Capítulo 3

Ponto de vista de Eva

Trinta.

A última chicotada rasgou minhas costas. Cerrei os dentes com força, sentindo o gosto de sangue enquanto lutava para não gritar.

Três horas depois, cambaleei para fora das celas de detenção, com as costas em frangalhos queimando. Todo o território tinha sido transformado — seda branca por toda parte, milhares de flores carmesim de fogo de fênix despencando em cascata de cada superfície.

Flores de fogo de fênix. As mesmas com que eu tinha sonhado para a nossa cerimônia.

"Quando esta matilha for forte o bastante", Killian me prometera anos atrás, "eu vou te dar uma cerimônia que vai deixar a Deusa da Lua com ciúmes. Flores de fogo de fênix até onde a vista alcançar."

— Eles adiantaram a cerimônia — sussurrou Maya, surgindo ao meu lado. — Hoje à noite, em vez do mês que vem. Ele quer marcá-la antes que ela comece a aparecer.

Membros da matilha passaram correndo, em trajes formais, com o rosto iluminado de celebração. O cheiro de vinho de mel e carne assada preenchia o ar. Músicos afinavam seus instrumentos numa plataforma coberta de seda.

Não era só uma cerimônia. Era um festival. Tudo o que eu sempre quis, entregue a ela.

— Eva, seus ferimentos precisam de tratamento — Maya franziu a testa ao ver minhas costas ensanguentadas.

— Eu estou bem — menti, recuando cambaleante.

Ao nosso redor, sussurros seguiam cada passo meu:

"— Ela quase morreu tentando encontrar o Alfa depois que ele desapareceu, e agora ele vai marcar outra —"

"— Se eu fosse a Eva, eu arrancava a garganta da Sandra —"

"— Olha as costas dela, coitadinha —"

Eu não podia ficar. Não podia assistir enquanto ele marcava outra mulher, cercada pelos meus sonhos tornados realidade.

— Eu preciso fazer as malas — eu disse a Maya, querendo fugir.

Mas era tarde demais. A cerimônia já tinha começado.

Os músicos atacaram a música de abertura. Na plataforma cerimonial, Killian estava em trajes formais, devastadoramente bonito. Sandra apareceu em branco esvoaçante, pétalas de fogo de fênix entrelaçadas no cabelo escuro.

Os dois pareciam perfeitos juntos.

O olhar de Killian encontrou Sandra e se suavizou por completo. Ele estendeu a mão para a dela, levando-a aos lábios.

— Minha linda companheira — sua voz se espalhou pela multidão. — Minha Luna. Meu tudo.

A matilha uivou em celebração quando Killian inclinou o queixo de Sandra para cima, preparando-se para a mordida de marcação—

Uivos explodiram na floresta. Uivos de aviso.

— RENEGADOS! — as vozes dos guardas da fronteira rasgaram a noite. — Brecha no perímetro leste!

A música parou. Membros da matilha gritaram e se espalharam enquanto os uivos de alerta ecoavam por todo o território.

— Todos os guerreiros para a fronteira! — o poder de Alfa de Killian trovejou. — Protejam o território! Protejam a Luna!

Apesar da dor, eu ainda era uma guerreira de Blackrock. Eu tinha que defender nosso lar.

Eu me movi em direção às linhas de batalha. Eu mal tinha alcançado a linha das árvores quando algo estalou contra meu crânio.

Escuridão.


Fumaça. Madeira queimando. Gritos.

Acordei de bruços sobre pedra fria, com a cabeça latejando. Estávamos em algum tipo de depósito — caixotes de madeira empilhados ao nosso redor, e fogo visível pelas frestas nas paredes.

— Eu te falei que era cedo pra caralho!

A voz de Sandra, afiada de fúria. Parecia estar discutindo com alguém. A fumaça dificultava enxergar com clareza.

— Eu não podia mais esperar!

Uma voz masculina áspera respondeu, as palavras abafadas. Então passos, se afastando.

O que estava acontecendo?

Sandra se virou de repente, me viu acordada, e o rosto dela se transformou instantaneamente em um terror perfeito.

