Capítulo 3
Capítulo 3
PONTO DE VISTA DE RONAN
A porta da sala de treino bate atrás de mim com um estrondo de trovão. Eu me escoro nela, o peito subindo e descendo como se eu tivesse corrido uma maratona. Mas eu não mexi um músculo desde que saí do refeitório. Desde que coloquei aquela Ômega patética no devido lugar.
Desde que fiz exatamente o que precisava ser feito.
Minhas mãos tremem quando me afasto da porta. Não de arrependimento. De raiva. Uma fúria pura, branca, incandescente diante da piada cósmica que tentou arruinar a minha vida.
A lembrança me atinge como um golpe físico. O rosto dela. O jeito como ela me olhou com uma esperança tão desesperada. Como se eu fosse a salvação dela, e não superior a ela em todos os sentidos possíveis.
Dou um soco na parede de concreto. Com força. Os nós dos meus dedos se abrem. O sangue pinga no chão. O gosto metálico se mistura ao cheiro dela ainda grudado na minha pele. Meu estômago se revira de um jeito que eu me recuso a reconhecer.
Por que ela?
A pergunta queima na minha mente pela centésima vez. De todos os lobos em todas as matilhas, por que o destino tentou me acorrentar a ela? Uma Ômega sem família. Sem poder. Sem coluna.
Fraqueza. É só isso que ela representa. Tudo o que eu desprezo nas castas inferiores. O jeito como eles se encolhem e se submetem e aceitam o lugar patético deles no mundo.
Meu lobo rosna dentro de mim, agitado e furioso. Ele não entende por que eu rejeitei a nossa suposta companheira. Por que eu escolhi a força em vez da fraqueza que ela oferecia.
Porque eu vou ser Alfa. Porque líderes não se unem a fracassos. Porque o futuro da nossa matilha depende de linhagens fortes e de uma determinação ainda mais forte.
Tudo, menos o veneno que tentou me amarrar à mediocridade.
Eu me deixo cair no banco de supino e cerro os punhos. O metal frio morde minha pele através do uniforme. O cheiro dela ainda se agarra às minhas roupas. Baunilha doce e flores do campo. Isso embrulha meu estômago de nojo.
O flashback vem sem aviso.
Os olhos dela se arregalando quando aquele vínculo falso tentou se firmar. O jeito como os lábios dela se abriram de choque. Como ela agarrou a mesa como se tivesse algum direito de ficar sobrecarregada.
Por um instante fraco, alguma coisa dentro de mim respondeu. Alguma coisa patética que quis ir até ela. Minha mão chegou a se mover antes que eu esmagasse aquela fraqueza e a enterrasse onde ela devia ficar.
O olhar no rosto dela quando eu disse a verdade. Quando eu lembrei a ela e a todos os outros exatamente o que ela era.
As lágrimas que ela era fraca demais para esconder.
Eu aperto os olhos, o orgulho inchando no meu peito. Eu lidei com aquilo perfeitamente. Mostrei a todos que Ronan Nightbane não se curva a ninguém nem a nada.
— Ronan?
Ergo o olhar e encontro meu melhor amigo, Marcus, parado na porta. O rosto dele está tenso com algo que parece preocupação, mas também poderia ser admiração. Atrás dele, o resto do meu círculo íntimo se amontoa na sala.
— Ouvimos o que aconteceu — Marcus diz com cuidado. — Aquilo foi brutal.
Brutal. Perfeito. Exatamente o que precisava ser.
— Ela mereceu — eu digo, e minha voz agora está firme. Forte. — Alguém precisava colocar ela no lugar.
— Do jeito que você cortou ela — diz Jenna, a única garota do nosso grupo. — Todo mundo está falando disso. Você deixou claro que Alfas não se misturam com lixo.
Meu lobo se contorce dentro de mim, arranhando minha consciência. Ele não entende. Não enxerga o quadro maior. Tudo o que ele conhece é algum instinto primitivo que tentou me tornar fraco.
— Foi necessário — eu digo. Minha voz soa exatamente como a de um Alfa deveria soar. Confiante. Inabalável. — Ômegas precisam entender o lugar delas. Principalmente as que acham que podem passar do próprio nível.
Mas as expressões dos meus amigos estão estranhas. Como se eles estivessem vendo algo que eu não estou mostrando.
— O vínculo — Marcus diz baixinho. — Tinha alguma coisa ali, não tinha?
As palavras ficam suspensas no ar como uma acusação. Meu lobo fica completamente imóvel, à espera.
— Não tinha nada — eu minto com suavidade. — Só uma Ômega patética com delírios e imaginação demais.
— Mas o jeito que você reagiu...
— Eu reagi como qualquer Alfa reagiria diante de um desrespeito desses — eu o interrompo. — Com força. Com clareza. Com o tipo de liderança que esta matilha precisa.
