Capítulo 2

Capítulo 2

Ponto de vista de Evangeline

O momento se estende entre nós como um fio esticado até o limite. Os olhos cinza-tempestade de Ronan perfuram os meus do outro lado do refeitório. Algo elétrico atravessa meu peito. Começa pequeno, como uma faísca, depois cresce até parecer um raio correndo pelas minhas veias.

Minha loba de repente desperta dentro de mim. Ela ficou em silêncio por tanto tempo, pouco mais que um sussurro. Agora está uivando de alegria. Arranhando minhas entranhas. Implorando para ser solta.

Companheiro. A palavra ecoa na minha mente como uma prece.

Minhas mãos começam a tremer. Eu aperto a borda da mesa com tanta força que meus nós dos dedos ficam brancos. Isso não pode estar acontecendo. Não comigo. Não com ele.

Mas eu consigo sentir. Esse fio invisível nos conectando. Puxando-nos um para o outro. Fazendo meu coração bater no mesmo ritmo que o dele.

O rosto de Ronan empalidece por completo. O garfo dele cai no prato com um barulho que parece ecoar para sempre. Os amigos dele se viram para olhá-lo, confusos.

"Ronan?", um deles diz. "O que houve?"

Ele não responde. Não consegue responder. Os olhos dele continuam presos aos meus. Eu vejo o exato momento em que ele percebe o que está acontecendo. Vejo o reconhecimento atingi-lo como um golpe físico.

O vínculo se intensifica. Mais forte. Mais quente. Queima no meu peito e se espalha para fora até cada terminação nervosa do meu corpo estar em chamas. Nunca senti nada assim. Nunca imaginei que algo pudesse ser tão intenso.

Minha loba está enlouquecida. Ela quer correr até ele. Reivindicá-lo. Marcá-lo como nosso.

Mas meu lado humano sabe mais. Sabe que isso é impossível. Errado. Uma piada cósmica que vai destruir nós dois.

Ronan empurra a cadeira para trás com tanta força que ela raspa no estrado. O som é como unhas num quadro-negro. Todos os olhares no refeitório se voltam para observá-lo.

"Não", ele sussurra. Mas, no silêncio mortal, todo mundo ouve.

O vínculo pulsa entre nós. Exigente. Insistente. Ele quer que a gente vá um até o outro. Que se toque. Que complete o que a Deusa da Lua começou.

Eu tento me levantar. Minhas pernas tremem tanto que quase caio. Luna segura meu braço para me firmar.

"Evangeline", ela sussurra, sem fôlego. "O que está acontecendo?"

Eu não consigo falar. Não consigo pensar. O vínculo é forte demais. Avassalador demais. Está abafando todo o resto.

Os amigos de Ronan estão falando com ele agora. As vozes deles soam urgentes e preocupadas. Mas ele não está ouvindo. Está me encarando como se eu fosse uma doença que ele pegou. Como se eu fosse veneno nas veias dele.

"Isso não é real", ele diz mais alto. A voz dele ecoa pelo refeitório silencioso. "Isso não pode ser real."

Os alunos começam a sussurrar. A apontar. Alguns deles se levantam para ver melhor. Os mais espertos já começam a gravar com os celulares.

Meu rosto queima de vergonha. Todo mundo está olhando. Todo mundo sabe o que está acontecendo. O futuro Alfa e a Ômega ninguém. Unidos pelo destino.

É um pesadelo que ganhou vida.

Ronan desce um degrau da plataforma. Depois outro. Cada passo o traz mais perto de mim. O vínculo canta em aprovação. Minha loba praticamente ronrona.

Mas o rosto dele... o rosto dele está retorcido de nojo. De horror. Como se se aproximar de mim fosse a pior coisa que ele já teve de fazer.

— Fica longe — eu sussurro. Mas minha voz sai baixa demais. Fraca demais.

Ele continua andando. Avançando na minha direção como um predador que se aproxima de uma presa ferida. Os amigos dele vêm atrás. O refeitório inteiro assiste, fascinado.

Eu quero correr. Quero desaparecer. Mas o vínculo me mantém no lugar. Torna impossível me afastar dele.

