Capítulo 5

Capítulo 5

PONTO DE VISTA DE EVANGELINE

Tem alguma coisa errada comigo.

Acordo na manhã de quinta-feira sentindo como se alguém tivesse drenado toda a vida do meu corpo. Meus braços tremem quando tento levantá-los. Minhas pernas bambeiam quando fico de pé. Até respirar parece difícil, como se o ar tivesse ficado grosso como lama.

Minha loba está em silêncio. Completamente em silêncio. Ela sempre foi quieta, mas isso é diferente. É como se ela... tivesse ido embora.

Ela costumava vibrar no meu peito quando eu estava com medo. Sussurrava coragem quando eu queria correr. Nos momentos mais sombrios depois que o tio Marcus morreu, ela se enrolava no meu coração e prometia que sobreviveríamos juntas.

Agora só há vazio onde ela deveria estar.

Cambaleio até o banheiro e jogo água fria no rosto. A garota que me encara de volta no espelho parece doente. Pálida. Oca. Como um fantasma de quem eu costumava ser.

— Se recomponha — sussurro para o meu reflexo. Mas minha voz soa fraca. Frágil.

O caminho até a escola leva o dobro do tempo de sempre. Cada passo parece que estou andando pela areia. Minha mochila pesa mil quilos. Quando chego às portas da frente, estou suando apesar do ar fresco da manhã.

Os alunos passam por mim sem nem olhar duas vezes. A energia deles é avassaladora. Brilhante e afiada contra a minha apatia. Preciso me apoiar na parede para não cair.

O que está acontecendo comigo?

Na primeira aula, mal consigo segurar o lápis. Minha letra parece o rabisco de uma criança. O professor Kane me chama duas vezes, mas as palavras se embaralham na página. Eu não consigo me concentrar. Não consigo pensar.

— Senhorita Cross? — A voz dele soa distante. — Você está se sentindo bem?

Eu aceno com a cabeça porque falar parece trabalho demais. Ele franze a testa, mas não insiste.

Durante o intervalo entre as aulas, me encosto no meu armário e fecho os olhos. O barulho do corredor martela meu crânio como se fossem martelos. Tudo é alto demais. Claro demais. Demais.

— Olha ela — alguém sussurra. — Ela está horrível.

— Ótimo — outra voz responde. — Talvez agora ela finalmente entenda o recado.

As palavras mal chegam até mim. Estou cansada demais para ligar para sussurros. Exaurida demais para sentir o corte da crueldade deles.

Uma sombra cai sobre mim. Abro os olhos e vejo Derek Morgan parado ali, com o mesmo sorriso cruel de ontem. Mas hoje há algo diferente. Há satisfação no olhar dele. Como se ele soubesse de alguma coisa que eu não sei.

— Não está se sentindo bem? — ele pergunta, com uma preocupação falsa.

Eu não respondo. Não consigo responder. Minha língua parece pesada dentro da boca.

— Que pena — ele continua. — Ouvi dizer que ser rejeitada pelo seu companheiro pode te deixar doente. Acho que é verdade.

Ele vai embora rindo, mas as palavras dele ficam presas como espinhos. É isso, então? Algum tipo de doença por causa do vínculo ferido?

Mas o vínculo não está rompido. Ferido, sim. Rasgado e sangrando. Mas ainda está ali, pulsando fraco no meu peito como um batimento em agonia.

A rejeição deveria ter rompido o vínculo por completo, mas alguma coisa continuou viva entre nós. Um fio. Desgastado. Definhando. Talvez porque eu nunca o tenha aceitado. Talvez porque o destino não solte assim tão fácil.

Ou talvez porque nem ele consiga destruir por completo o que a Deusa da Lua criou.

A segunda aula é pior. A voz do professor vira um ruído branco. Minha visão fica embaçada até eu não conseguir mais enxergar o quadro. Apoio a cabeça na carteira e tento não vomitar.

— Evangeline? — a garota ao meu lado toca meu ombro. — Você está muito pálida.

Ergo a cabeça devagar. A sala gira como um brinquedo de parque de diversões.

— Estou bem — murmuro.

Mas eu não estou bem. Estou desaparecendo. Como se alguém estivesse me apagando da existência aos poucos.

Na hora do almoço, mal consigo erguer minha bandeja. A funcionária da cantina me lança um olhar preocupado quando minhas mãos tremem tanto que quase deixo tudo cair.

— Você está bem, querida? — ela pergunta.

Assinto com a cabeça e cambaleio em direção às mesas. Mas, na metade do caminho, minhas pernas cedem. Eu me seguro numa cadeira vazia, mas a bandeja cai no chão com estrondo. A comida se espalha por toda parte. O barulho ecoa pela cantina, que de repente fica em silêncio.