Meu lobo começa a andar de um lado para o outro dentro de mim, agitado e furioso. Ele não concorda com nada do que estou dizendo. Continua me empurrando imagens que eu não quero ver.
As mãozinhas dela tremendo. O jeito como tentou tanto ser corajosa mesmo quando eu estava destruindo-a.
Como ela ergueu o queixo e sustentou meu olhar mesmo quando as lágrimas ameaçavam cair.
A força escondida sob toda aquela fraqueza.
Afasto esses pensamentos com violência. Não há força na submissão. Não há coragem em aceitar a derrota. Ela é tudo o que eu odeio na mentalidade ômega.
— O que você vai fazer agora? — Jenna pergunta.
— Nada — eu digo. — Porque não há nada a fazer. Ela entendeu o recado. Todo mundo entendeu o recado. Alfas se acasalam com seus iguais, não com casos de caridade.
A lembrança me atinge de novo. Mais afiada dessa vez. Mais nítida.
O jeito como o rosto dela desmoronou quando eu a chamei de inferior. Como ela se encolhia a cada verdade que eu dizia, como se eu estivesse machucando-a.
Por uma fração de segundo, minha mão quis alcançá-la. Alguma parte fraca de mim quis consolar em vez de comandar.
Mas então me lembrei de quem eu sou. De como a força se parece. E terminei o que precisava ser terminado.
Meu peito se enche de satisfação. Fiz exatamente o que um Alfa deve fazer. Escolhi o poder em vez da fraqueza. Escolhi a alcateia em vez dos sentimentos pessoais.
Meu lobo começa a uivar. Um som de puro tormento que rasga minha consciência como garras.
Meus amigos trocam olhares antes de saírem em silêncio, me deixando sozinho com minha satisfação. Meu orgulho. O protesto interminável do meu lobo contra o que eu fiz.
O silêncio parece mais pesado agora. Dou outro soco na parede. Dessa vez, não parece bom. Parece vazio. Como acertar o ar. Como punir o inimigo errado.
Meus joelhos vacilam por um segundo. Aperto o banco com mais força, as bordas de metal cortando minhas palmas. Gotas de suor se formam na minha testa apesar do ar frio.
As lembranças vêm em ondas agora. Cada uma tentando me fazer duvidar de mim mesmo.
A mão dela se estendendo em minha direção antes de ela se conter. A esperança desesperada em seus olhos, que eu esmaguei por completo.
O jeito como ela sussurrou “você está mentindo” quando eu disse que não sentia nada. Porque alguma parte dela se recusava a aceitar a verdade.
Como ela parecia pequena ao se afastar. Como parecia derrotada.
Fui eu que fiz isso com ela. Peguei as ilusões dela e as despedacei porque alguém tinha que fazer isso. Porque a verdade é mais importante do que os sentimentos.
Porque Alfas não mimam a fraqueza.
Meu lobo passou de uivos para algo pior. Um ganido baixo e constante que faz meu crânio latejar. Como se ele estivesse de luto por algo que eu não entendo.
— Não — rosno em voz alta, minha voz ecoando pelas paredes de concreto. Mas então a voz do meu lobo rompe a minha, suave e rouca: — Evangeline...
Bato a mão sobre a boca. Forço a fraqueza de volta para baixo, para onde ela pertence.
Não há nada a lamentar. Fiz a escolha certa. A escolha forte. A escolha que protege tudo pelo que trabalhei.
O vínculo que tentou se formar entre nós foi um erro. Um erro cósmico que teria destruído tudo o que estou destinado a me tornar.
Fecho os olhos e me permito sentir satisfação pela forma como lidei com isso. Como protegi meu futuro da contaminação.
Ela não era nada. Não é nada. E sempre será nada.
E eu garanti que todos soubessem disso.
Meu celular vibra com mensagens de membros da alcateia me parabenizando. Elogiando minha força. Falando sobre como lidei com a situação de forma perfeita.
Respondo a cada uma com o orgulho que sinto. Com a satisfação de um trabalho bem-feito. Mas, por algum motivo, esse orgulho não tem o gosto doce que deveria ter. Cada resposta parece mais forçada do que a anterior.
Porque, em algum lugar do campus, aquela ômega provavelmente está chorando. Provavelmente entendendo pela primeira vez como o poder de verdade se parece. Provavelmente grata por eu ter lhe ensinado uma lição tão importante.
Meu lobo choraminga como se algo estivesse morrendo dentro dele.
Mas lobos não entendem o que é preciso para liderar. O preço de ser forte.
Eu entendo.
E não me arrependo de nada.
Mesmo assim, de alguma forma, eu não consigo parar de sangrar.
