Capítulo 2 CONTINUAÇÃO

Dei dois passos, e então, o meu mundo parou.

Vozes, os sons abafados vindo da sala de estar. Ruídos que não pertenciam à rotina daquela casa.

O ar sumiu dos meus pulmões com a violência de um soco físico no estômago. Um arrepio gélido subiu pela minha espinha, paralisando minhas pernas. Arrastando o peso do meu próprio corpo, avancei até a abertura da parede e olhei para o centro da sala.

Donovan estava lá.

Ele não estava apenas conversando. Suas mãos estavam enterradas nos cabelos de Vanessa — a ex-esposa do próprio tio dele, Damien.

— Ele a prensava contra si com uma fome selvagem, uma urgência brutal que eu não via há anos. Suas bocas se devoravam no meio do nosso tapete persa.

— O choque cortou a minha garganta, e um engasgo violento de horror escapou dos meus lábios.

O som estraçalhou o silêncio.

Eles se separaram num solavanco. Quando Donovan se virou, a expressão de luxúria em seu rosto se desintegrou, dando lugar a uma palidez cadavérica e patética.

— Seus olhos se arregalaram de forma grotesca, os lábios manchados pelo batom escuro dela tremeram ao focar em mim e no nosso filho. Vanessa, por outro lado, apenas ajeitou o vestido. Um sorriso de puro triunfo cruzou seus traços esculpidos. Ela não tinha medo; tinha prazer na minha ruína.

Uma onda de náusea violenta subiu pelo meu esôfago. A bile queimou a minha boca, e precisei pressionar o estômago para conter o vômito. O asco era físico. Olhar para o homem que jurei amar borrado com o batom de outra mulher me deu um nojo primitivo.

— Meu Deus... o que vocês estão fazendo? — Minha voz saiu rasgada, um fiapo de som que pareceu ecoar como um trovão.

O tremor começou nas minhas mãos e desceu pelas pernas, ameaçando me derrubar. A realidade se partiu em pedaços pontiagudos dentro da minha cabeça.

— O que é isso?! O que vocês estão fazendo na minha casa?! — O grito finalmente rompeu o meu peito, agudo, descontrolado, carregado de uma dor que eu mal conseguia mensurar. A mulher que havia comprado uma lingerie vermelha horas atrás foi assassinada ali mesmo.

Robert, assustado com o tom violento da minha voz e com a atmosfera sufocante da sala, encolheu-se contra as minhas pernas. O sorriso dele sumiu, dando lugar ao pânico puro. Ele desabou num choro alto, desesperado e confuso.

— Mamãe... mamãe... — ele soluçava, puxando o tecido da minha calça.

O choro do meu filho foi a facada que me trouxe de volta do abismo da histeria. Ele não podia ver aquilo. Deixei a bolsa despencar no chão — a sacola com a lingerie inútil tombou como lixo no mármore —, me ajoelhei e puxei Robert para os meus braços com uma força feroz, enterrando o rosto dele no meu pescoço.

— Shh... a mamãe está aqui, meu amor. Não chora. Vai ficar tudo bem... — menti, o peito arfando enquanto eu balançava o corpinho dele num embalo frenético.

Donovan deu um passo vacilante na minha direção, erguendo as mãos como se tentasse conter um desastre iminente. Os olhos dele transbordavam um pânico covarde.

— Sofia, por favor, me escuta... Não é o que você está pensando. A Vanessa veio aqui... foi um erro, amor, eu posso explicar...

Antes que a justificativa torpe terminasse, uma risada curta e seca cortou o ambiente.

Vanessa cruzou os braços, soltando um som debochado que me paralisou. Ela não demonstrou um miligrama de remorse ou vergonha. Fixou os olhos diretamente em mim, medindo-me de cima a baixo com um desdém cruel, saboreando a humilhação que havia me causado. Sem dizer uma palavra, ela deu as costas e caminhou em direção à saída, os saltos agulha estalando contra o piso como marteladas finais no caixão do meu casamento.

A pesada porta de carvalho bateu com um estrondo oco. O silêncio que se instalou na mansão era espesso, sufocante, o silêncio de um túmulo.

Robert continuava a soluçar baixinho contra a minha pele, tremendo devido à energia pesada do lugar.

Dentro de mim, uma fúria selvagem e destrutiva começou a queimar. Eu queria gritar até rasgar as minhas cordas vocais. Queria avançar naquela sala, quebrar os vasos de porcelana, os porta-retratos com nossos sorrisos mentirosos, destruir tudo até minhas mãos sangrarem. Queria avançar no pescoço de Donovan e arrancar aquela máscara de marido perfeito.

Mas as mãos pequenas do meu filho apertaram a minha blusa. Robert precisava de mim. Ele era a única coisa limpa e sagrada que havia restado daquela carnificina emocional. Eu era o teto dele, e eu não podia desabar.

Então, num esforço sobre-humano que esmagou a minha própria alma, eu engoli. Engoli o choro, o ódio fervente, as lágrimas ácidas e a humilhação. Puxo o ar friamente, erguendo muralhas de puro aço ao redor do meu coração quebrado. O choque desapareceu, dando lugar a uma anestesia glacial. Uma frieza que eu não sabia que existia nasceu em mim.

Ergui Robert no colo, sustentei a coluna e levantei o queixo. Olhei diretamente nos olhos de Donovan — que agora não passava de um estranho patético parado no meio da minha sala arruinada.

— Eu vou preparar o jantar do meu filho, dar um banho quente nele e colocá-lo para dormir — anunciei.

A voz que saiu da minha boca chocou a mim mesma. Era monótona, firme, desprovida de qualquer calor ou emoção. Era uma lâmina de gelo.

Donovan cambaleou um passo à frente, estendendo a mão num pedido desesperado de socorro, os olhos cheios de um arrependimento inútil.

— Sofia, por favor... Eu não estou me sentindo bem, me ouve...

— Amanhã — cortei, a palavra saindo seca e definitiva. — Amanhã nós conversamos e decidiremos o nosso futuro.

O rosto dele perdeu o restante da cor, como se tivesse levado um soco físico. Ele entendeu, naquele exato segundo, que a esposa doce e compreensiva que ele enganava havia morrido em cima daquele tapete persa.

Dei as costas sem olhar para trás nem por um breve milissegundo, caminhando firmemente em direção à cozinha com a única coisa que importava salva nos meus braços.

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