Capítulo 1

Capítulo 1

Ponto de vista de Evangeline

As rodas do ônibus guincham contra o asfalto molhado quando paramos diante dos portões. Meu estômago se contorce em nós. Pela janela riscada de chuva, a Academia Blackclaw se ergue como um monstro feito de pedra e sombras. Torres góticas perfuram o céu cinzento. Gárgulas encaram lá de cima com olhos vazios que parecem me seguir.

Aproximo mais o rosto do vidro, e a superfície gelada amortece minha bochecha. Os alunos se movem pelo pátio em grupos perfeitos. Seus uniformes estão impecáveis. Seus movimentos, confiantes. Eles pertencem a este lugar de um jeito que eu nunca vou pertencer.

Meus dedos percorrem a borda da minha carta de aceitação. O papel está gasto de tanto eu dobrá-lo e desdobrá-lo. O tio Marcus me deu isso há três semanas. Seu último desejo. A única coisa que ele me pediu.

— Pelo seu futuro, Evie — sussurrou ele em seu último suspiro. — Prometa que vai aproveitar esta chance.

Então aqui estou eu. Cumprindo promessas feitas a homens mortos que acreditavam que eu podia ser mais do que aquilo para que nasci.

A porta do ônibus se abre com um silvo. A chuva atinge meu rosto quando desço para o caminho de paralelepípedos. Minha mochila surrada parece mais pesada do que deveria. Tudo de que preciso para a escola cabe dentro dela. Livros comprados em liquidação de biblioteca. Cadernos com as capas amassadas. Canetas que mal funcionam.

Outros alunos passam por mim sem nem olhar. As bolsas deles são de couro e caras. A minha é de lona e está se desfazendo nas costuras. O cheiro dos perfumes caros deles se mistura ao ar frio do outono, me tornando dolorosamente consciente do meu sabonete barato e das minhas roupas de segunda mão.

Puxo o capuz e começo a andar em direção ao prédio principal. Cada passo ecoa contra as paredes de pedra. O som de algum jeito me faz sentir menor. Como se eu estivesse encolhendo a cada respiração.

Esta é uma escola para lobisomens. Para a realeza das alcateias e futuros líderes. Não para garotas como eu, que se transformam em lobos pouco maiores que cães domésticos.

Um grupo de garotas bloqueia meu caminho. Elas são tudo o que eu não sou. Cabelos loiros que captam a luz mesmo sob a chuva. Pele que nunca conheceu fome nem medo. O cheiro sutil de poder que as marca como lobas de alta patente.

— Olhem só o que saiu rastejando da floresta — diz uma delas. Sua voz escorre desprezo.

Meu peito se aperta. Tento passar por elas, mas elas se movem para me bloquear de novo.

— Aquela não é a ômega de Crescent Moon? — outra garota sussurra. A palavra me atinge como um tapa. — Aquela sem família de alcateia?

— Ouvi dizer que ela morava na favela — continua a primeira garota. — Com aquele tio bêbado dela.

O calor inunda minhas bochechas. Minhas mãos tremem de raiva, mas eu as mantenho ao lado do corpo. Revidar só vai piorar tudo. Sempre piora para lobas como eu.

— O que foi? — A garota loira se aproxima. A dominância da loba dela pressiona a minha, fazendo com que eu queira expor a garganta em submissão. — O gato comeu sua língua, ômega?

A palavra queima. Era para ser só uma classificação. A mais baixa do nosso mundo. Mas, do jeito que ela diz, soa como algo sujo. Algo vergonhoso.

Encontro minha voz. Ela sai menor do que eu queria.

— Com licença.

Elas riem. O som ecoa nas paredes de pedra e volta para me ferir em dobro.

— Vocês ouviram isso? — uma diz às outras. — Ela acha que tem o direito de falar.

— Alguém devia avisar a ela — acrescenta outra. — Isto aqui não é uma escola de caridade para vadias sem dono.

Minha garganta se fecha. Não consigo respirar direito. O pânico familiar começa no meu peito e se espalha para fora. Minha loba choraminga dentro de mim, querendo correr e se esconder.

Não aqui. Não agora.

Eu as empurro ao passar, com mais força desta vez. Meu ombro bate na garota loira. Ela cambaleia para trás com um suspiro ofegante.

