Capítulo 4
Capítulo 4
Ponto de vista de Evangeline
No segundo em que atravesso as portas da escola na manhã seguinte, eu sei que alguma coisa mudou. O ar parece diferente. Carregado de maldade. Alunos que mal me notaram ontem agora acompanham cada um dos meus movimentos com olhos predatórios.
Minhas mãos tremem enquanto aperto com mais força as alças da mochila. O hematoma no meu peito, onde o vínculo está, dói a cada batida do coração. O sono não veio na noite passada. Toda vez que eu fechava os olhos, via o rosto dele. Ouvia sua voz me humilhando na frente de todo mundo.
Fique longe de mim.
A lembrança queima como ácido na minha garganta.
Mantenho a cabeça baixa e caminho em direção ao meu armário. Cada passo parece ser dado em areia movediça. Pesado. Errado. Como se eu estivesse indo ao encontro de algo terrível.
Um grupo de garotas do segundo ano está perto do bebedouro. Elas me veem chegando e começam a cochichar. As vozes delas ecoam pelo corredor como veneno.
— Lá está ela.
— A garota que tentou se jogar em cima do Ronan.
— Patética.
Minhas bochechas queimam. Abaixo ainda mais a cabeça e ando mais rápido. Mas não há onde me esconder. Nem para onde correr. Estão por toda parte.
No meu armário, eu me atrapalho com a combinação. Meus dedos não funcionam direito. Tremem demais. Estão desajeitados demais. O metal parece gelado como gelo contra a minha pele. Minha loba choraminga no fundo da minha mente, sentindo perigo por toda parte.
Alguém esbarra em mim com força. Meus livros se espalham pelo chão. Papéis voam para todo lado.
— Oops — diz uma voz. — Foi mal por isso.
Ergo os olhos e vejo Derek Morgan, um dos amigos do Ronan da cafeteria. Ele não está arrependido nem um pouco. Seu sorriso é cruel. Satisfeito.
— Você devia tomar mais cuidado — ele continua, pisando em um dos meus cadernos enquanto eu tento juntar minhas coisas. — Acidentes acontecem com gente desastrada.
Outros alunos passam por ali. Alguns riem. Outros fingem não ver. Ninguém ajuda.
Eu me apresso para recolher meus papéis, mas Derek continua se mexendo. Continua pisando nas coisas. Continua tornando impossível para mim limpar a bagunça.
— Temos algum problema aqui? — pergunta outra voz.
Levanto o olhar e vejo Jake Williams, outro do círculo mais próximo de Ronan. A presença dele faz minha loba se encolher dentro de mim. A energia alfa irradia dele em ondas.
— Problema nenhum — Derek sorri. — Só estou ajudando nossa nova aluna a entender como as coisas funcionam por aqui.
Os olhos de Jake são frios como aço no inverno. — Algumas pessoas precisam de uma ajudinha extra para aprender o seu lugar.
Eles não estão mais falando sobre acidentes. Isso é uma mensagem. Um aviso.
Finalmente consigo juntar minhas coisas e me levantar. Minhas pernas parecem água. Meu corpo inteiro treme de medo, raiva e algo mais profundo. Algo que dói mais do que dor física.
— Garota esperta — diz Jake quando me afasto às pressas. — Continue sendo esperta.
A ameaça me segue pelo corredor. Se instala nos meus ossos como gelo.
Na primeira aula, ninguém quer se sentar perto de mim. Alunos que dividiram mesa comigo ontem de repente encontram outros lugares. O isolamento é completo. Total.
O professor Kane percebe, mas não diz nada. Há simpatia em seus olhos, mas simpatia não vai me proteger do que está por vir.
Durante a aula, alguém joga uma bola de papel amassado na minha cabeça. Ela bate e cai no chão. Não me viro. Não reajo. Mostrar fraqueza só vai piorar as coisas.
No papel está escrito: "Puta ômega."
Minha visão fica embaçada. Pisco com força e foco no quadro. Obrigo a mim mesma a fazer anotações. A fingir que estou bem quando tudo dentro de mim está gritando.
Outra bola de papel me atinge. Depois outra.
"Vadia delirante."
"Saiba o seu lugar."
"Rejeitadas por alfa não pertencem aqui."
Cada palavra é uma faca entre as minhas costelas. Cada insulto foi feito para me lembrar da humilhação de ontem. Do momento em que meu mundo desabou diante de todo mundo.
Minha loba se encolhe ainda mais dentro de mim, ferida e envergonhada. Mas, em algum lugar sob a dor, outra coisa se agita. Algo que sussurra: Um dia, todos eles vão se arrepender disso. Cada um deles.
O pensamento me surpreende com sua ferocidade. Eu o empurro para o fundo rapidamente. Não estou pronta para desafiar ninguém. Ainda não.
