Capítulo 4 ESCOLHA
Ele percebeu que não havia negociação. Deu as costas e caminhou apressadamente pelo corredor, subindo as escadas de jacarandá em direção ao andar superior. O som dos seus passos sumiu no teto, deixando apenas o barulho sutil do relógio de parede da cozinha. Tic-tac. Tic-tac. O som do tempo correndo sobre as cinzas do meu casamento.
Abaixei a faca, encostando as palmas das mãos no granito frio da bancada para apoiar o peso do meu corpo, que ameaçava desabar. Minhas pernas pareciam feitas de gelo prestes a derreter. Olhei para Robert, que havia terminado a torta e me olhava esperando pelo próximo passo da promessa.
— Pronto, meu amor — limpei a boquinha dele com um guardanapo, engolindo o choro com tanta força que senti um nó doloroso se formar na minha garganta. — Agora vamos para o banho. A mamãe vai fazer uma montanha de espuma para você.
Peguei-o no colo novamente. O peso dele era a única barreira entre mim e a loucura completa. Subi as escadas de serviço, evitando os cômodos principais, evitando olhar para o chão onde a minha bolsa de couro ainda guardava a lingerie vermelha. Aquela peça de seda que nunca seria usada agora parecia um monumento à minha própria ingenuidade.
No banheiro do quarto de Robert, liguei a banheira no máximo. Deixei que a água quente subisse, enchendo o ambiente de vapor e camuflando o som dos meus próprios suspiros desesperados. Despi meu filho, joguei o sabonete líquido até que bolhas brancas cobrissem a superfície e o joguei lá dentro.
Por trinta minutos, eu fui a atriz perfeita. Dei banho nele, fiz desenhos de espuma em seus ombros, ouvi suas pequenas histórias sobre os dinossauros da escola e corei o seu cabelo com uma escova macia. Quando o vesti com o pijama de algodão azul, deitei-me ao seu lado na cama pequena.
Abri o livro de histórias e li. Li sobre reinos distantes, sobre príncipes honestos e dragões que podiam ser derrotados. Minha voz não falhou uma única vez. Eu estava operando em modo de sobrevivência, canalizando cada gota de força para manter o universo do meu filho intacto, enquanto o meu desabava em ruínas logo além daquela porta.
Por volta das nove da noite, a respiração de Robert ficou pesada e compassada. Ele adormeceu, com a mãozinha espalmada contra o meu braço.
Beijei a sua testa, afastei-me com cuidado milimétrico para não acordá-lo e levantei-me da cama.
Caminhei até a porta do quarto dele e saí para o corredor escuro da mansão. O silêncio da casa era quase físico, uma criatura viva que me cercava. Dei passos lentos até o topo da escadaria principal e olhei para baixo, para a sala de estar escura.
Lá embaixo, estendida sobre o mármore do hall, estava a minha bolsa de couro. Ela parecia um corpo estirado no chão após um desastre.
Desci os degraus um a um, descalça, sentindo o frio do mármore subir pelas solas dos meus pés. Aqueceu-me uma raiva surda, lenta e purificadora. Acomodei-me de joelhos ao lado da bolsa. Abri o zíper e puxei a caixa preta da boutique. O laço de cetim vermelho desfez-se com um único puxão.
Retirei a lingerie de seda. A renda francesa deslizou pelos meus dedos, macia, luxuosa, impecável. Uma peça feita para o amor, para a entrega, para a celebração de um casamento que, na verdade, já estava morto há muito tempo sob o gelo da indiferença de Donovan.
Segurei o tecido vermelho contra a luz fraca do lustre. Senti o nojo retornar, mas não era mais um nojo que me fazia querer vomitar. Era um nojo que me dava foco. Donovan não merecia aquela mulher. Ele não merecia a Sofia que chorava, a Sofia que tentava agradar, a Sofia que se desdobrava para manter as aparências da dinastia Stewart.
Com um movimento rápido e firme, rasguei a renda ao meio. O som do tecido se partindo ecoou pelo hall vazio como um disparo. Rasguei a seda, retalhei a peça até que ela se transformasse em fiapos vermelhos inúteis nas minhas mãos. Joguei os pedaços de volta dentro da caixa preta, fechei a tampa e joguei-a na lixeira embutida sob a mesa de centro.
A Sofia doce havia sido rasgada junto com aquela seda.
Caminhei até a janela de vidro duplo da sala, olhando para o jardim escuro e para os portões de ferro que nos isolavam do resto do mundo. Amanhã o sol nasceria. Amanhã eu teria que encarar os advogados, a sogra condescendente, o escândalo na alta sociedade e os olhos caóticos de Donovan implorando por um perdão que eu jamais daria.
Eu não sabia como seria o dia seguinte, nem como explicaria para Robert que o seu herói era um monstro de duas caras. Mas de uma coisa eu tinha certeza absoluta, enquanto limpava a última lágrima seca do meu rosto e sentia o meu coração se transformar em uma pedra de gelo intransponível:
Donovan Stewart havia destruído o nosso passado. Mas eu controlaria o nosso futuro.