— Não encoste em mim! — ela grita. — Você provavelmente está cheia de sarna!

Mais risadas me seguem enquanto corro em direção à entrada. Meu rosto arde de vergonha. Era exatamente isso que eu esperava. Aquilo para o que o tio Marcus tentou me preparar. Mas ainda assim dói mais fundo do que eu imaginei.

O salão principal tira meu fôlego. Pisos de mármore se estendem em todas as direções, tão polidos que consigo ver meu reflexo. Lustres pendem de tetos tão altos que desaparecem nas sombras. Retratos de antigos Alfas alinham-se pelas paredes, e seus olhos pintados parecem me julgar enquanto passo.

O próprio ar parece diferente aqui. Carregado com o poder de gerações de lobos fortes. Isso faz minha pele formigar em alerta.

Os alunos ocupam o espaço como se fossem donos dele. O que, de certa forma, são. As famílias deles construíram este lugar. As linhagens deles lhes garantiram vagas aqui. Eu sou o erro que escapou pelas frestas.

Encontro a secretaria e espero na fila atrás de outros alunos novos. Eles conversam com facilidade sobre casas de veraneio e férias em família. Sobre quais matilhas seus pais lideram. Sobre acasalamentos arranjados e alianças políticas.

Não tenho nada a acrescentar a essas conversas. Meus verões foram passados fazendo bicos para ajudar o tio Marcus a pagar o aluguel. Minha família consiste em túmulos num cemitério sem identificação. Meu futuro é o que eu conseguir arrancar com as minhas próprias mãos.

— Próximo — chama a secretária.

Dou um passo à frente com as pernas trêmulas. Ela me examina de cima a baixo com uma desaprovação mal disfarçada. O nariz dela se enruga como se eu estivesse fedendo.

— Nome?

— Evangeline Cross.

Ela digita alguma coisa no computador. Franze a testa. Digita mais.

— Deve haver algum engano — diz por fim. — Não temos nenhuma Ômega matriculada neste semestre.

Meu coração afunda.

— Por favor, verifique de novo. Marcus Cross foi meu patrocinador.

O reconhecimento lampeja nos olhos dela. Depois vem outra coisa. Pena, talvez. Ou nojo.

— Ah — diz ela. — Então você é aquela.

Aquela. Como se eu nem valesse um nome. Como se o tio Marcus me chamar de Evie com tanto carinho não significasse nada.

Ela me entrega um horário e a designação do meu armário.

— Prédio C. Terceiro andar. Tente não causar problemas.

A dispensa machuca. Mas pego meus papéis e saio sem dizer mais nada.

Os corredores são um labirinto de mármore polido e latão reluzente. Tudo aqui grita riqueza e poder. Os alunos vão de uma aula a outra como se estivessem flutuando. As risadas deles ecoam pelas paredes. As conversas vibram de animação.

Aperto meu horário com mais força e tento encontrar minha primeira aula. O metal frio da chave do armário crava na minha palma. Os números nas portas não fazem sentido. Nada aqui faz sentido.

— Você parece perdida — diz uma voz atrás de mim.

Eu me viro e encontro uma garota de cabelos escuros e olhos gentis. Ela é bonita de um jeito discreto. O uniforme veste perfeitamente nela, mas ela não o usa como armadura do jeito que os outros usam.

— Sou Luna — diz ela, suavemente. — Você deve ser a aluna nova de quem todo mundo está falando.

Todo mundo está falando de mim. Meu estômago despenca.

— Eu sou Evangeline — consigo dizer. — Mas meu tio costumava me chamar de Evie.

— Vem, Evie — diz Luna com um pequeno sorriso. — Eu te levo até sua primeira aula. O que você tem?

Dou uma olhada no meu horário.

— Literatura Avançada com o professor Kane.

Os olhos de Luna se arregalam.

— Isso é... ambicioso para um primeiro dia. O professor Kane não pega leve com ninguém.

Ótimo. Como se este dia não pudesse piorar.

Ela me guia pelo labirinto de corredores. Os alunos encaram enquanto passamos. Alguns cochicham atrás das mãos. Outros nem se dão ao trabalho de esconder a curiosidade.

— Não liga para eles — diz Luna em voz baixa. — Logo vão encontrar outra coisa para fofocar.