Ele para a menos de um metro da minha mesa. Perto o bastante para que eu sinta o cheiro dele. Pinheiro e chuva e alguma coisa selvagem que faz minha boca salivar. O vínculo pulsa, satisfeito.

De perto, ele é ainda mais bonito. Ainda mais devastador. A mandíbula dele está cerrada com força. Um músculo salta na bochecha. As mãos estão fechadas em punhos ao lado do corpo.

— Você — ele diz. A voz, baixa. Perigosa. — O que você fez?

— Eu não fiz nada — eu sussurro.

— Mentira. — A palavra acerta como um tapa. — Você fez alguma coisa. Usou algum tipo de magia. Algum truque.

As lágrimas ardem atrás dos meus olhos. — Eu não sei do que você está falando.

— Do vínculo — ele rosna. — Você forçou isso de algum jeito. Manipulou.

Todos ofegam. A palavra “vínculo” se espalha pela multidão como fogo. Agora todo mundo sabe com certeza. O futuro Alfa foi marcado para uma Ômega ninguém.

— Eu não... — digo, desesperada. — Eu juro que não.

Ele se inclina mais. Perto o bastante para que a respiração dele toque meu rosto. O vínculo grita de alegria com a proximidade dele. Minha loba implora para eu estender a mão e tocá-lo.

— Escuta com atenção — ele diz. A voz é baixa, mas todos se esforçam para ouvir. — Eu não sei que jogo você acha que está jogando. Que mentiras você contou a si mesma. Mas isso entre nós? Não é real.

Cada palavra é uma faca no meu coração. O vínculo se contorce em agonia. Minha loba choraminga como se tivesse levado um chute.

— É real — eu solto, sem ar. — Você sente também. Eu sei que sente.

Algo tremula nos olhos dele. Dor, talvez. Ou arrependimento. Mas some num instante, substituído por uma fúria gelada.

— Eu não sinto nada — ele mente. — Nada.

Mas o vínculo o trai. Eu consigo sentir as emoções dele através dele. A confusão. A negação. O jeito como o lobo dele está lutando contra ele, tentando empurrá-lo na minha direção.

"Você está mentindo", sussurro.

O rosto dele se contorce de raiva. "Eu sou Ronan Nightbane, o futuro Alfa da Alcateia Lua Crescente. Nasci para liderar. Para governar. Para acasalar com alguém digna da minha linhagem."

As palavras atingem como golpes físicos. Cada uma foi feita para cortar mais fundo que a anterior.

"E você", ele continua, erguendo a voz para que todos ouçam, "não é nada. Menos que nada. Uma ômega fraca e insignificante que nem sequer tem uma alcateia de verdade para chamá-la de sua."

Suspiros chocados ecoam pelo refeitório. Alguns estudantes riem. Outros parecem desconfortáveis, mas não dizem nada.

"Você acha que a Deusa da Lua me uniria a um lixo como você?", ele pergunta. "Acha que eu algum dia me rebaixaria a reivindicar algo tão patético?"

Minha visão se embaça com as lágrimas. O vínculo está gritando agora. Implorando para que eu faça isso parar. Para que eu conserte o que quer que esteja quebrado entre nós.

Mas eu não posso. Não há nada para consertar. É isso que ele realmente é. É isso que eu realmente sou. A distância entre nós poderia muito bem ser um oceano.

"Eu rejeito você", ele diz com clareza. Em voz alta. Garantindo que todos ouçam. "Eu, Ronan Nightbane, rejeito o falso vínculo entre nós. Rejeito qualquer direito que você ache que tem sobre mim."

As palavras me atingem como um raio. O vínculo se convulsiona. Se retorce. Começa a se rasgar nas bordas.

Mas não se rompe. Não pode se romper. Vínculos reais forjados pela Deusa da Lua são mais fortes que palavras. Mais fortes que a negação.

Os olhos de Ronan se arregalam quando ele percebe que o vínculo ainda está ali. Ainda pulsando entre nós. Mais fraco agora, mas não desaparecido.

"Por que não está funcionando?", ele exige.

Toco o peito, onde o vínculo repousa como uma coisa viva. Agora está ferido. Sangrando. Mas ainda vivo.