O sinal toca. Os alunos saem rápido, suas conversas fervilhando de animação. Estão gostando disso. Se alimentando da minha miséria como abutres.
Fujo para o banheiro mais próximo e me tranco na cabine mais distante. Apoio as costas na porta fria e finalmente me permito respirar. O silêncio me envolve como um cobertor.
Por um breve momento, fecho os olhos e imagino a voz do tio Marcus. "Seja corajosa, pequena loba", ele costumava sussurrar quando eu acordava dos pesadelos. "Você é mais forte do que imagina."
Mas eu não me sinto forte. Me sinto destruída. Estilhaçada em pedaços que não sei como juntar de novo.
Uma lágrima escorre pela minha bochecha. Depois outra. Eu as enxugo depressa. Chorar não vai consertar isso. Nada vai.
"Senhorita Cross?" A voz do professor Kane é gentil.
Ergo o olhar com os olhos inchados de tanto segurar o choro.
"Você está bem?"
A pergunta quase me quebra. Porque não, eu não estou bem. Estou me afogando. Sufocando sob o peso do ódio de todo mundo.
"Estou bem", sussurro.
Ele não acredita em mim. "Se precisar conversar..."
"Eu disse que estou bem."
Ele assente com tristeza e me deixa ir.
O corredor é um corredor polonês de rostos hostis. Os alunos se afastam à minha volta como se eu tivesse uma doença. Os sussurros deles me seguem por toda parte.
"Você viu o que aconteceu ontem?"
"Ela realmente achou que Ronan Nightbane ia querer ela."
"As ômegas são tão desesperadas."
"Alguém devia acabar com o sofrimento dela."
O último comentário faz meu sangue gelar. Há ameaça de verdade nele. Perigo real.
Na segunda aula, meu parceiro de laboratório de ontem trocou de lugar. O professor me manda trabalhar sozinha. De novo. A mensagem é clara: agora eu sou tóxica. Intocável.
Durante o experimento, alguém "acidentalmente" derruba meu béquer. Produtos químicos espirram nas minhas anotações, destruindo horas de trabalho. O líquido queima minha pele onde toca.
"Foi mal", diz a garota com uma doçura falsa. "Como eu sou desastrada."
Eu limpo a bagunça em silêncio. Minhas mãos ardem por causa da queimadura química, mas não reclamo. Não peço ajuda. Não adianta.
No almoço, levo minha bandeja até a mesma mesa de ontem. Luna não está lá. Nem os outros alunos que pareciam simpáticos. Sento sozinha no canto, cercada por cadeiras vazias.
O refeitório fervilha de conversas, mas tudo morre quando passo. Cabeças se viram. Olhos encaram. Sussurros me seguem.
Tento comer, mas a comida tem gosto de cinza na minha boca. Meu estômago se revira de ansiedade. Com a certeza doentia de que isso é só o começo.
Uma sombra cai sobre a minha mesa. Ergo os olhos e vejo três garotas paradas ali. Alfas, a julgar pela postura confiante e pelos sorrisos predatórios.
— Se importa se a gente sentar? — pergunta a líder. Ela não espera uma resposta.
Elas se acomodam ao meu redor como lobas acuando a presa. Seus cheiros são de perfume caro e violência mal contida.
— Queríamos nos apresentar — a líder continua. O crachá dela diz “Madison”. — Já que você é nova e tudo mais.
Não respondo. Cada instinto em mim grita perigo.
— Ficamos sabendo da sua pequena apresentação ontem — acrescenta outra garota. — Com Ronan.
O nome dele me atinge como um golpe físico. O vínculo no meu peito pulsa em agonia.
— Aquilo foi tão corajoso — diz Madison, com falsa admiração. — Se atirar em cima de alguém tão acima da sua posição. Realmente mostrou a todo mundo do que as ômegas são capazes.
A risada delas raspa nos meus ouvidos como lixa. Minha loba se encolhe, o rabo entre as pernas, humilhada demais até para rosnar. O cheiro do perfume caro delas se mistura a algo mais cortante. Satisfação. Elas estão gostando da minha dor.
— Mas agora estamos preocupadas com você — comenta a terceira garota. — Tão sozinha. Sem amigos. Sem proteção.
— Esta escola pode ser perigosa para lobas sem alcateia — acrescenta Madison. — Acontecem acidentes. Pessoas se machucam.
A ameaça é cristalina. Estão me caçando. Marcando-me para ser destruída.
— Queremos ajudar — Madison continua. — Garantir que você entenda como as coisas funcionam aqui.