Todo mundo encara. Aponta. Cochicha.

— Você viu isso?

— Ela mal consegue ficar em pé.

— O que há de errado com ela?

O calor sobe às minhas bochechas, apesar do frio que sinto. Tento limpar a bagunça, mas minhas mãos não param de tremer. Uma funcionária se aproxima e faz um gesto para que eu saia dali.

— Está tudo bem, querida — ela diz com gentileza, as mãos marcadas pelo tempo suaves enquanto me ajuda a me equilibrar. — Acidentes acontecem. Vá descansar um pouco agora.

A gentileza dela quase me destrói. Num mundo cheio de pessoas que querem me ver cair, essa estranha me oferece conforto sem pedir nada em troca. Quero agradecer, quero dizer o quanto esse gesto simples significa para mim, mas as palavras ficam presas na garganta.

Consigo chegar a uma mesa no canto dos fundos e desabo na cadeira. Meu corpo parece ser feito de papel. Como se um vento forte pudesse me levar embora.

Uma pequena folha marrom cai do meu cabelo sobre a mesa. Morta. Quebradiça. Esfarela em pó quando eu a toco. Assim como eu estou me esfarelando de dentro para fora.

É então que eu o vejo.

Ronan está sentado à mesa de sempre, cortando a carne com movimentos precisos. Mas há algo diferente nele hoje. Algo que faz meu estômago doente se revirar ainda mais.

Ele está usando um colar.

É simples. Uma corrente fina de prata com um pequeno pingente de pedra. Azul-escuro, quase preto. Ele capta a luz de um jeito estranho, como se a absorvesse em vez de refleti-la.

Nunca vi Ronan usar joias antes. Nunca.

Nossos olhares se encontram de lados opostos da cantina. Por um momento, vejo algo vacilar na expressão dele. Culpa, talvez. Ou arrependimento.

Mas então o maxilar dele se contrai. Ele desvia o olhar e diz alguma coisa aos amigos. Todos se viram para me encarar com sorrisos de satisfação.

A pedra em volta do pescoço dele parece pulsar com uma luz sombria.

E, de repente, eu sei.

O momento. A fraqueza repentina. O jeito como minha loba ficou em silêncio. A satisfação nos olhos dos amigos dele.

Foi ele quem fez isso comigo.

De algum jeito, aquele colar está ligado ao que está acontecendo. Ao motivo de eu sentir que estou morrendo de dentro para fora.

A constatação me atinge como um raio. A raiva me invade, quente e feroz. Por um momento, a fraqueza desaparece. Minha loba se agita, tentando vir à tona.

Mas então a pedra pulsa de novo, e tudo desaba. A raiva some. A força evapora. Minha loba solta um gemido baixo uma vez e volta ao silêncio.

Estou presa. Enjaulada por qualquer magia que aquela coisa carrega.

O resto do almoço passa em meio a uma névoa. Não consigo comer. Não consigo me concentrar. Não consigo fazer nada além de ficar sentada ali, sentindo que fico mais fraca a cada minuto.

Quando o sinal toca, eu me esforço para ficar de pé. Os outros alunos passam por mim como água contornando uma pedra. Rápidos. Cheios de energia. Tudo o que eu não sou.

Na terceira aula, abaixo a cabeça sobre a carteira e não a levanto. O professor nem se dá ao trabalho de me chamar. Agora sou invisível. Um fantasma assombrando o fundo da sala de aula.

Na quarta aula, andar se torna quase impossível. Eu me apoio nas paredes entre uma sala e outra. Descanso nos bancos. Paro a cada poucos passos para recuperar o fôlego.

Alunos que antes me ignoravam agora encaram abertamente. Alguns com confusão. Outros com diversão cruel.

— Ela está piorando.

— Vocês acham que ela está doente?

— Espero que seja contagioso.

As vozes deles se misturam até virarem um ruído sem sentido. Estou cansada demais para me importar com o que pensam.

O último sinal toca como salvação. Reúno minhas coisas com movimentos que parecem submersos. Lentos. Desajeitados. Errados.

O caminho até meu armário parece interminável. Quando finalmente chego lá, me apoio nele e fecho os olhos. Só por um momento. Só para descansar.

— Dia difícil?

Abro os olhos e encontro Luna parada ali. Ela parece preocupada. Culpada. Como se soubesse mais do que está dizendo.

— O que você quis dizer ontem? — pergunto. Minha voz sai pouco mais que um sussurro. — Sobre isso piorar?

Ela olha ao redor com nervosismo. Certifica-se de que ninguém está ouvindo.