Duvido disso. Ser a única Ômega numa escola cheia de Alfas e Betas me transforma num espetáculo ambulante.

Chegamos à sala de aula no instante em que o sinal toca. O professor Kane já está na frente, arrumando papéis sobre a mesa. Ele é mais velho, com cabelos prateados e olhos afiados que não deixam passar nada.

— Ah — diz ele quando me vê. — Senhorita Cross, presumo. Que bom que resolveu se juntar a nós.

Todas as cabeças na sala se viram para me encarar. Quero desaparecer no chão.

— Sente-se onde quiser — continua o professor Kane. — Estávamos justamente discutindo o simbolismo na literatura clássica.

Examino a sala em busca de uma cadeira vazia. A maioria dos alunos está sentada em grupos, deixando assentos isolados espalhados pelas bordas. Escolho um perto do fundo e tento me tornar invisível.

A aula começa. O professor Kane fala sobre temas e metáforas. Sobre significados ocultos em histórias antigas. A voz dele é calma e envolvente, mas mal consigo me concentrar. Olhos demais continuam se voltando para mim.

Um aviãozinho de papel cai na minha mesa. Eu o desdobro com cuidado.

“Lixo ômega não pertence a este lugar”, está escrito em letra caprichada.

Minhas mãos tremem. Amasso o papel e o enfio na bolsa. Mantenho os olhos fixos na frente da sala. Finjo que meu coração não está disparado.

Outro papel cai. Depois outro.

“Volta para o esgoto.”

“Ninguém te quer aqui.”

“Rejeitada da alcateia.”

Cada um machuca mais que o anterior. Mordo o lábio para não chorar. Não demonstre fraqueza. Essa é a primeira regra de sobrevivência para lobas como eu.

O sinal toca depois do que parecem horas. Os alunos saem rapidamente, conversando sobre as próximas aulas. Fico sentada até a sala esvaziar. Dou a mim mesma um momento para respirar.

— Senhorita Cross — chama o professor Kane. — Uma palavra?

Aproximo-me da mesa dele com as pernas trêmulas. Ele me observa com aqueles olhos afiados.

— Ouvi falar da sua situação — diz ele, com cuidado. — Quero que saiba que, na minha sala, todos são julgados pela mente, não pela linhagem. Esforce-se, e você vai se sair bem.

A gentileza na voz dele quase me desmonta.

— Obrigada, senhor.

— No entanto — ele continua —, devo avisá-la: nem todos os seus professores serão tão compreensivos. Alguns acreditam firmemente na hierarquia tradicional da alcateia.

Tradução: alguns deles vão transformar minha vida num inferno.

— Eu entendo — digo.

— Ótimo. Agora vá para a sua próxima aula. Você não vai querer se atrasar.

O resto da manhã passa num borrão de olhares hostis e comentários sussurrados. Em História, um garoto “acidentalmente” derruba meus livros da mesa. Em Ciências, meu parceiro de laboratório se recusa a trabalhar comigo. Em Matemática, a professora me manda fazer a atividade sozinha enquanto todos os outros ganham parceiros.

Na hora do almoço, estou exausta. A tensão constante drenou cada gota de energia do meu corpo. Não quero nada além de ir para casa e me esconder debaixo das cobertas.

Mas casa é um apartamento minúsculo que divido com outras três garotas. O tio Marcus me deixou dinheiro suficiente apenas para aluguel e comida. Mal o bastante. Não posso me dar ao luxo de abandonar a escola. Não posso desistir dos sonhos que ele tinha para mim.

O refeitório é um caos. Centenas de alunos ocupam mesas compridas, organizadas de acordo com a hierarquia da alcateia. Os alfas se sentam perto das janelas, onde a luz é melhor. Os betas ficam nas seções do meio. E lá, no canto dos fundos, perto das portas da cozinha, alguns ômegas dispersos remexem na comida em silêncio.

Pego uma bandeja e entro na fila. A comida parece incrível comparada ao que estou acostumada. Carne de verdade. Legumes frescos. Pão ainda quente, com cheiro de paraíso.

Encho meu prato com mais comida do que vi em semanas. O purê de batatas parece nuvem na boca. O frango assado se desfaz sob o meu garfo. Por um momento, esqueço tudo, exceto o prazer simples de uma refeição farta.