Ela estica o braço por cima da mesa e agarra meu pulso. As unhas cravam na minha pele com força suficiente para deixar marcas. Minha loba rosna baixo no meu peito, mais ferida do que zangada. Eu a obrigo a recuar. Não adianta lutar uma guerra que já perdemos.
— Regra número um: saiba o seu lugar. Você é uma ômega. O nível mais baixo da cadeia alimentar. Não fala a menos que falem com você. Não olha um Alfa nos olhos. Não pense que merece mais do que migalhas.
O aperto dela se intensifica. Consigo sentir os hematomas se formando.
— Regra número dois: fique longe dos seus superiores. Isso significa Alfas. Betas. Qualquer um que tenha valor de verdade.
— Regra número três — acrescenta a segunda garota —, lembre-se de que você só está aqui por caridade. Uma palavra da pessoa certa, e você some.
Elas estão falando de Ronan. De como ele poderia destruir com facilidade o pouco que me resta.
— Entendeu? — pergunta Madison.
Eu assinto porque não tenho escolha.
— Boa garota. — Ela solta meu pulso e se levanta. — Vamos ficar de olho em você. Garantindo que siga as regras.
Elas vão embora rindo. A conversa delas ecoa pelo refeitório, alta o bastante para que todos ouçam.
— Viram a cara dela?
"Tão patética."
"Ronan fez bem em rejeitá-la."
"As ômegas nunca aprendem."
Olho para o meu pulso. Cinco marcas perfeitas de unha florescem em roxo contra a minha pele pálida. Prova física do que me tornei.
Um alvo.
O resto do almoço passa em meio a olhares hostis e sussurros cruéis. Toda vez que ergo os olhos, alguém está me observando. Me julgando. Me achando insuficiente.
Quando o sinal toca, jogo fora a comida intocada e vou em direção à saída. Mas o corredor não traz alívio. Se alguma coisa, é ainda pior.
Alguém me dá uma rasteira. Consigo me segurar antes de cair, mas minha dignidade já foi embora.
"Olha por onde anda, ômega", uma voz grita.
O riso ecoa pelas paredes.
Na terceira aula, encontro um bilhete colado na minha carteira: "Vagabundas não pertencem às turmas avançadas."
A professora ou não percebe ou não se importa. Amasso o papel e o enfio na bolsa junto com os outros.
Durante a quarta aula, alguém derrama água na minha cadeira antes de eu me sentar. Minhas roupas se encharcam imediatamente. Passo o resto da aula com frio, molhada e humilhada.
"Acidentes acontecem", a culpada dá de ombros quando lanço um olhar fulminante para ela.
Quando a escola finalmente acaba, estou exausta. Derrotada. Cada palavra cruel e cada olhar hostil arrancaram um pedaço das minhas defesas até não sobrar nada.
Caminho até o meu armário em transe. Meu reflexo na porta de metal mostra uma garota que mal reconheço. Olhos vazios. Quebrada. Uma sombra de quem eu era ontem.
A combinação não funciona. Tento três vezes antes de perceber que alguém colou a fechadura com supercola. Vandalizou meu único espaço seguro.
Lágrimas quentes ardem nos meus olhos. Apoio a testa no metal frio e deixo que caiam.
Essa é a minha vida agora. Foi isso que a rejeição de Ronan me custou.
Tudo.
"Está com problemas?" uma voz familiar pergunta.
Viro e vejo Luna parada ali. O rosto dela está cuidadosamente neutro, mas consigo ver pena nos olhos dela.
"Estou bem", eu minto.
"Não, não está." Ela se aproxima. "O que estão fazendo com você... não está certo."
"É o que eu mereço", sussurro. As palavras têm gosto de veneno.
"Ninguém merece isso."
Mas ela está errada. Mirei alto demais. Quis algo que eu não tinha o direito de querer. E agora estou pagando o preço.
"Por que você está falando comigo?", pergunto. "Você não vai se meter em problemas?"
Os olhos dela deslizam nervosamente pelo corredor antes que ela fale. Algo lampeja em seu rosto. Medo, talvez. Ou culpa.
"Eu só queria que você soubesse", ela diz em voz baixa, "você acha que a rejeição de Ronan foi a pior parte? Aquilo foi só o primeiro movimento dele. Vai piorar antes de melhorar."
As palavras me atingem como água gelada. Há conhecimento na voz dela. Como se soubesse alguma coisa que eu não sei.
"O que você quer dizer?"
Mas ela já está indo embora. Já se afastando do lixo tóxico que a minha existência se tornou.
Fico ali sozinha no corredor vazio, finalmente compreendendo.
Isso não é bullying aleatório. Não são só adolescentes cruéis sendo cruéis.
Isso é organizado. Planejado. Orquestrado.
Ronan não apenas me rejeitou ontem.
Ele declarou guerra.