— Existem rumores — ela diz em voz baixa, lançando outro olhar nervoso em volta. — Não sei se são verdade, mas... existem histórias. Sobre a linhagem Nightbane.

— Que tipo de histórias?

— Que eles guardam relíquias antigas. E usam magia esquecida para conseguir o que querem.

Meu sangue vira gelo.

— Que tipo de magia?

— Do tipo que pode enfraquecer lobos. Fazer com que percam a conexão com seu lado animal. Fazer com que deixem de sentir... — Ela interrompe a frase, parecendo assustada demais até para dizer.

— Deixem de sentir o quê?

— Vínculos. Especialmente o vínculo de companheiros.

As palavras atingem meu peito como uma marreta. O vínculo. Ele está tentando destruir o vínculo entre nós.

— Por que está me contando isso? — sussurro.

— Porque me sinto mal por você — ela admite. — Porque o que está acontecendo não é justo. E porque...

— Porque o quê?

Ela olha para mim com os olhos cheios de pena.

— Porque, se ele conseguir, você vai perder tudo o que faz de você uma loba. O vínculo vai enfraquecer até que você não consiga mais senti-lo. Você vai se tornar completamente humana.

As palavras dela me atingem como golpes físicos. Cada uma cravando ainda mais a verdade horrível que eu tenho tentado ignorar.

Ele não está apenas tornando a minha vida miserável. Está tentando arrancar a minha loba de mim. A minha ligação com ele. Tudo o que prova que fomos feitos para ficar juntos.

— Dá para impedir isso? — pergunto, desesperada.

A expressão de Luna diz tudo.

— Não sei. Talvez. Mas você precisaria destruir a fonte. E, mesmo assim, se o vínculo for completamente rompido...

Ela não termina. Nem precisa.

Estou perdendo a minha loba. E Ronan Nightbane é quem está tirando ela de mim.

— Eu preciso ir — diz Luna de repente. O medo lampeja em seu rosto. — Não podem me ver falando com você por muito tempo. Desculpa.

Ela sai apressada, me deixando sozinha com a terrível verdade.

Eu me apoio no meu armário e tento processar o que descobri. Tento dar sentido ao impossível.

Magia. Magia antiga, capaz de enfraquecer lobos e romper vínculos. Capaz de arrancar tudo o que me conecta à minha outra metade.

E Ronan está usando isso contra mim para destruir o que a Deusa da Lua criou.

O colar. Tem que ser o colar. Aquela pedra escura que parecia pulsar com luz própria. É isso que está roubando a minha loba. A minha ligação com ele.

Mas saber o que está acontecendo não me ajuda a impedir. Sou só uma Ômega fraca contra o futuro Alfa e todo o seu poder.

Tento me afastar do armário e quase caio. Minha visão escurece nas bordas. Por um momento aterrorizante, acho que posso desmaiar ali mesmo, no corredor.

De algum jeito, consigo chegar lá fora. O ar fresco ajuda um pouco, mas não muito. Sento nos degraus da entrada e enfio a cabeça entre os joelhos.

Os alunos passam por mim sem parar. Sem ajudar. Agora sou invisível para eles. Só mais um pedaço de lixo atrapalhando o mundo perfeito deles.

Meu celular vibra com uma mensagem. Eu o tiro do bolso com as mãos trêmulas.

O número é desconhecido, mas a mensagem faz meu estômago afundar:

"A dor acaba quando você a aceita."

Foi mesmo ele quem mandou? Ou estou tão paranoica que toda sombra parece uma ameaça? Mas, de algum modo, eu sei. Posso sentir a presença dele por trás das palavras.

Ele está me observando. Monitorando o quanto a magia dele está funcionando. Garantindo que o vínculo entre nós fique mais fraco a cada dia.

Apago a mensagem e guardo o celular. Mas o estrago já foi feito. O medo se instalou fundo nos meus ossos.

Ele não está apenas destruindo o meu corpo. Está destruindo a conexão sagrada entre nós. Tentando me fazer esquecer o que poderíamos ter sido.

E a pior parte? Está funcionando.

Mal consigo sentir o vínculo agora. O que antes queimava intensamente entre nós agora tremula como a chama de uma vela ao vento.

Mas, enquanto estou ali sentada nos degraus frios de concreto, algo dentro de mim se rebela. Algo pequeno, mas feroz. A mesma faísca que sussurrou vingança ontem.

Ele quer que eu perca a minha loba? Ótimo.

Ele quer que o vínculo desapareça? Que desapareça.

Mas não vou deixar que ele apague o que somos sem lutar.

E, de algum jeito, de alguma forma, vou encontrar um meio de fazê-lo lembrar do que está destruindo.

Mesmo que isso me custe tudo.

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