Capítulo 1 A DESILUSÃO

O PRESENTE

O peso de Robert nos meus braços era a única coisa que me impedia de desabar após dez horas consecutivas de planilhas e cobranças na empresa. Quando ele correu pelo corredor colorido da escolinha e se agarrou ao meu pescoço, respirei fundo, absorvendo o cheiro de shampoo infantil e pele quente. Aquele era o meu santuário.

— Ele foi um anjo hoje, Sofia — a professora comentou, estendendo a mochila de dinossauros com um sorriso cansado. — Dividiu os brinquedos, ajudou a organizar a sala... Nenhum problema.

— Esse é o meu orgulho — murmurei, colando meus lábios na bochecha gordinha dele. A risada cristalina do meu filho ecoou pelo hall, funcionando como um anestésico imediato para a minha exaustão.

Enquanto caminhávamos para o estacionamento sob o céu cinzento do fim de tarde, senti uma onda de antecipação vibrar no meu peito. Acomodei Robert na cadeirinha do banco traseiro, ajustando os cintos com o automatismo de quem cumpre um ritual sagrado.

— O que acha da mamãe fazer o seu jantar favorito hoje, hum? — perguntei, jogando a minha bolsa no banco do carona.

— Eba! — Os olhinhos escuros dele, idênticos aos do pai, brilharam.

— Mas tem uma condição: comer tudo, banho quente com muita espuma e cama cedo. A mamãe quer a noite livre com o papai hoje.

Robert inclinou a cabeça, os fios castanhos caindo sobre a testa.

— Pur quê voxê quer ficar xó com o papá?

Dei partida no carro, sentindo o motor vibrar suavemente.

— Porque os adultos precisam de um tempo para conversar, meu amor. Só os adultos.

— Tem tota de maçã? — ele rebateu imediatamente, mudando o foco com a esperteza típica de uma criança de quatro anos.

— Se você prometer que não vai ter dor de barriga, a mamãe deixa você comer um pedaço — cedi, sorrindo sozinha enquanto manobrava o carro em direção ao fluxo lento do trânsito.

Liguei o rádio em um jazz instrumental baixo. Pelo retrovisor, vi Robert se distrair com os feixes de luz dos postes que cortavam o vidro traseiro. Usei aquele silêncio para me perder em pensamentos.

Nossa vida havia se tornado um deserto de toque. Donovan estava sempre consumido pelo império dos Stewart — jantares de negócios, viagens internacionais, reuniões até a madrugada. Eu havia assumido a parte invisível e silenciosa do casamento: a casa, a rotina do nosso filho, a estabilidade de um lar que ele apenas visitava. Não gostávamos de babás ou empregadas morando conosco; prezávamos por uma privacidade que, ironicamente, acabou nos afastando. Criamos um muro de gelo.

Mas aquela noite seria o ponto de virada.

Enfiei a mão na bolsa de couro no banco do passageiro, tateando a embalagem rígida da boutique de luxo onde passei o meu horário de almoço. Dentro da caixa preta, envolta em papel de seda, estava uma lingerie de renda francesa vermelha, num tom profundo e quase obsceno. Uma peça comprada para me fazer lembrar de que eu ainda era uma mulher desejável. Eu ia resgatar o meu marido daquela frieza.

Quando os portões de ferro da nossa propriedade se abriram, a mansão Stewart surgiu diante de nós, imponente e silenciosa. Estacionei na fachada, desliguei o motor e me virei para o banco de trás, soltando a fivela do cinto de Robert.

— Shhh... silêncio, meu amor — sussurrei, levando o indicador aos lábios. — Vamos fazer uma surpresa para o papai.

Os olhos dele se arregalaram em pura adoração. O pai era o seu herói.

— Papai! — ele comemorou, num sussurro trêmulo.

Segurei a mãozinha quente dele. Com a outra mão, joguei a bolsa no ombro, sentindo a caixa de lingerie bater contra a minha costela. Caminhamos a passos leves até a imponente porta de carvalho. Girei a maçaneta devagar, ouvindo o clique suave do trinco.

O hall de entrada estava na penumbra, o mármore brilhando sob o reflexo sutil do lustre. Tudo parecia perfeito. O aroma sutil de lírios frescos flutuava no ar.

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