Capítulo 3 A REVOLTA

A cozinha estava mergulhada em uma penumbra fria, iluminada apenas pelas luzes embutidas sob os armários planejados. Coloquei Robert sentada sobre a bancada de granito escuro. Suas bochechas estavam vermelhas, manchadas pelo choro, e o corpinho ainda dava pequenos sobressaltos por causa dos soluços que insistiam em subir.

— Olha para a mamãe, meu amor — pedi, forçando meus lábios a desenharem um sorriso que parecia rasgar a minha pele por dentro. Minhas mãos tremiam tanto que precisei segurar firme em seus joelhos para que ele não percebesse. — O que nós combinamos? A torta de maçã, lembra?

Ele limpou o nariz com as costas da mãozinha gordinha e assentiu com a cabeça, os olhinhos redondos e assustados fixos em mim, procurando a segurança que o pai havia acabado de roubar de nós.

— T-torta… com muita espuma no banho? — a voz dele saiu miúda, cortando o que ainda restava de inteiro no meu peito.

— Com muita espuma. A mamãe vai pegar.

Virei-me em direção à geladeira duplex de inox, usando o movimento para esconder a primeira lágrima pesada e quente que escapou dos meus olhos. Quando abri a porta, o visor digital iluminou o meu rosto. O reflexo no vidro revelava uma mulher que eu mal reconhecia: os olhos injetados, a boca trêmula, a postura rígida de quem estava prestes a quebrar ao meio.

Ali, na prateleira do meio, estava a torta que eu havia comprado no dia anterior, cuidadosamente decorada. Ao lado dela, uma garrafa de vinho que Donovan adorava, colocada para gelar de manhã cedo. Uma risada histérica subiu pela minha garganta, mas eu a sufoquei, transformando-a em um gemido abafado. Peguei o prato de louça com a torta e o coloquei sobre a bancada.

Eu conseguia ouvir os passos dele no corredor.

O som do couro dos sapatos de Donovan contra o mármore era um lembrete constante da sua presença. Ele parou no portal da cozinha. Eu não precisei olhar para saber que ele estava ali, escorado na parede, com a postura derrotada de um covarde que acabara de ser pego no próprio crime. O cheiro dele — aquele perfume amadeirado importado misturado, agora na minha mente, ao rastro invisível e asqueroso de Vanessa — empestou o ar purificado da cozinha.

— Sofia… — a voz dele saiu rouca, implorante, rastejando pelo chão. — Por favor, não faz assim. Não fala com essa voz comigo. Briga, grita, quebra alguma coisa… mas não me olha desse jeito.

Ignorei-o completamente. Cortei uma fatia generosa da torta com uma faca de inox, sentindo o metal bater contra a louça com um estalo seco.

— Segura o prato para a mamãe, Robert — instruí, entregando o doce ao meu filho. — Come devagar.

— Sofia, por favor! — Donovan deu dois passos para a frente, estendendo a mão para tocar o meu ombro.

No milissegundo em que os dedos dele roçaram o tecido do meu casaco, meu corpo reagiu de forma primitiva. Dei um passo lateral abrupto, esquivando-me como se estivesse fugindo de uma chapa de ferro em brasa. Voltei-me para ele pela primeira vez, e o nojo que escorria dos meus olhos fez com que ele recolhesse a mão imediatamente, como se tivesse sido queimado.

— Não encoste em mim — balancei a cabeça, a voz saindo num sussurro sibilante, direcionada apenas para os ouvidos dele, para que Robert não percebesse a gravidade. — Nunca mais ouse encostar um dedo no meu corpo com essa mão que estava cravada no cabelo daquela mulher. Não suje a minha cozinha com a sua saliva estragada. Saia de perto de mim e do meu filho.

Donovan engoliu em seco, os olhos arregalados, o peito arfando sob a camisa social amassada. Ele parecia menor, desprovido de toda a arrogância que o sobrenome Stewart costumava lhe dar.

— Foi a primeira vez, eu juro por Deus… Ela apareceu aqui, eu tentei afastar, Sofia… — As mentiras saíam de sua boca de forma automática, patética.

Olhei para ele de cima a baixo, sentindo uma repulsa tão avassaladora que meu estômago voltou a revirar. A calça dele estava desalinhada; o cinto, ligeiramente frouxo. O batom escuro de Vanessa ainda redesenhava os contornos dos seus lábios masculinos. A imagem era de uma crueza pornográfica.

— Você tem exatamente dez segundos para sumir da minha frente antes que eu perca o pouco de dignidade que estou mantendo pelo nosso filho e use essa faca para arrancar esse sorriso cínico da sua cara — disse, mantendo os olhos cravados nos dele, sem piscar. A lâmina de inox ainda estava firme na minha mão direita.

Ele recuou um passo, assustado com a calmaria mortal da minha voz. Olhou para Robert, que mastigava o bolo em silêncio, alternando os olhinhos confusos entre nós dois.

— Eu vou para o quarto de hóspedes — Donovan murmurou, a voz falhando. — Mas amanhã… amanhã nós vamos sentar e consertar isso. Nós temos uma família, Sofia. O império do meu pai, a nossa história… nós não podemos jogar tudo fora por causa de um momento de fraqueza.

— Um… — comecei a contar, a voz desprovida de qualquer calor.

— Sofia…

— Dois…

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