Capítulo 2

Ponto de vista de Eva

— Eva, que diabos você está fazendo?

Maya — a irmã de Killian — surgiu na clareira atrás da minha cabana. Não ergui os olhos; só joguei mais um item na fogueira crepitante.

Ela parou abruptamente, vendo cinco anos de lembranças queimarem.

— Faxina de primavera — eu disse, sem emoção, pegando o pingente que ele tinha me dado depois da nossa primeira caçada bem-sucedida.

"Isso é seu agora, Eva", ele tinha dito, prendendo-o em volta do meu pescoço com dedos gentis. "Você é da alcateia. É minha."

Joguei-o nas chamas.

— Você ficou maluca? — Maya avançou, agarrando meu pulso. — Essas coisas são suas! Os presentes de Killian! Você não pode simplesmente... Eva, são cinco anos!

Soltei meu braço com um puxão e peguei nosso equipamento de couro combinando. Feito sob medida, encaixe perfeito.

— Cinco anos que não valeram porra nenhuma — eu disse, vendo o couro se retorcer e queimar. — Seu irmão deixou isso bem claro.

— Esse não é o Killian! É a perda de memória! — A voz de Maya falhou. — O verdadeiro Killian é louco por você! É assim desde o primeiro dia!

É, eu sei. Ou sabia.

Peguei nossa foto de acasalamento — nós dois parecendo jovens e idiotas, achando que tínhamos a eternidade.

— Maya, para. — Joguei a foto no fogo. — Acabou.

— Nem pensar! — Ela se atirou em direção às adagas que ele tinha mandado fazer para o nosso aniversário de três anos. — Eu encontrei a Raiz da Memória! Posso fazer a poção hoje à noite! Amanhã ele vai se lembrar de tudo!

Arranquei as adagas das mãos dela e as joguei no fogo.

— Mesmo que ele se lembre, nada muda.

Maya me encarou como se eu tivesse enlouquecido.

— Como assim nada muda? Ele te ama!

Ele também me amava antes. Até eu fazê-lo se lembrar. Até Sandra morrer por causa disso.

— Tem merda que não tem conserto. — Fechei os olhos. — De qualquer jeito, não importa. Vou embora daqui em um mês.

— O quê? Eva, não! Você não pode ir embora! Aqui é a sua casa!

Era a minha casa. Antes de todos verem ele me dar um pé na frente de todo mundo.

— Vou voltar para Silver Creek. Para a alcateia do meu irmão Aaron.

— Mas, Eva, você não pode simplesmente ir embora...

— Quem vai embora?

A voz de Killian fez nós duas congelarmos. Ele estava na beirada da clareira, aqueles olhos âmbar absorvendo o fogo e todas as lembranças queimadas. Algo estranho atravessou seu rosto — confusão? Dor?

Maya me lançou um olhar apavorado.

— Ninguém, Killian. A gente só estava...

— Ninguém importante — eu disse com casualidade. — Maya estava perguntando sobre um antigo membro da alcateia. História antiga.

Os olhos de Killian se estreitaram, mas ele acreditou.

— Certo. — Ele se aproximou, encarando as chamas. — Limpando a casa?

— Me livrando de tralha — eu disse. — Não faz sentido guardar coisas que não importam.

Ele assentiu devagar, ainda olhando para o fogo.

— Bom. Cortes limpos funcionam melhor. Sandra fica chateada quando vê... — Ele fez um gesto na direção das coisas queimando. — Assim é melhor. Menos drama.

Sandra fica chateada. Claro que fica.

Maya soltou um som engasgado.

— Killian, essas são as suas lembranças! Os seus presentes para a Eva! Como você pode simplesmente ficar aí...

— São só coisas, Maya. — A voz dele estava fria. — De uma vida da qual eu não me lembro e da qual não quero me lembrar.

Cada palavra acertou como um soco.

— Alfa! — Um jovem guerreiro surgiu em disparada por entre as árvores, sem fôlego. — Alfa Cross! Luna Sandra desmaiou! Ela precisa de você!

A postura inteira de Killian mudou na mesma hora. A expressão fria desapareceu, substituída por pânico total.

— O quê? Ela está ferida? O que aconteceu?

— Ela está acordada, mas passou a manhã inteira vomitando. O Beta Marcus acha... acha que ela pode estar grávida, Alfa.

Meu mundo virou.

Killian saiu correndo antes que eu pudesse piscar.