"Porque é real", sussurro. "Você querendo ou não."

A fúria distorce seus traços. Ele parece querer me machucar. Me fazer pagar por existir. Por arruinar a vida perfeita dele.

"Então vou deixar isso claro de outro jeito", ele diz.

Ele se vira para se dirigir ao refeitório inteiro. Sua voz alcança todos os cantos da sala.

"Deixem-me ser perfeitamente claro", ele anuncia. "Essa garota não significa nada para mim. Ela não é nada para mim. Uma ômega com delírios de grandeza que acha que pode se enfiar à força na minha vida."

A multidão murmura. Alguns assentem em concordância. Outros parecem desconfortáveis, mas não dizem nada.

"Se alguém aqui acha que existe alguma coisa entre nós", ele continua, "está errado. Completamente errado. Eu nunca mancharia minha linhagem com algo tão inferior."

Cada palavra foi feita para me destruir. Para me humilhar diante de todos. Para garantir que eu saiba exatamente qual é o meu lugar no mundo dele.

"Ela não é minha companheira", ele diz com firmeza. "Ela não é nada minha. É só uma garotinha patética que precisa aprender o seu lugar."

O silêncio que se segue é ensurdecedor. Centenas de estudantes me encaram com pena. Com nojo. Com alívio por não estarem no meu lugar.

Quero afundar no chão. Quero desaparecer completamente. A vergonha é tão intensa que parece que estou me afogando.

Ronan se vira de volta para mim. Seus olhos cinzentos estão frios como aço no inverno.

"Fique longe de mim", ele diz em voz baixa. "Fique longe dos meus amigos. Fique longe de qualquer coisa que me pertença. Se não ficar, vou tornar sua vida aqui tão miserável que você vai implorar para ir embora."

Ele se endireita e volta para a mesa. Os amigos o seguem como cães leais. A multidão aos poucos retoma as conversas, mas os sussurros são todos sobre mim. Sobre o que acabou de acontecer.

Fico sentada ali, tremendo. O vínculo pulsa fracamente no meu peito como um animal moribundo. Minha loba se encolhe num canto da minha mente e ganhe.

Luna põe a mão no meu ombro. "Evangeline..."

"Não", consigo dizer, engasgada. "Por favor, não."

Não consigo suportar compaixão agora. Não consigo suportar nada. A humilhação ainda está fresca demais. Crua demais.

Os estudantes continuam olhando. Continuam sussurrando. Alguns riem abertamente da minha desgraça. Outros gravam tudo com seus celulares, provavelmente já postando na internet.

Até esta noite, todos vão saber. A ômega que achou que podia reivindicar um alfa. A ninguém que foi colocada no seu devido lugar.

Eu me levanto sobre pernas trêmulas. Minha comida está intacta na bandeja. O cheiro agora me dá náusea.

"Preciso ir", sussurro para Luna.

"Pra onde?"

"Não sei. Qualquer lugar, menos aqui."

Jogo fora a bandeja e caminho em direção à saída. Cada passo parece como andar em areia movediça. Pesado. Difícil. Errado.

O vínculo me puxa, implorando para eu voltar. Para consertar isso de algum jeito. Mas não há nada para consertar. Ronan fez a escolha dele. Deixou isso claro para todo mundo ver.

Empurro as portas e cambaleio para o corredor. Meu peito parece estar desabando. Como se alguém tivesse enfiado a mão dentro de mim e arrancado meu coração.

O vínculo ainda está lá. Ferido e sangrando, mas vivo. Um lembrete constante do que eu quase tive. Do que perdi antes mesmo de realmente ter.

Eu me apoio na parede fria de pedra e finalmente deixo as lágrimas caírem. Elas vêm em ondas, cada uma mais dolorosa que a anterior.

Em algum lugar atrás de mim, ainda consigo senti-lo. Ainda consigo sentir o puxão da nossa conexão. Minha loba choraminga e anda de um lado para o outro, sem entender por que deixamos nosso companheiro para trás.

Mas ele não é mais o nosso companheiro. Ele deixou isso claro.

Ele não é nada para mim.

E eu não sou nada para ele.

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