“Eva! Graças à Deusa da Lua!” Ela correu até mim, com lágrimas escorrendo. “Os renegados trancaram a gente aqui! Eles também botaram fogo! Temos que sair!”

Uma viga enorme despencou, selando nossa saída por completo. As chamas se espalharam pelas paredes de madeira como se fossem seres vivos.

Por entre a fumaça, avistei uma janelinha alta na parede do fundo. Grande o bastante para passar uma pessoa.

Arrastei uma caixa pesada até lá, ofegante, sem ar. “Você primeiro.”

“O quê—”

“Você está carregando o filho dele. Vai.”

Sandra subiu, mas a janela estava emperrada. Ela tentou várias vezes, lutando, mas não conseguiu passar. “Eva, eu não consigo! A janela é pequena demais!”

Cerrei os dentes e subi para ajudá-la. Nós duas empurramos e puxamos, mas o caixilho estava empenado. Foi então que a caixa embaixo de nós começou a tremer.

“Cuidado!” Empurrei Sandra para o lado—

A caixa cedeu completamente. Nós duas caímos no chão, e mais entulho despencou, bloqueando de vez nosso caminho até a janela.

Agora estávamos as duas presas.

“EVA! SANDRA!” A voz de Killian veio de fora, desesperada e em pânico.

“Killian!” Sandra gritou. “A gente está presa aqui dentro!”

“Estamos aqui!” eu também berrei.

O fogo se espalhava rápido. Estávamos presas no centro do prédio, sem ter para onde ir.

Então ouvi um baque forte. Killian estava tentando arrebentar a porta.

“Segurem firme! Eu já vou!”

A parede explodiu para dentro. Killian entrou disparado, coberto de suor, os olhos tomados pelo pânico.

No instante em que viu nós duas ali, ele travou completamente.

Sandra estava mais perto dele, e o fogo ao redor dela era relativamente pequeno. Do meu lado, uma viga em chamas se inclinava devagar, pronta para cair a qualquer segundo.

O tempo pareceu parar. Eu vi a luta no olhar dele — ele estava escolhendo.

“Killian!” Sandra gritou, “me ajuda! Minha barriga está doendo!”

Ele correu imediatamente até Sandra.

“Vou tirar a Sandra primeiro e volto já para te buscar!” ele gritou para mim, pegando Sandra no colo e indo na direção da saída.

Mas, no segundo em que eles saíram, a viga acima de mim despencou.

Um impacto esmagador. E então, escuridão sem fim.


Bip. Bip. Bip.

Paredes brancas. Equipamentos médicos. O cheiro de antisséptico da ala médica da alcateia.

“Eva! Ah, graças à Deusa da Lua!” A voz de Maya falhou de alívio. “Você acordou! Você ficou apagada por três dias — três dias inteiros. Eu achei... eu achei que a gente tinha te perdido.”

Ela se largou numa cadeira ao lado da cama, com olheiras fundas sob os olhos avermelhados.

“Killian?” eu rouquejei, com o corpo inteiro doendo.

A expressão de Maya escureceu. “Não saiu do lado da Sandra. Ela só teve uma leve inalação de fumaça, uns arranhões. Mas ele está vigiando como se ela estivesse morrendo.”

Ela fez uma pausa, a voz ficando mais amarga: “E você? Machucada desse jeito, quase... aquele desgraçado nem veio te ver uma vez.”

“O bebê?”

“Está bem. Completamente ileso.” Maya se levantou, suspirando. “Descansa. Vou buscar alguma coisa para você comer.”

Depois que ela saiu, eu me esforcei para me sentar.

Droga! Eu devia ter chegado a Silver Creek ontem. O Aaron deve estar preocupado até a morte a essa altura.

Nesse instante, a porta se abriu.

Meu coração deu um salto. Alto, de ombros largos, com aqueles olhos verde-floresta hipnotizantes.

“Aaron?”

Aaron Thompson — meu meio-irmão — estava parado na porta, ainda com a roupa de viagem, com cara de quem tinha dirigido direto, sem parar.

“Graças a Deus você está bem, Eva.” O rosto dele se abriu num sorriso aliviado. “Vamos. Vamos para casa.”

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