Maya ficou olhando na direção em que ele foi, com lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Ele vai se arrepender disso, Eva. Quando as memórias dele voltarem...

—Maya. —Peguei a última foto: nosso primeiro Natal, sorrindo feito idiotas debaixo do visco. —Você quer mesmo que eu fique por aqui? Assistindo seu irmão brincar de casinha com outra pessoa? Vendo ele amar ela como ele costumava me amar?

Os ombros dela caíram. —Não. Eu... não.

—Então confia em mim. —Joguei a foto nas chamas. —O Aaron vai cuidar de mim. Não se preocupa com isso.


As três semanas seguintes foram um inferno.

Killian enlouqueceu preparando tudo para a nova família. Me dava enjoo ver aquilo. Ele reformou a suíte Luna para a Sandra. Contratou os melhores médicos de três estados. Andava por aí com aquele sorriso abobalhado que eu lembrava de quando a gente começou a ficar junto.

O anúncio da gravidez foi uma comemoração enorme da matilha. Killian subiu na mesma plataforma onde tinha cortado o nosso vínculo e anunciou a novidade da Sandra como se tivesse salvado o mundo.

Eu assisti do fundo, invisível e esquecida.

Mas a pior parte aconteceu no lago cerimonial.

Eu estava lavando as mãos depois do treino quando a voz da Sandra cortou o ar.

—Eva! Que coincidência te ver aqui.

Virei. Ela vinha andando na minha direção com uma mão na barriga lisa, a outra exibindo aquele anel de noivado enorme.

—Sandra —eu disse, me levantando.

—Eu queria te agradecer —disse ela, com aquela voz toda docinha de mentira. —Por estar sendo tão tranquila com tudo. Eu sei que isso deve ser uma merda pra você.

Ela ergueu a mão, garantindo que eu visse o anel. —Bonito, né? Só que tá meio folgado. Inchaço da gravidez. —Ela deu um sorrisinho. —Mas o Killian já vai mandar fazer outro. Uma coisa que realmente combine com o nosso vínculo.

Claro que tá folgado. Esse anel foi feito pra mim.

—Que bom pra você —eu disse.

—É bom mesmo. —O sorriso da Sandra ficou maldoso. —Sabe de uma coisa? Já que esse traste velho não serve direito, eu não preciso dele.

Antes que eu pudesse impedi-la, ela arrancou o anel do dedo e jogou no lago.

—Ops —disse ela, com uma falsa preocupação. —Desastrada eu.

O anel da família Cross sumiu sob a água.

Eu não pensei. Só mergulhei. A água gelada me atingiu como um tapa quando eu nadei para baixo, usando a visão de lobo para achar o brilho do anel na lama.

Quando voltei à superfície, arfando e com o anel na mão, Sandra estava no chão.

—Ela me empurrou! —Sandra choramingava enquanto membros da matilha corriam até nós, com Killian junto. —A Eva me empurrou quando eu tentei impedir ela! Ela podia ter machucado o bebê!

Que porra é essa?

—Eu tava na água! —eu gritei. —Eu não encostei—

—EVA! —O poder Alfa do Killian me atingiu como um caminhão, me derrubando de joelhos na água rasa. A bota dele bateu nas minhas costelas, me jogando de cara na lama. A dor explodiu no meu peito.

—Como você ousa encostar na minha companheira grávida!

—Eu não encostei nela! —eu arfava, tentando respirar apesar da dor.

—Mentira! —A voz da Sandra ficou venenosa. —Ela ficou com tanto ciúme do anel que não deu a mínima pra me machucar ou machucar o bebê!

A multidão começou a murmurar. Alguns pareciam incertos, mas outros compravam o teatrinho da Sandra.

O punho do Killian estalou no meu maxilar. Estrelas explodiram na minha visão. —Sua vadia ciumenta!

—Alfa —o Beta Marcus se aproximou com cuidado—, talvez a gente deva verificar a Luna Sandra—

—Eva Thompson. —A voz do Killian estava gelada. —Por atacar sua Luna e colocar o herdeiro da matilha em perigo, eu te condeno a trinta chicotadas. Em público. Ao amanhecer.

Trinta chicotadas. Podiam me deixar aleijada. Podiam me matar.

—Killian, não! —Maya abriu caminho no meio da multidão. —Ela estava ajudando! Ela recuperou o anel!

—A decisão é final. —Os olhos âmbar dele não mostravam misericórdia nenhuma. —Guardas, façam agora.

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