aroma.
Parei imediatamente.
Ergui a cabeça.
Aspirei o ar.
Não era cheiro de cervo.
Nem de javali.
Nem de qualquer animal.
Era diferente.
Doce.
Suave.
Delicado.
Nunca havia sentido algo parecido.
Meu coração acelerou sem motivo.
Meu lobo ergueu as orelhas.
Ele também havia percebido.
Instintivamente comecei a seguir aquele perfume.
Cada passo fazia o aroma ficar mais intenso.
Era impossível resistir.
Como se uma força invisível me puxasse.
Atravessando arbustos.
Saltando pedras.
Até que finalmente cheguei à margem do lago.
Escondi-me atrás de uma árvore centenária.
Foi quando os vi.
Um homem brincava dentro da água.
Reconheci imediatamente que aquele cheiro não era dele.
Então...
Ela apareceu.
Meu mundo parou.
Ela caminhava lentamente pela margem do lago.
Os longos cabelos negros balançavam com o vento.
A pele clara parecia iluminada pela própria luz do sol.
Os olhos escuros percorriam a floresta com curiosidade.
Ela era...
Linda.
Não.
Linda era pouco.
Ela era hipnotizante.
Meu lobo aproximou-se da superfície da minha consciência.
Pela primeira vez em muitos anos...
Ele não demonstrou agressividade diante de um humano.
Pelo contrário.
Ficou completamente em silêncio.
Como se estivesse admirando aquela garota.
Ela deu mais alguns passos.
Parou.
Olhou diretamente para mim.
Nossos olhares se encontraram.
Esperei o medo.
O desespero.
O grito.
Mas nada aconteceu.
Ela simplesmente ficou me observando.
Sem correr.
Sem tremer.
Sem demonstrar qualquer sinal de pânico.
Meu coração bateu mais forte.
Que humana era aquela?
Ela parecia...
Me reconhecer.
Meu lobo deu um passo à frente.
Queria se aproximar.
Queria sentir aquele perfume mais de perto.
Foi quando ouvi uma voz masculina.
— Sarah!
Ela desviou o olhar por apenas um segundo.
Foi suficiente para que eu recuperasse a razão.
O que eu estava fazendo?
Ela era humana.
Humana!
Eu odiava humanos.
Passei a vida inteira desejando vingança contra eles.
Então por que meu corpo se recusava a enxergá-la como inimiga?
Rosnei irritado.
Virei-me.
E corri.
Corri como se pudesse fugir de mim mesmo.
Durante todo o caminho de volta...
O perfume dela permanecia preso ao meu olfato.
Aquilo era impossível.
Nenhum cheiro humano jamais havia permanecido tanto tempo.
Rosnei novamente.
Tentando afastar aquele pensamento.
Inútil.
Quanto mais tentava esquecê-la...
Mais sua imagem voltava.
Seu rosto.
Seu olhar.
Seu perfume.
Seu sorriso discreto.
Droga!
O que estava acontecendo comigo?