Luna acena para mim, me chamando para onde está sentada com alguns outros alunos. Eles parecem simpáticos. Normais. Não como se quisessem me despedaçar só com o olhar.

— Como está indo seu primeiro dia? — Luna pergunta quando eu me sento.

— Está... desafiador — digo, com cuidado.

Ela concorda, compreensiva. — Fica mais fácil. Com o tempo.

Espero que ela esteja certa.

A conversa flui ao meu redor. Eles falam sobre professores e trabalhos. Sobre planos para o fim de semana e visitas à família. Coisas normais de adolescente que, para mim, soam estranhas.

Estou na metade do meu sanduíche quando o refeitório se cala.

O silêncio se espalha como ondas na superfície de um lago. As conversas morrem mesa por mesa até que o único som é o tilintar dos talheres. Até isso para quando os alunos se viram para olhar em direção à entrada.

Um grupo de cinco estudantes entra como se fosse dono do lugar. O que provavelmente é. Eles se movem com a confiança de quem nunca ouviu um não. De quem nunca foi feito se sentir pequeno.

O poder emana deles em ondas. O próprio ar parece ficar mais denso com a presença deles. Até os professores se endireitam quando eles passam.

— O futuro Alfa e o círculo íntimo dele — Luna sussurra ao meu lado. — Ronan Nightbane e os amigos dele.

Sigo o olhar dela até o centro do grupo.

E o meu mundo para.

Ele é devastador de um jeito que rouba o fôlego e a razão. Alto e esguio, com músculos que denunciam horas na forma de lobo, correndo solto sob a lua. O cabelo escuro cai em ondas sobre a testa, pegando a luz.

Mas são os olhos dele que fazem meu coração falhar uma batida.

Cinza-tempestade, com pontinhos prateados que parecem brilhar por dentro. Eles varrem o refeitório com uma autoridade casual. Absorvendo tudo. Sem deixar nada passar.

É assim que um Alfa se parece. É assim que poder, força e perigo embrulhados em pele humana se parecem.

Ele se move com uma graça fluida, como um predador que sabe que está no topo da cadeia alimentar. O uniforme cai perfeitamente nele, ressaltando ombros largos que poderiam carregar o peso da liderança.

O aroma de pinho e chuva e alguma coisa selvagem atravessa o salão. Minha loba se ergue e presta atenção, um ganido preso na minha garganta.

Tudo nele grita dominância. Autoridade. Aquele tipo de magnetismo bruto que faz as pessoas seguirem sem questionar.

E eu não consigo desviar o olhar.

Meu coração martela contra as costelas. Minha boca seca. Há algo nele que chama cada instinto meu. Algo que deixa minha loba inquieta, desejando.

O grupo se move em direção a uma mesa na frente do refeitório. Uma plataforma elevada que os separa de todo mundo. Como realeza em audiência.

Ronan Nightbane se acomoda na cadeira com uma confiança natural. Os amigos se dispõem ao redor dele como planetas orbitando o sol. Mesmo sentado e imóvel, ele comanda a atenção do salão inteiro.

Este é o futuro do nosso mundo. A próxima geração de líderes.

E eu sou só uma garota Ômega do lado errado da cidade, encarando algo que eu nunca vou poder ter.

Mas eu não consigo parar de encarar.

Ele corta a carne com movimentos precisos. Tudo o que ele faz é gracioso. Controlado. Até algo tão simples quanto comer parece elegante quando ele faz.

Como seria ser notada por alguém assim? Ser digna da atenção dele?

O pensamento é perigoso. Impossível.

Mas não consigo evitar.

Como se pudesse sentir meu olhar, Ronan Nightbane levanta a cabeça do prato. Seus olhos cinza-tempestade percorrem o refeitório com preguiça.

E então encontram os meus.

O tempo para.

O mundo se estreita até sobrar só este momento. Só ele, eu e a tensão elétrica crepitando entre nós.

Os olhos dele se arregalam de leve. Algo tremula em seus traços perfeitos. Surpresa, talvez. Reconhecimento.

Eu não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo fazer nada além de encarar o garoto mais bonito que eu já vi.

E ele está olhando direto para mim.

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