Capítulo 1
Meu companheiro perdeu a memória e se apaixonou por outra mulher.
O Alfa Killian Cross esqueceu o nosso vínculo de cinco anos depois de um ataque de renegados. Sandra, a Ômega que o salvou, virou sua nova obsessão. Eu lutei para restaurar as memórias dele — e consegui.
Mas o dia em que ele se lembrou de mim foi o dia em que Sandra se matou. Killian me culpou pela morte dela e escolheu me odiar.
Quando os renegados atacaram a nossa alcateia, ele morreu levando um golpe que era para mim. As últimas palavras dele? “Eu queria que você nunca tivesse me feito lembrar. Eu queria que você tivesse me deixado amá-la.”
Agora eu voltei — renasci no dia em que o encontrei pela primeira vez com Sandra. Desta vez, eu não vou lutar pelas memórias dele. Desta vez, vou deixá-lo ficar com a felicidade dele ao lado dela.
Mesmo que isso me mate de novo.
Ponto de vista de Eva
— Eva, corta essa maldita ligação logo. Tô de saco cheio de ficar esperando esse seu drama patético.
A voz de Killian cortou o salão lotado da Alcateia Blackrock como uma lâmina. Aqueles olhos âmbar — os mesmos que antes me olhavam como se eu fosse a lua no céu — agora não mostravam nada além de irritação gelada.
Eu sou Eva Thompson, guerreira Delta desta alcateia há cinco anos. Lutei ao lado deste homem, sangrei com ele, construí este território do nada. Era para sermos companheiros por toda a vida.
Seis meses atrás, tudo foi pro caralho. Killian levou um golpe de renegados defendendo as nossas fronteiras e perdeu a memória. Quando acordou, Sandra Martinez — a doce Ômega que cuidou dele até ele se recuperar — já tinha o coração dele completamente enrolado no dedo.
— E então? — A impaciência dele estalou pelo salão silencioso. — A alcateia inteira tá aqui, Eva. Eu e a Sandra temos um anúncio, mas não dá pra seguir em frente com essa bagunça pendurada na nossa cabeça.
Bagunça. Cinco anos de amor reduzidos a isso.
Sandra se apertou ainda mais contra o lado dele, no tablado. — Killian, talvez a gente devesse dar mais tempo pra ela…
— Não. — O braço dele se fechou em torno dela. — Ela teve meses pra encarar a realidade. Eu não vou fazer você esperar mais, meu amor.
“Eva!” A voz urgente de Maya explodiu na minha cabeça através do vínculo da alcateia. “Eu achei! A Raiz de Restauração de Memória! A gente pode trazer ele de volta!”
Na minha vida passada, essas palavras teriam sido a minha salvação. Desta vez, não significavam nada.
“Não”, respondi na hora.
“O quê? Eva, isso pode consertar tudo—”
“Eu disse não, Maya.”
Cortei o vínculo e encarei o homem que um dia foi meu. A cicatriz na têmpora, do ataque que roubou tudo. O porte poderoso que antes me fazia sentir invencível ao lado dele.
— Você realmente não lembra de nós lutando juntos? — eu perguntei. — Cinco anos de batalhas? Cinco anos construindo esta alcateia de doze lobos pra mais de duzentos?
A mandíbula dele se contraiu. “Não existe ‘nós’, Eva. O que quer que a gente tenha tido — acabou. Eu nem consigo mais suportar o seu cheiro. Esse aroma de cedro e chuva me dá enjoo de verdade.”
Sussurros se espalharam pela multidão. Membros da matilha que tinham nos visto liderá-los por anos pareciam atônitos.
“A única mulher que eu quero, a única que eu poderia amar, é a Sandra”, ele continuou, a voz ficando ainda mais cruel. “Então para de se humilhar com essas tentativas desesperadas de me reconquistar.”
Na minha vida anterior, eu já estaria de joelhos implorando. Eu tinha passado meses tentando fazê-lo lembrar, lutando por migalhas da atenção dele.
Desta vez, eu sabia mais.
“Tudo bem”, eu disse, clara. “Então vamos acabar com isso.”
O salão mergulhou num silêncio mortal. Até Sandra parou com o seu grude teatral.
Killian piscou. “Você... o quê?”
“Alpha Killian Cross, eu, Eva Thompson, solicito formalmente o rompimento completo do nosso vínculo de companheiros.”
Suspiros chocados explodiram. Alguém murmurou: “Ela vai mesmo fazer isso.”
“Chega de tentativas patéticas de ‘me lembrar do nosso amor’?”, ele zombou. “Chega de aparecer em todo lugar onde eu e a Sandra vamos? Você vai mesmo parar de pagar esse mico?”
“Falando muito sério”, respondi. “Você quer a Sandra como sua Luna? Reivindique-a. Mas antes, nós quebramos esse vínculo por completo.”
Algo tremeluzia nos olhos dele, mas a mão de Sandra se pressionou contra o peito dele, e aquilo sumiu.
“Finalmente”, ele rosnou, seu poder de Alpha sufocando o ambiente. “Eu, Killian Cross, Alpha da Matilha Blackrock, aceito o rompimento do nosso vínculo de companheiros.”
A dor explodiu no meu peito. O vínculo se partiu como uma corda arrebentando. Minha loba uivou quando a conexão que tinha definido cinco anos da minha vida simplesmente morreu.
Killian também cambaleou, o lobo dele sentindo a ruptura. Mas Sandra estava lá no mesmo instante.
“Está tudo bem, meu amor”, ela sussurrou alto. “Estamos livres agora. Finalmente podemos ficar juntos por completo.”
Os braços dele envolveram o corpo dela. “Sim. Finalmente.”
A alegria deles diante da minha devastação. Exatamente como naquela noite, cinco anos atrás, quando ele me abraçou do mesmo jeito depois da nossa primeira caçada como companheiros, me prometendo para sempre sob a lua cheia.
“Lembra?”, ele tinha sussurrado no meu ouvido naquela época. “Não importa quantos séculos passem, eu só vou amar você.”
Sorri, amarga, e fui em direção à porta.
“Eva, espera.”
Não me virei.
“Eu vou encontrar outra pessoa pra você. Um bom par de uma matilha vizinha. É... é o mínimo que eu posso fazer.”
O mínimo que ele podia fazer. Depois de cinco anos de parceria. Depois de construirmos esta matilha juntos do nada.
“Não se dê ao trabalho, Killian”, eu disse, sem olhar para trás. “Eu não vou precisar de um novo companheiro.”
Afinal, os mortos não precisam de companheiros.
